José de Sousa Saramago (16 November 1922 – 18 June 2010) was a Portuguese novelist and recipient of the 1998 Nobel Prize in Literature, for his "parables sustained by imagination, compassion and irony [with which he] continually enables us once again to apprehend an elusory reality." His works, some of which have been seen as allegories, commonly present subversive perspectives on historic events, emphasizing the theopoetic. In 2003 Harold Bloom described Saramago as "the most gifted novelist alive in the world today."
“A responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”. Sem palavras para esse livro. Li para um Clube do Livro organizado com algumas amigas e no início achei que seria uma discussão limitada e não muito reveladora, mas o livro a cada trecho se mostrava mais revelador, propondo inúmeras reflexões tanto individuais quanto sociais.
E se as pessoas começassem a ficar cegas, como uma epidemia de cegueira? Como seria? A organização social que temos atualmente entraria em colapso? Cegos podem governar cegos? O que é necessário para exercer poder “legítimo” ou “ilegítimo” em um situação extrema?
5⭐ Estou há quase uma semana para escrever esta review. Este é um livro desconcertante e Saramago sabia-o, visto que em 1995 disse: "Este é um livro terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri a escrevê-lo". Nalgum país, um senhor cega no meio do trânsito e, depois de ser ajudado por outro senhor e ir ao oftalmologista, estes cegam també. Começa assim uma nova epidemia. As pessoas veem tudo branco e são obrigadas pelo Governo a fazerem quarentena num hospital abandonado longe da cidade, onde têm de lutar para sobreviver. Acho que fomos todos marcados pela palavra "quarentena" e gabo as pessoas que tiveram a coragem de ler este livro em 2020 e 2021. Esta é claramente uma crítica social. Saramago, em 1995, dizia-nos que estamos todos cegos para os problemas sociais, sobretudo as desigualdades de género e entre classes sociais. Temas ainda demasiado presentes. Mas doenças não olham a nada disso, atingem quem tiver de ser. No entanto, as doenças conseguem salientar essas diferenças e, por vezes, intensificá-las, por exemplo, através da mentalidade do "eu" vs o "outro". Em "Ensaio Sobre a Cegueira", as personagens apenas conseguem sobreviver porque há alguém que os ajuda. É natural precisarmos de ajuda nos momentos em que estamos mais vulneráveis, mas é preciso que alguém seja altruísta o suficiente para tal. Muitas vezes, cabe-nos a nós ser essa pessoa, não podemos ser cegos aos problemas dos outros, mesmo quando o resto da população não os quer reconhecer: "A responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam." Adorei este livro e vou levá-lo comigo para o resto da vida.
Que viagem pelo pior e melhor do ser humano em tempos caóticos!
Penso que este será um livro a que vou voltar ao longo da vida e para o qual preciso de tempo para deixá-lo crescer dentro de mim. (De salientar que esta primeira leitura foi feita em plena pandemia COVID 19.)
COVID-19 quarantine was definitely not the right moment to read this for the first time. Saramago has always been a tough read for me but this one especially difficult since it feels real right now. I often used to wonder what would be blind or deaf be like, it's something I was really afraid/curious during my childhood and I used to do this thing where I would spend some time thinking about which one I would choose if I had to be one of the two. So reading this book really freaked me out, to the point I had to force myself to keep reading, Saramago's writing style its already a little bit suffocating but this one my made eyesight hurt. Made my eyes tired. It made me have weird dreams. But I think what is most choking is how fragile humanity is, how easily modern life can crumble.
Review O Ensaio Sobre a Cegueira: A Arquitectura de Um Romance, de José Saramago. 59/2020 5⭐️
Este livro é uma compilação de alguns textos dos Cadernos de Lanzarote do autor sobre o seu processo de criação da obra magistral que recebeu o Nobel em 1998, e é O livro da minha vida, O Ensaio Sobre a Cegueira.
