Este livro-reportagem é daqueles raros que esgota – destrincha até não sobrar dúvida – o assunto a que se dedica: a histórica e macabra sociedade entre jogo do bicho e ditadura militar. Seus personagens principais, Anísio, o “papai” da Beija-Flor, Castor de Andrade, o benfeitor da Mocidade Independente, e Capitão Guimarães, militar e torturador dos calabouços da ditadura, cresceram e apareceram (não sem muito sangue) no ambiente terrivelmente favorável dessa parceria.
Neste Os porões da contravenção, Aloy Jupiara e Chico Otavio recriam a fauna de terror em que os bicheiros foram buscar os braços que lhes garantiriam segurança, território e organização. E vão muito além de escancarar – o que por si só já representaria um marco jornalístico – as manobras por meio das quais o regime não apenas protegeu, mas permitiu e mesmo estimulou, o desenvolvimento sustentável do crime organizado no Rio de Janeiro e, logo, no Brasil.
Com uma pesquisa detalhada, este livro trata sobre o vasto poderio dos barões do crime organizado no Brasil, explicitando a relação direta entre o crescimento da contravenção com a queda do aparelho de repressão militar nas décadas de 1970 e 1980. Embora seja maçante em determinadas passagens, o livro tem seus méritos. O que mais me interessou foram as conexões entre o jogo do bicho e as escolas de samba do Rio de Janeiro - desde samba enredos que exaltavam o governo militar quando este entrava em colapso até as disputas pelo comando das agremiações das grandes escolas e a "democratização" do samba pelos bicheiros. Leitura interessante. Recomendada para os curiosos.
Uma história real e fascinante da contravenção no Rio de Janeiro. O autor liga todos os pontos transformando a narrativa em um verdadeiro "Então é por isso..." hoje tenho uma visão muito mais ampla de todo este universo.
Coro puxado por Castor de Andrade numa ocasião. Não entendeu? Revolveres possuem espaço para seis balas... agora ficou mais fácil.
O livro traz uma série de reportagens compiladas e dá maior entendimento do submundo no tempo. Como não acompanhei, ou mesmo acompanho, esses assuntos diariamente pela imprensa, o livro traz muita informação que não sabia. Mesmo sendo do Rio de Janeiro. ouvia por cima. Mas não sabia que era tão sangrento.
Aliás, o que não faltam são assassinatos, tortura e corrupção. Teve horas que tive que parar de ler porque é um assunto meio pesado. Uma realidade cruel e presente na nossa sociedade.
O livro investiga a relação entre o crescimento da contravenção e a ditadura militar nos anos 70 e 80, com foco em figuras como Castor, Anísio e Capitão Guimarães. Os autores mostram que os bicheiros não apenas recebiam regalias por agradar ao governo, mas também contavam, em suas próprias equipes, com vários oficiais das forças armadas.
O caso de Capitão Guimarães é apresentado como o exemplo mais evidente dessa relação. Guimarães, um capitão do Exército formado na AMAN, que atuou nos porões de tortura, se tornou, mais tarde, um dos maiores bicheiros do Rio de Janeiro. Só que ele não foi o único, foi só o mais bem-sucedido entre muitos. O livro traz depoimentos de vários oficiais e policiais que protegiam os bicheiros, atuavam como seus seguranças e, em alguns casos, mantinham seus próprios esquemas dentro da contravenção.
Algo que me marcou muito foram as partes em que se fala da Casa da Morte e da quantidade de torturadores que passaram por lá. Não apenas nunca foram responsabilizados pelos crimes que cometeram, mas, pouco tempo depois, estavam desfilando em escolas de samba com enredos completamente opostos ao que representavam, como no caso de Ratos e Urubus, da Beija-Flor.
O livro também aborda o caso de Rubens Paiva, mencionando que alguns de seus assassinos, assim como Paulo Malhães (que depôs na Comissão da Verdade e revelou o que foi feito com o corpo), faziam parte do esquema do jogo do bicho.
