"A história é dor, a verdadeira história é a dos gritos. Eis a árvore: na árvore todo o trabalho obscuro se congrega para produzir a flor. Os homens debalde se agitam, desesperam, morrem; a Idade leva-os, espicaçados pelo aguilhão da dor, para um destino natural de beleza. Não passam de títeres: pensam que resolvem, são impelidos, e essa mescla, que um momento se atropela em cena, – gestos, bocas amargas, farrapos tolhidos de dor e impregnados de sonho, essa nuvem de espectros agitados, desfaz-se logo em pó: as órbitas das caveiras que alastram a crosta terráquea não se despegam porém, di-lo Emerson, das estrelas do céu. Fica uma ideia no ar – fica um rasto na terra: a dor transmite-se."
Raul Germano Brandão (Foz do Douro, March 12, 1867 – Lisbon, December 5, 1930) was a Portuguese writer, journalist and military officer, notable for the realism of his literary descriptions and by the lyricism of his speech. Brandão was born in Foz do Douro, a parish of Porto, where he spent the majority of his youth. Born in a family of sailors, the ocean and the sailors were a recurrent theme in his work.
Brandão finished his secondary studies in 1891. After that, the joined the military academy, where he initiated a long career in the Ministry of War. While working in the ministry, he also worked as a journalist and published several books.
In 1896, Brandão was commissioned in Guimarães, where he would know his future wife. He married in the next year and settled in the city. Despite living in Guimarães, Brandão spent long periods in Lisbon. After retiring from the army, in 1912, Brandão initiated the most productive period of his writing career. He died on December 5, 1930, age 63, after publishing a profuse journalistic and literary work.
Published works:
1890 - Impressões e Paisagens 1896 - História de um Palhaço 1901 - O Padre 1903 - A Farsa 1906 - Os Pobres 1912 - El-Rei Junot 1914 - A Conspiração de 1817 1917 - Húmus (1917) 1919 - Memórias (vol. I) 1923 - Teatro 1923 - Os Pescadores 1925 - Memórias (vol. II) 1926 - As Ilhas Desconhecidas 1926 - A Morte do Palhaço e o Mistério da Árvore 1927 - Jesus Cristo em Lisboa, with Teixeira de Pascoaes 1929 - O Avejão 1930 - Portugal Pequenino, with Maria Angelina Brandão 1931 - O Pobre de Pedir 1933 - Vale de Josafat
It is a work that, having as its object the convulsions of the beginning of the 19th century, if it diverges to some extent from the author's fictional work due to the requirement of rigour in the treatment of historical material, it also reveals a tendency to involve the contents in a universalizing sense.
Brandão tem queda para fazer livros que escapam a uma classificação clássica. É difícil descrever este livro: não será um livro de História - é demasiadamente subjetivo - escapa no entanto à definição de romance - há um trabalho exaustivo de investigação histórica e são apresentados vários documentos históricos ao longo do volume. Atrevem-se os editores, hesitantemente, a chamar-lhe romance histórico; não sei se estou de acordo. No que estou de acordo com os editores é que esta é, sem dúvida, uma obra-prima esquecida.
A história é dor, a verdadeira história é a dos gritos.
É esta dor a protagonista do livro; a dor que ecoa através das gerações e gerações de desgraçados, que é enterrada só para, tarde ou cedo, ressurgir em revolta. Em El-Rei Junot, é a História do sofrimento do povo, oprimido primeiro por um monarca absolutista cujo vergonhoso fausto contrastava com a miséria do povo, e depois por um general francês interesseiro que só se interessa pelo roubo e saque do país. É sem dúvida uma "visão arrebatadora" (Jorge de Sena) sobre um episódio marcante da História de Portugal.
Além do interesse literário do livro, é um livro de importância para quem queira conhecer melhor as invasões francesas em Portugal, com documentos históricos e testemunhos em primeira mão recolhidos pelo autor. Brandão procura fazer um retrato global do país neste período, descrevendo a sociedade, o contexto político pré-Guerra Peninsular, os usos e costumes e os vários personagens religiosos, políticos e sociais em jogo além de, claro, todos os acontecimentos políticos e militares associados com a invasão propriamente dita.
Pode ser entediante em algumas partes? Certamente. Há páginas e páginas de documentos históricos que para mim podiam bem ter sido abreviadas. Vale muito a pena, de todas as formas, pela riqueza de detalhes sobre este período histórico, e pelo autor magistral que escreveu esta obra - pelo ponto de vista único que oferece, pela sua escrita que "transcende o verbalismo convencional" (idem). É um autor que insufla vida à História morta, que desenterra a tragédia e o sofrimento que se pressente no bafio dos documentos históricos.
Este livro retrata de forma lírica e histórica a primeira invasão francesa na península Ibérica, focando-se na fuga da família real portuguesa para o Brasil, na entrada dos franceses em Portugal, na instauração da regência temporária de Junot, e por fim na revolta do povo apoiada pelas tropas inglesas contra os franceses. Raul Brandão cita imensos documentos históricos, até demais, para contar em detalhe a história socio-política destes anos. O livro tem imensos pontos de interesse, mas tem também tantos detalhes que torna-se maçudo muitas vezes. A organização dos conteúdos também não me parece particularmente feliz. Por vezes Brandão parece um escritor lírico a contar de forma magnificente a bravura da carnificina ou a intriga dos saqueadores, outras vezes torna-se num soturno historiador a despejar documentos e cartas que pouco interesse podem ter a quem não tenha um interesse profundo em todos os detalhes daquele tempo.
Uma fusão fracassada entre história e literatura, que não é romance histórico. Muitas das fontes ficam por indicar - esta é uma falha do livro enquanto obra de história. O estilo é demasiado convulsivo; o tom demasiado histérico (deve ser o livro com maior número de ocorrências da palavra "gritos") - estas são falhas literárias. Ainda assim, embora as duas estrelas possam fazer supor a contrário, gostei de ler o livro. Diria que só é recomendável para "entusiastas" deste período histórico.
Assim que li a sinopse deste livro fiquei logo curiosa, afinal de contas adoro romances históricos e este foca-se num período sobre o qual quero ler mais. Tenho, no entanto, de confessar, que o livro não correspondeu totalmente ao que eu esperava. Não me levem a mal, é um bom livro, com uma escrita forte mas eu julgava que iria encontrar um livro mais dentro do género de romance ou ficção histórica, com uma história linear que fosse acompanhando a primeira invasão francesa. No entanto, não foi o que encontrei. Julgo que o livro acaba por ser mais próximo à não-ficção (ou então fui eu que o entendi mal), onde o autor vai analisado vários conteúdos. É um livro rico em termos de informação. Em cada capítulo, Raul Brandão, descreve-nos a época, a corte, a população, os franceses e até mesmo a situação em Espanha. Sempre com muito detalhe e com muitos documentos de apoio. Mas, tanta informação e a sua própria estrutura, acabaram por se tornarem algo aborrecidos e me fazerem sentir "perdida" nos acontecimentos. É um livro interessante e muito rico em detalhes históricos, no entanto, não me cativou como eu esperava.