Juntamente com estes textos dos Cadernos, são entrosados apontamentos que o Mestre foi tirando, antes e durante a escrita do Ensaio.
Embora já conhecesse a maior parte dos textos, é sempre bom voltar às suas palavras. É sempre aconchego, é sempre casa.
É difícil uma narrativa agradar-me, portanto as 5 estrelas desta valem muito. A ausência de nomes dos personagens, de contexto histórico e cultural, assim como a atemporalidade desta obra, torna-a aplicável até aos dias de hoje, mesmo 30 anos após a sua publicação. José Saramago claramente conhece a natureza humana, e mostra isso não só com a caracterização e reações dos personagens, mas também pela maneira que manipula o leitor. Prometo que ninguém perde nada a ler este livro, mesmo que achem o estilo de escrita complicado de entender, tenho a certeza que ao fim de um tempo torna-se extremamente intuitivo.
Eu decidi ler o romance “Ensaio sobre a Cegueira”, não só porque aprecio a obra de Saramago, mas também pelo interesse provocado pela sua adaptação cinematográfica, quando o filme foi lançado. Foi nessa altura que li este livro. Penso que este romance provoca um sentimento de consciência da exclusão dos que são diferentes, com o cenário apocalíptico do genocídio dos cegos cuja cegueira é transmissível, assim como o caos social subsequente. O autor faz uma crítica à sociedade, aos seus líderes ignorantes e ao egoísmo e maldade humanos, criando um estado de compaixão e de horror face à injustiça que relata, nomeadamente com as mortes desnecessárias, a maldade dos homens, o tédio vivido, o caos instalado com o “mal-branco”. Na minha opinião, este é um dos melhores romances de Saramago, tem uma grande capacidade de prender o leitor e recomendo-o vivamente.
Pelo título, tinha uma ideia completamente diferente do que seria a história, mas fui surpreendida e gostei. O livro retrata um cenário apocalíptico, no qual há uma pandemia de cegueira. São descritos os diversos momentos em que várias personagens vão, no seu quotidiano, cegando, bem como tudo o que acontece posteriormente (confinamento, falta de saúde pública, fome e morte - dei por mim a estabelecer vários paralelismos com o covid). Todas essas personagens formam um grupo coeso e é interessante acompanhar o modo como vão ultrapassando as sucessivas adversidades juntos. A juntar a isso, há espaço para fortes críticas sociais (bem pertinentes, diga-se de passagem), sejam elas mais implícitas ou explícitas. Não obstante, gostei bastante da metáfora que perpassa a trama, sobretudo aquando de uma análise mais profunda, consolidada no fim do livro.
Quanto à escrita, é certo que Saramago tem uma escrita emblemática, que, ao início, torna-se de difícil leitura, mas depois habituamo-nos. Até porque é uma escrita muito rica.
Fiquei muito curiosa para ler o ensaio sobre a lucidez, também deste autor.
3,5⭐️ é uma escrita densa, por esse mesmo motivo demorei mais para ler, mas como no “Memorial do convento” acabei o livro a repensar tudo e a ter 3 crises existenciais, que este homem é um genio acho que todos ja sabem, mas se não… leiam este livro
“Com o andar dos tempos, mais as atividades da convivência e as trocas genéticas, acabámos por meter a consciência na cor do sangue e no sal das lágrimas, e, como se tanto fosse pouco, fizemos dos olhos uma espécie de espelhos virados para dentro, com o resultado, muitas vezes, de mostrarem eles sem reserva o que estávamos tratando de negar com a boca.”
“É desta massa que nós somos feitos, metade de indiferença e metade de ruindade”
José Saramago senta-se num café a discernir sobre a humanidade e questiona-se “e se fôssemos todos cegos?”, uma pergunta para a qual encontra imediatamente uma resposta, nomeadamente, que o ser humano já se encontra extraviado da visão. É esta conclusão que incita o autor a escrever "O Ensaio Sobre A Cegueira", uma tentativa frustrada de admoestar o ser humano para a sua falta de humanidade, e, consequentemente, de defesa da máxima positivada no 1º artigo da Declaração Universal dos Direitos do Homem segundo a qual os indivíduos “devem agir em relação uns aos outros com espírito de fraternidade”.
