Já conquistaram as mulheres o direito ao espaço público? Já lhe redesenharam as fronteiras? Quem, de que forma, vem abrindo lentamente esse caminho? Historicamente, a tarefa do feminismo tem sido questionar a memória dominante, re-escrevendo-a. Muito do pensamento feminista mais progressista é hoje oriundo dos meios universitários norte-americanos, onde nomes como os das autoras agora antologiadas movem pequenas multidões interessadas.
O projecto arrojado e totalmente inédito que é esta selecção de ensaios, da responsabilidade da Professora Doutora Ana Gabriela Macedo, pretende dar conta da amplitude desse crescente debate em torno da teoria e da crítica feministas, evidenciando alguns dos seus aspectos cruciais ao longo dos anos 80 e 90 (resumidos nos três tópicos enunciados no título -- Género, Identidade e Desejo). As autoras traduzidas pertencem a uma espécie de vanguarda iluminada, evidentemente distante do incipiente (quasi-inexistente?) pensamento feminista português contemporâneo. Houve, porém, o cuidado de escolher textos que funcionam independentemente do meio que os suscitou, e que, de diferentes maneiras, condensam o pensamento feminista anterior (nomeadamente o da importantíssima escola francesa). Diz a organizadora na Introdução:
Tentar ver, como mulher, a partir do centro. (...) Nós não somos ‘ a questão feminina’ levantada por outra pessoa qualquer; nós somos as mulheres que levantam essas questões. (...)
E mesmo quando nos vimos livres de Marx juntamente com os académicos marxistas e o sector da esquerda, algumas de nós, autodesignadas feministas radicais, ao falarmos de libertação da mulher, nunca quisemos outra coisa senão a criação de uma sociedade livre de soberanías; nunca quisemos mais do que o renovar de todos os relacionamentos. O problema foi desconhecermos o que queríamos dizer quando dissemos ‘nós’.