Enfim, é uma narrativa fluida e rápida, uma ótima leitura pra quem se interessa pelo tema, seja academicamente ou por ter assistido Vale o Escrito.
incrível. todas as histórias contadas por aloy e chico são extremamente reveladoras e para mim, inéditas, resultado de uma pesquisa minuciosa e detalhada, indo a fundo nas conexões entre ditadura, contravenção e samba
Eu peguei este livro enganado. Não pelo livro, mas porque eu estudo o crime organizado no Brasil (e no mundo, na medida do possível e do tempo disponível) e num livro q li tempos atrás, sobre a milícia, o autor dizia q a origem delas vinha do jogo do bicho e da época do regime militar. Este livro faz exatamente isso: mostra a transformação do bicho amador no bicho profissional, com a ascensão dos grandes bicheiros, mas não cita uma única vez a formação das milícias.
Eu concordo com o que disse o autor do outro livro, me parece ser bem claro enxergar a formação das milícias com o bicho e militares q migraram do regime pra contravenção, mas faltam provas e documentos q eu achei q encontraria aqui.
Deixando isso de lado e tirando o fato de que este livro é "politicamente engajado", o q pra mim não interfere muito já q tenho minha visão de mundo definida, o livro é rico em documentos mostrando a ligação entre bicheiros e ex-militares oriundos do regime militar, mas fora isso não acrescenta muita coisa. Ele é um compilado de matérias de jornais, processos, trechos de livros, etc. Mostra a óbvia ligação entre bicheiros e escolas de samba e no final das contas, a ligação do bicho com o regime militar que existiu, acaba admitida pelos próprios jornalistas e citando bicheiros, apenas pragmática. Como disse Castor de Andrade, o mais icônico deles e talvez tenha sido o mais poderoso, "o bicho é sempre governo, seja ele de que lado for". Em suma, os bicheiros eram pro-regime militar quando ele era forte e pularam do barco tão logo o regime ruiu e passaram a ser aliados dos governos q viriam posteriormente, eleitos pelo voto.
Eu só recomendo a leitura pra quem realmente estuda o crime organizado, e estes (como eu) vão querer ler tudo q sai sobre o assunto, mas de pouca importância pra quem não se interessa pelo assunto.
Destaco ainda, mas não vou me alongar demais, no fato de que todos os bicheiros foram condenados diversas vezes, mas pegaram pouca cadeia o que mostra q o grande problema brasileiro (e insolúvel) é a legislação penal, criada, modificada e aperfeiçoada pra facilitar a vida dos criminosos, encher os bolsos de advogados criminalistas (muitos me lendo neste momento 😘) e já desde aquele tempo até os dias de hoje, os maiores criminosos q pagam aos melhores criminalistas q são especialistas nas brechas do código penal, sempre saem livres e quando cumprem pena, é só por pouco tempo. Logo algum tribunal superior os liberta. Bicheiros, traficantes, políticos, empreiteiros, doleiros, todos estão livres e rindo da cara do cidadão de bem.
Eu não dou nota no meu critério pessoal pra livros de não-ficção, mas darei 3 estrelas no Goodreads.
Leitura fundamental para os interessados na origem e estrutura organizacional da contravenção no Rio de Janeiro. Um setor da contravenção que não dialoga somente com a subcultura do crime, se fazendo presente e ganhando legitimidade nos grandes palcos do entretenimento regional (samba e futebol). O contraventor, anti-herói carioca, malandro, ganha aceitação na vida pública e consegue impossibilitar qualquer tipo de julgamento social que afete sua credibilidade. Missão terrível para as autoridades... Entender a cidade do Rio de Janeiro passa por compreender essa estrutura. Assim como o estudo acerca das organizações criminosas não pode se desvencilhar de sua origem histórica siciliana.
Todo brasileiro deveria ler Um livro que mostra claramente a corrupção e a criminalidade se entremeando na ditadura brasileira. Aos que não assistiram e quiserem complementar a leitura, recomendo o documentario "Vale o Escrito" que está no globoplay.
Livro muito interessante que detalha bem a relação de três dos principais contraventores do país com a ditadura militar. A leitura se encerra deixando a vontade de conhecer mais a fundo o universo complexo do jogo do bicho e suas articulações políticas.