Ao imaginar uma “cegueira branca” que conta apenas com uma personagem imune à mesma, José Saramago pretendeu expor a natureza humana, como se diz coloquialmente, “nua e crua”. Para o efeito, restabelece o estado de natureza que é teorizado por diversos filósofos, nomeadamente Thomas Hobbes, Montesquieu, John Locke ou Jean-Jacques Rosseau através desta epidemia que entrega o Homem aos seus instintos de sobrevivência. O estado de natureza que a obra concretiza segue a perspetiva hobbesiana de que a crueldade é inerente ao genoma humano, verificando-se neste uma vida “solitária, pobre, desagradável, brutal” (Leviatã, Thomas Hobbes).
Conforme referido, apenas uma personagem sobrevive a esta cegueira, designadamente a “mulher do médico”, que assumirá a responsabilidade pelos cegos da sua camarata (inicialmente os cegos são colocados em quarentena num manicómio abandonado fora da cidade) ao longo da narrativa. O autor deixa à interpretação do leitor a razão pela qual a cegueira não contamina a personagem referida. Na minha opinião, o autor resguarda a mulher do médico da epidemia devido à sua solidariedade e compaixão pelo próximo (notória desde o princípio da diegese), enfatizando o epodo da obra que se encontra cristalizado na sua epígrafe. Ou seja, acentua, destarte, a necessidade de um agir ético por parte do Homem, de ser capaz de se retirar do seu conforto para se preocupar com o próximo e auxiliá-lo, para se manifestar contra as realidades inclementes que tornam vulneráveis os preceitos de defesa dos direitos humanos positivados, logrando ultrapassar o seu individualismo que, na opinião do autor, lhe é intrínseco (a vontade de não querer ver, de não querer ser incomodado).
Gostaria também de destacar, brevemente, um momento na narrativa em que, emocionalmente sobrecarregada, a protagonista (a mulher do médico) chora e um cão de rua a conforta. Esta ênfase deve-se sobretudo a uma entrevista que José Saramago concedeu à Sabatina Folha de São Paulo sobre o livro, na qual afirmou que “nós não merecemos a vida. Não se percebeu ainda que o instinto serve melhor os animais do que a razão serve ao Homem. O instinto é admirável. [O animal mata quando precisa de comer.] Nós matamos por prazer, por gosto, vivemos na delinquência, na violência.” O cão, somente servido de instintos, contrasta na sua comiseração com a cegueira que conspurca o âmago do Homem, isto é, a abjeção e gradual egocentrismo da espécie.
A obra literária de José Saramago possui uma explícita dimensão filosófica, assentando esta, num primeiro momento criativo, num rotundo “não” dirigido aos fundamentos conceptuais da história da civilização ocidental, na sua subversão num segundo momento, ostentando uma outra possibilidade histórica que reconcilie os homens consigo mesmos, avultando-se um Saramago defensor dos Direitos Humanos. Ora, é esse cunho humanista do autor que assina esta obra, como notabiliza a epígrafe da mesma já mencionada no supra exposto, mas que passo a citar: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”, à qual eu considero fulcral aditar “Se reparas, age.”, sendo insofismável o facto de que o ato de reparar é meramente módico, e por isso insuficiente para a transformação do paradigma de inércia que assola a defesa da Humanidade.
Muito bom. Adoro Saramago. Lê-se muito bem. Personagens interessantes e boa narrativa. Já tinha uma ideia da história e achei que haveria uma explicação mais óbvia no final. “Não cegámos, penso que estamos cego, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.”
Desde o início o livro nos provoca sobre a transitoriedade da vida, sobre o fato de que tudo pode mudar de uma hora para outra. Nas primeiras páginas acompanhamos um homem que, parado no sinal de trânsito, cega atrás do volante. Não nos é apresentado nenhum aspecto sobre esse personagem anteriormente; assim como ele, de um momento para o outro, também começamos a acompanhar a história nos perguntando: “o que está acontecendo?”
