O livro representa um esforço dedicado de investigação sobre o mundo (pouco estudado e investigado pela sociedade civil) dos serviços de informações portugueses. Nota-se bem que espelha o trabalho focado de muitos anos, cruzando diferentes fontes documentais, testemunhais e a própria experiência do conceituado jornalista António José Vilela nos meandros da investigação jornalístico-criminal.
A obra tanto contém reflexões e análises ao enquadramento jurídico-constitucional da atuação dos serviços de informações (com as aporias commumente apontadas), como partilha as pequenas histórias (algumas deliciosas) de que o autor foi tomando conhecimento.
Julgo que a obra ganharia ainda (quiçá em futuras edições) (i) em estar mais bem sistematizada, uma vez que, nalguns pontos, parece apenas um desenrolar de episódios mais ou menos romanescos, e (ii) em remeter menos alguns apontamentos para as notas finais de rodapé e/ou, ao invés, incorporá-las no próprio texto ou em notas de rodapé ao próprio texto. Como está, prejudica-se a leitura, uma vez que o leitor é confrontado com a escolha de ir virando e revirando páginas, alternando entre o texto e as notas finais, ou desistir das notas finais (optei por esta última, com pena).
De qualquer forma, isso não prejudica a conclusão de que é uma boa obra, quer para estudiosos especializados, quer para meros amadores não-iniciados, mas interessados na temática (como é o meu caso). É também um bom contributo para o conhecimento da identidade (sempre que razões de segurança o permitem, o que me parece não ser sempre o caso (por ex., quando o autor (censuravelmente, a meu ver) identifica o operacional com recurso a siglas, mas depois nomeia, por extenso, o respetivo progenitor)) dos principais protagonistas desta comunidade portuguesa das informações nas últimas décadas.
Desta leitura extraí, como conclusões, (a) a enorme e preocupante endogamia que grassa nesta opaca comunidade dos serviços de informações, (b) a necessidade de estancar esta teia de comissões de serviço, oriundas da diplomacia, da magistratura, das forças de segurança ou do alto funcionalismo público, trocando essa teia por um corpo estável (cf. o último relatório do Conselho de Fiscalização, por ex., sobre a grande rotatividade que grassa na chefia do CISMIL), bem preparado, bem remunerado e bem motivado, de profissionais das informações (seja com perfis mais operacionais, seja com perfis mais analíticos), (c) a premência da sociedade civil se manter interessada e vigilante sobre a atuação dos serviços de informações, um exercício para o qual esta obra é um bom contributo, e, por fim, (d) uma séria reforma do modelo de fiscalização, que o despolitize (atualmente, dois dos três membros do Conselho de Fiscalização são ex-membros do anterior Governo, mas do mesmo partido e Primeiro-Ministro que o atual) e lhe confira efetivos e eficazes poderes de fiscalização.
Naturalmente, esta revisão é uma opinião estritamente pessoal.