"Romance", título deste longo poema, é a narrativa de uma peregrinação iniciática entre as sombras do sonho nos corpos do desejo, entrecruzando memórias, mitos, despojos de guerra no exílio da vida, ecos bucólicos de Bernardim Ribeiro, autoestradas nos subúrbios das cidades sitiadas e amores tão antigos como o tempo do mundo.Helder Macedo, uma das vozes mais marcantes da literatura de língua portuguesa contemporânea, apresenta-nos no seu novo livro Romance, escrito no ano em que completa oito décadas, uma obra inovadora que não deixará de surpreender, uma vez mais, os leitores.
Hélder Malta Macedo é um poeta, romancista, ensaísta, crítico e investigador literário, português. A sua obra ficcional, de entre a qual se destaca o romance Partes de África (1991), no qual o autor usa técnicas narrativas para revelar as ficções da memória, expondo a fronteira entre o facto e a invenção, é considerada uma das mais originais da literatura portuguesa contemporânea.
Hélder Macedo, grande estudioso da obra de Bernardim Ribeiro, poeta, romancista e ensaísta, dá ao lume, contrariamente ao que se poderia esperar de um autor que complete oitenta anos, um regresso ao passado inexistente, ou melhor, um eflúvio de papéis de igual importância sobre os quais não me posso alongar, mas dos quais saliento a reflexão acerca do papel do indivíduo na cidade, que, como se verá, o anula antes de ter nascido. Note-se que faz tudo isto movendo-se num estilo bastante saudável e afastando-se, sempre que possível, das paragens malsãs de autores que utilizem a sua experiência como faca de dois gumes que, ora lhes fere o próprio âmago, ora golpeia o coração do leitor. No fundo, Romance é uma boa peça na completação do trabalho dos modernistas cujo fito fosse criticar a sociedade e as desigualdades sociais, o que, quer se pressuponha que funcionasse com admoestação ou simples reforço da mesma, estará decerto contido neste longo poema. São personagens desta «peregrinação iniciática» um “ele”, uma “ela”, um amante e dois namorados, mas cujo lapso identitário de si e da «alma fugitiva», («a menina do tempo antigo»), no âmbito das primeiras, já no decurso do sonho analéptico, que poderia ser o subtítulo deste longo poema, bem como a sua inaptidão presente, enquanto reféns da adultícia, «o tempo de sonhar sonhos iguais», represente o início de uma longa cadeia «perene» de eventos, revelando o seu paroxismo em “um olhar de um olhar de um olhar”, implorando, a figura feminina, a extinção do tempo, com intuito de que a inação última não torne redundante o tom tonificante da diegese a ponto de a transformar num reconto de reminiscências, que não o deixa de ser, ecos vindos desde Bernardim Ribeiro até T.S Eliot para apregoar a desgraça de amores proibidos e irreconhecíveis («morcegos com/ caras de crianças), resultando na execução de um de dois amantes, que fecham o segredo dos segredos, porventura um sussurro amoroso ou a palavra de um adeus, no palco da guerra e dor, gorando, independentemente destas súplicas, todos os seus esforços para reaver «a menina do tempo antigo», na medida em que não a podem recuperar nunca, conforme o sonho descrito por Bernardim Ribeiro, «E disse “Mal à ventura/ e à vida, que não morri.”/ E muito longe dali / ouvi, como d’alto outeiro, /chamar “Bernardim Ribeiro /e dizer “Olha onde estás!” /Olhei diante e detrás /e vi tudo escuridão. /Cerrei meus olhos então/ e nunca os mais abri, / e, depois que o ver perdi, / nunca vi tamanho bem. /Porém, inda mal, porém.». Por fim, tornamos ao início para, numa explosão luminosa em que reste um ponto morto, esse «sol negro/ (…) na superfície gelada/ duma tela em branco», observarmos em contraluz a clarividência de um “ele” que estivesse perante a morte mas que, mesmo assim, devendo perecer a alma e o entendimento naquele segundo, acha um indício de «uma vida vivida onde vida não há». Em suma, concluo esta obra com mais dúvidas que certezas, na medida em que o enigma identitário sobredito, novo vértice literário assente na soma de Jano a Artemisa, o primeiro dando azo a todo esta incógnita, a segunda não sabendo que namorado condenar, depois que os cães perderam a esteira da sua caça, isto é, de um corpo incorpóreo – há maior virgindade que esta? No fundo, será Romance um monólogo ou um colóquio? Porventura o namoro de si próprio na procura da virgindade? Creio, conforme sempre acreditei, que seja o leitor o responsável pela escolha da opção com que mais se identifique.
"e depois ficar tudo tão calmo como uma praia à noite quando as marés adormecem sobre si próprias sem ondas sem gente sem barcos a chegar e a partir com a escura claridade das estrelas a sossegar o sono ... " "... se tivessem ido a tempo se o tempo desacontecido voltasse a acontecer se tivesse havido um barco que os levasse ao tempo"