Esse homem, que receberá a alcunha de “o primeiro cego”, grita desnorteado que não vê. Entretanto, diferente da cegueira ordinária — caracterizada pela ausência de luz —, aqui a cegueira de Saramago é descrita como uma imersão em leite branco. A originalidade deste detalhe está em subverter a ideia comum de que o medo habita o escuro: aqui, o que deveríamos temer não é uma cegueira que retira a luz, mas uma que, por excesso dela, impede de ver além.
Após cegar, “o primeiro cego” vai a um oftalmologista, que o examina e afirma não haver razão orgânica aparente para aquela cegueira — até que o próprio médico também cega, assim como todos que cruzaram o caminho desse paciente zero. O governo é alertado pelo oftalmologista de que pode haver uma epidemia em curso, e responde com bastante celeridade, isolando todos os primeiros cegos em um antigo manicômio desabitado.
O filósofo Michel Foucault, em diversas obras, dedicou-se a estudar os processos de exclusão utilizados ao longo da história da humanidade. Parece que Saramago resgata esse conceito já no início do livro, ao propor o espaço no qual pessoas cegas são colocadas à margem de uma sociedade que não as quer ver.
Esse processo de exclusão dos cegos revela, em alguma medida, uma cegueira moral e social: os primeiros contaminados se encontram ilhados em um espaço em que nem mesmo o Estado garante o bem-estar social, sendo a eles atribuída a responsabilidade pela gestão do convívio e dos recursos. Talvez seja válido perguntar: por quantas vezes o Estado, enquanto representação social, excluiu aquilo que lhe era difícil de ver?
Quanto a isso, Sigmund Freud, em sua obra O Estranho, pontua que aquilo que é mais familiar ao sujeito — aquilo que estaria em seu estatuto de verdade, que o remeteria à sua própria constituição —, por vezes, opera como aquilo que mais medo ou inquietação lhe causa. Fazendo um paralelo com a obra, podemos pensar que uma epidemia que cega os outros é tão apavorante justamente por lembrar a todos que qualquer um pode estar à mercê de perder algo considerado tão fundamental. A exclusão dos cegos na obra de Saramago não parece diferente da exclusão dos deficientes, dos loucos, dos leprosos em outros momentos da história — tirar de vista aquilo que nos lembra que a vida é incompleta, e que podemos, de um momento para outro, perder aspectos que consideramos indispensáveis.
O manicômio, adaptado a um isolamento forçado, vai ficando cada vez mais cheio, e nós, leitores, vamos acompanhando essa progressão da epidemia a partir de alguns personagens-chave que, não por acaso, são destituídos de nomes próprios, funcionando como arquétipos: “a rapariga de óculos”, “a mulher do primeiro cego”, “o garoto estrábico”, “o oftalmologista” e “a esposa do oftalmologista”. Entre todos, a única a preservar a visão é a esposa do oftalmologista, que o acompanha na quarentena para que ele não fique sozinho. E é pelos olhos dela que temos acesso às dificuldades de uma sociedade tomada por tamanha cegueira.
Aos poucos, o leitor, assim como os personagens, vai se deparando com uma série de afazeres tomados como do dia a dia e que, ainda assim, são tão vinculados à capacidade de ver. De fato, o manicômio se encontrava em situação degradante, mas, além disso, existe o fato de que nada ali — e podemos dizer que tampouco em nossa sociedade — está adaptado para quem não tem visão. Assim, do básico, como as necessidades de evacuação e locomoção, vamos, pouco a pouco, cambaleando, tal qual cegos sem bengala em um espaço sem qualquer adaptação. Nesse sentido, é importante salientar que as pessoas ali estão entregues às próprias vistas e à própria sorte, tendo o Estado se eximido de qualquer responsabilidade para além de, precariamente, alimentá-las.
