Vilhena educa e instrui as gentes sobre a diferença fundamental entre a classe mais alta e os míseros plebeus. Elogio da Nobreza surgiu originalmente em 1962 e provocou de imediato um grande incómodo na sociedade estratificada do país. As ondas sísmicas que abalaram a classe alta ao ver-se, dessa forma, exposta aos olhos do povaréu tornaram-no muito «visível» para a PIDE como bom exemplo de alguém que dava maus exemplos.
O livro consiste num estudo pormenorizado das características que evidenciam a Nobreza e as distinguem daqueles que naturalmente nasceram para ser os seus lacaios.
Depois desse estudo profundo e minucioso, o Autor partilha uma saga familiar que mostra a evolução da classe alta ao longo de séculos de história do nosso país, culminando precisamente ali, por volta dos anos 60, uma época que trouxe grandes mudanças ao mundo, muito embora por cá... bem, nem por isso.
Neste opúsculo, a mordacidade visceral de Vilhena vira-se contra o emproadismo aristocrata, traçando a história de uma dinastia brasonada, entre a ascensão medieva, a pilhagem dos descobrimentos, a queda no final do século XIX e o ressurgir nos novos corredores de poder político e econónico no século XX. É sátira, demolidora, com a subtileza de um rolo compressor, que desmonta à bruta os ideários de superioridade inata e pedigree das classes altas, apontando os nepotismos e desmandos, tenuemente velada sob sucessão de piadas.
Mais um livro do Vilhena, curto, mas que deu muito gozo ler!
Esperava mais deste, pois pensei que fosse um livro tipo o Depoimento de Americo Tomas, em que a obra serve somente para criticar o regime, sem narrativa, personagens, etc.
Pelo contrário, começa com um rant (comum nas obras de Vilhena) e depois abre a porta para uma narrativa, que acompanha um alfaiate que ascende à nobreza na Reconquista e os seus descendentes vão subindo de cavaleiros a marqueses.
Escusado será dizer, ascendem sempre pelas piores razões, foram sempre oportunistas de primeira, um deles um inquisidor (onde se vê enormes paralelos com as visões do autor sobre a PIDE) outro um socialite de primeira que passa os dias a beber e bater na mulher, etc.
Also, o clichê de aceitar levar cornos do superior para ascender socialmente (quase todos os nobres da linhagem de "Meneses" deixam as mulheres "negociar" com outros nobres) fica mega repetitivo após a segunda vez, enfim.
Ao menos valeu pela qualidade das piadas, mais uma vez, super empacotado com eufemismos, metáforas, etc, e desenhos, até uma paródia de uma peça de teatro, que começa de forma excecional!
Recomendo este mais do que os noites quentes para quem quiser um enredo semelhante (btw, a linhagem do Cruzado D. Egas aparece aqui), com temas semelhantes, mas mais condensado e com uma crítica ao regime muito mais desenvolvida.
Foi esta obra que levou a uma das várias prisões do autor, e creio que sei porquê:
1- Comparações constantes dos métodos bárbaros do Estado Novo com os da Inquisição, Monarquia, dos Colonos e donos de Escravos, Cruzados selvagens, etc.
2- Critica abertamente o facto de muitas famílias poderosas do Estado Novo descenderem de nobres, isto quando nao fazem tudo para serem tratados e vistos como uma classe acima dos outros.
3- Alude, acho eu, a Salazar, quase explicitamente, quando fala que o último descendente do tal alfaiate tinha passado pela educação eclesiástica, tal e qual Salazar, antes de se tornar ministro, ao que mistura várias acusações, todas comuns na altura, mesmo as contraditórias: acusa de ser homossexual, de ter uma panca por assediar mulheres, um preguiçoso, etc