O pai da psicanálise, Sigmund Freud, escreveu alguns textos sociais, entre os mais célebres Totem e Tabu, Psicologia das Massas e O Mal-Estar na Civilização. Neles, em diferentes momentos, Freud trabalha a necessidade histórica de se construírem poderes moderadores, principalmente no que diz respeito a limitar os sujeitos para que uns não destruam os outros. Freud postula a pulsão de morte — aspecto inconsciente que direcionaria todos os sujeitos a um estado de anulação das tensões, à própria destruição —, e isso se manifesta nas organizações sociais, seja no benefício próprio que destrói os outros, seja na formação de pequenos grupos, organizações paranoicas e movimentos de extermínio das diferenças, sejam elas pequenas ou grandes.
Em Ensaio sobre a cegueira não demora muito para que surjam pequenos líderes (seja pela sabedoria, pela confiança ou pela força), assim como pequenos grupos. Pois, embora todos estejam cegos e tenham sido excluídos pelo Estado, acabam, pelo princípio da alienação, não reivindicando que esse Estado os auxilie, mas se dividindo ainda mais e formando movimentos extremos pautados no princípio do benefício individual à frente do benefício coletivo.
Em oposição à barbárie e ao processo de animalização que ocorre no livro, temos a personagem da mulher do oftalmologista — não por acaso a única a conseguir conservar a visão. Ela se posiciona, ao longo de toda a obra, de forma absolutamente altruísta, cuidando do marido e dos outros ao custo de vislumbrar a decadência de toda a sociedade, e por vezes desejando também estar cega para se aliviar do incomensurável que a visão lhe impõe. Talvez seja possível pensar que a permanência da visão da mulher do oftalmologista não se trata apenas de uma casualidade, mas de uma escolha literária e, sobretudo, ética dessa personagem que, diferente do antigo Édipo de Sófocles, parece não estar disposta a abrir mão de sua posição.
A falta de espaço, a fome, o acúmulo de lixo, de dejetos e de corpos, assim como a violência física e psicológica perpetrada por certos grupos no interior desse exílio, encaminham todo o espaço para uma certa entropia, na qual a única possibilidade é a desorganização — seja ela social ou interna a cada um desses sujeitos. Seríamos nós criaturas de necessidades? Sem qualquer ordem maior, haveríamos de nos organizar para satisfazer nossas necessidades de alimento, sono e sexo? Quão rápido deixaríamos de nos importar com a higiene de nós mesmos e do espaço fétido?
Em grande medida, o livro resgata inúmeras discussões sociológicas e filosóficas sobre a natureza humana. Podemos colocar em oposição os pensamentos de Thomas Hobbes e Jean-Jacques Rousseau, sendo que o primeiro descreve o homem como naturalmente mau e o segundo como naturalmente bom. Desse modo, Ensaio sobre a cegueira parece questionar a natureza do homem e a importância do social em sua constituição.
Não muito distante, a obra de Saramago parece trabalhar o olhar como conceito — assim como fez o psicanalista Jacques Lacan —, questionando: quem olha é o sujeito ou o objeto? Desejo aquilo, ou é aquilo que me olha que faz com que eu o deseje? A obra também aborda o olhar como aspecto legitimador da existência: ao ver uma cena, ao notá-la, estaríamos legitimando que ela existiu e, não menos importante, que o afeto sentido por aquele sujeito pode ser legitimado pelo olhar do outro. Para tanto, a cegueira nessa obra não se limita à cegueira dos olhos, mas a toda uma cegueira moral, existencial e ontológica de cada um de nós.
O autor não poupa o leitor de absolutamente nada. Em uma entrevista, ele pontuou que gostaria que o leitor sentisse o mesmo que ele sentiu ao escrever o livro. Durante as quase 300 páginas, somos constantemente atravessados por descrições que nos dão vontade de pular certas páginas, como se estivéssemos prestes a sentir o horror vivido por aqueles personagens. Em muito, o autor coloca o leitor como um voyeur, um cúmplice das atrocidades que estão ocorrendo, provocando nele uma grande aflição diante da própria impotência de fazer qualquer coisa por esses personagens — e, ao mesmo tempo, uma necessidade urgente de descobrir o que virá a seguir.
Ao final da obra, as pessoas vão retomando a visão, e eis que, enfim, a mulher do oftalmologista pensa em cegar-se: poderia ela viver depois de ter visto tudo o que viu? Édipo, de Sófocles, arrancou os próprios olhos após ter visto e desejado o que não poderia ser visto nem desejado. E Ensaio sobre a cegueira termina com essa provocação: você preferiria ter visto, ou não, todo o horror do ser?
O que falar deste livro? Sempre conheci a premissa de "Ensaio Sobre a Cegueira", mas apenas descobri o quando ele marcou tanta gente, de forma tão... radical, após ter finalmente o adquirido. Isso me manteve longe dele, por um certo receio de até mesmo não compreendê-lo. Agora percebo o quão cego estava. Nesta distopia, Saramago inicialmente prende o leitor com uma proposição bastante curiosa: uma epidemia de cegueira. Os contagiados por esse "mal branco" são, em primeira instância, colocados em quarentena e abandonados à própria sorte. Em frente às condições pelos cegos enfrentadas, o leitor sente nojo, repulsa, agonia. Dificilmente esquecerá, ou pelo eu dificilmente esquecerei, do que Saramago nos apresenta. Esta situação muito me parece com o estado de natureza de Hobbes, no qual todos estão contra todos. Adversamente, mesmo após a sociedade inteira haver mergulhado neste "mar de leite", um grupo de cegos mantém-se bastante humano, e isso deve-se à existência de uma única pessoa que vê. "Banalidades" como despir-se privadamente e aliviar-se em locais adequados são deixadas de lado. Até certo ponto isso indica como a repentina cegueira deturpou conceitos como dignidade e honra. Todas as formas de situar-se na sociedade perderam o sentido. Isso permitiu aos cegos finalmente tomarem conhecimento de si mesmos, de "uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos." Saramago usa a cegueira para nos mostrar o quanto nós "estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem". Pois "é um velho costume da humanidade, esse de passar ao lado dos mortos e não os ver". Quantas relações subestimamos, quantas injustiças ignoramos? E quantas dessas vezes fazemos isso conscientemente, pois tememos a realidade? Afinal, "O medo cega". Este livro é, de certa forma, obrigatório, tendo em vista que nos dias atuais é muito fácil alienar-se dos arredores. Enfim, o livro fala por si só, e finalizo com a epígrafe que, retirada do livro dos conselhos, intimida e guia ao mesmo tempo: "Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."
Not my first Saramago book so it didn't take me by surprise as the first one. Not to say that the story didn't absolutely caught me by surprise but the writing style was now familiar to me. I could trace some parallels between this book and "Death with Interruptions" but they gave me very different reading experiences. This book is shocking, revolting and brutally honest. Not a light read at all but it will still leave you with an itch to know what's going to happen next. And the characters as very well written and unique. Saramago always manages to leave me mesmerized and speechless, wondering how someone could write what he wrote.
Adorei este livro , com uma linguagem característica de Saramago e de fácil compreensão. Uma inspiração para o auto reconhecimento e para o trabalho sobre a descoberta do que nos rodeia. Pode ajudar a pensar em novas perspectivas sobre a vida em sociedade e do modo como o homem pensa e age em situações extremas.
Ler Saramago além de ser sempre inquietante é uma das experiências que me faz sentir cheio de sorte por ter nascido no mesmo país que este gajo e poder desfrutar ao máximo da sua ausência de pontuação e da sua escrita que carregando sempre um trave tão popular consegue ser incrivelmente complexa e recheada de um espírito crítico inigualável. (i mean eu duvido que seja possível traduzir isto a 70% sequer)
Cheguei tarde ao Ensaio Sobre a Cegueira mas a verdade é que é o tipo de obra que há de ser sempre atual, mais do que qualquer outro cenário apocalíptico que Saramago possa ter sugerido nos outros livros todos.
A forma como a narrativa nos é oferecida é deliciosa - não há nomes de personagens, não sabemos em que cidade estamos e tão pouco como toda a gente começa a ficar cega, mas desde cedo sabemos que a crueldade humana não demora a manifestar-se e é isto por toda a obra fora.
"na verdade ainda está por nascer o primeiro ser humano desprovido daquela segunda pele a que chamamos egoísmo, bem mais dura que a outra que por qualquer coisa sangra."
Sim, a crítica que a sociedade é egoísta e a verdadeira cegueira está na forma como não existe qualquer moralidade e que a maldade e egoísmo prevalecem em situações de "salve-se quem puder" até poderia ser um conceito básico e abordado em 1001 obras, porém acredito que a beleza deste livro esteja em toda a jornada que acompanhamos dos personagens principais - em como vemos o melhor e pior de cada um e especialmente como desconstroem esta ideia principal que a obra critica (com super destaque para a mulher do médico, cujo o prevalecer da vista acaba por fazer todo o sentido).
Leve de se ler mas muito forte no que provoca, em certas partes acho que nunca me senti tão desconfortável com um livro. As descrições são de tal modo completas que nos fazem sentir na pele de mais um cegueta.
A melhor obra portuguesa contemporânea até à data.
(Também é impossível não ter flashbacks da pandemia, aposto que Saramago se riu muito quando viu a corrida ao papel higiénico nos supermercados.)
"A cegueira também é isto, viver num mundo onde se tenha acabado a esperança"
Envolvente, muito bem escrito e pesadíssimo. Achei que há poucos personagens fortes, parece que isso ficou só para os protagonistas. Além disso, quase que 2/3 do livro se enreda em descrições minuciosas de um horror que o leitor já imaginou ao começar a ler a obra. Não há situações surpreendentes. As coisas pútridas permeiam a história de uma forma que é impossível você sair do desconforto. Ainda que haja um alívio, ele será rápido. De alguma forma, isso prende o leitor para querer saber o que vai acontecer em seguida, talvez na esperança de ler alguma página boa e feliz. Saramago vagueia pelo pior do ser humano, e não sei se é uma fase minha ou se essa é mesmo a minha opinião, mas acredito que de podridão, já nos basta o mundo em que vivemos como ele é.
Maravilhoso. Sinto que li algo obrigatório pra experiência humana ser completa. Custei a resenhar porque não sabia o que destacar: se a heroína casual, se a grande análise da natureza humana feita pelo autor, se alguma das várias frases tão bem construídas, se a riqueza de interpretações ou as hipóteses sobre o destino do mundo no final. Cada palavra parece uma engrenagem perfeitamente adequada a um sistema que roda perfeitamente. Amei!
O livro é muito bom só não dei 5 estrelas porque a escrita do autor é mt diferente, parágrafos imensos sem pontuação adequada, então eu demorei um tempo pra me acostumar, mas depois consegui pegar o ritmo! Tem uma ótima critica social que me deixou maluquinha, tive ate pesadelos por conta das cenas pesadas. Recomendo muito!
gostei muito do livro e é definitivamente um dos meus livros portugueses favoritos. o final achei que se desenrolou rapido de mais, mas por outro lado compreendo que nao era esse o foco do escritor.
Ver como o comportamento da sociedade muda assim tão facilmente e que nada é certo nesta vida é o ponto forte deste livro. Só não dei 5 estrelas porque a escrita é confusa e às vezes torna-se um pouco chata porque os capítulos são enormes
Saramago, Saramago, sempre excelente. Um livro que nos deixa a refletir no pior e no melhor da sociedade em que vivemos. “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara.”. Um livro publicado em 1995, no entanto, um livro intemporal.