O estilo do Carrière tem seus altos e baixos. Livro extremamente introdutório mas de uma pessoa apaixonada por cinema (e que viveu ele) que, ao invés de ir para um caminho acadêmico de escrita, foi para uma estilo mais solto e de diálogo com o povão. Gosto de pensar nesse livro do mesmo modo que algumas séries de comédia, que são na base da tentativa por exaustão, errando muito e acertando também. O Carrière recorre há MUITAS metáforas para complementar os seus raciocínios. Diversas vezes gera a sensação só que ele está sendo prolixo e enchendo linguiça, mas em outras ele consegue acertar em cheio de maneira poética. Um livro cheio de opiniões que eu discordo (principalmente porque ele acredita em muitas regrinhas de cinema), mas também de testemunhos fascinantes que só alguém como ele (pelo sua experiência com diversos cineastas, como Buñuel) poderia trazer. Leitura fluída.
Algumas passagens que curto bem:
"Ao contrário da escrita, em que as palavras estão sempre de acordo com um código que você deve saber ou ser capaz de decifrar (você aprende a ler e a escrever), a imagem em movimento estava ao alcance de todo mundo. Uma linguagem não só nova, como também universal."
"Essa riqueza de invenção que o cinema conhece [...], gera, com frequência, um tipo de intoxicação que, mais uma vez, nos leva a confundir técnica e pensamento, técnica e conhecimento. [...] Constantemente deslumbrados com o progresso técnico, nós cineastas tendemos a esquecer a essência e o sentido — os quais são verdadeiros e raros — e a enxergar apenas as mesmas rotinas repetidas no mais recente disfarce tecnológico."
"Num livro, o olho pode desconsiderar a pausa sugerida [do capítulo; do parágrafo] e pular à frente, imediatamente, para a continuação do texto. Num filme, a pausa se torna imperativa, o espaço se converte em tempo."
"Na história do cinema, duas coisas se destacam para mim: pressa e acumulação. Todos esses solavancos, essas investidas em todas as direções, essa luta eternamente frustrada para organizar o fluxo das coisas, para estabilizar a produção, para estabelecer um novo e completo culto com deuses e sumos-sacerdotes"
"Linguagem viva, como acentuam os linguistas, é aquela na qual você ainda pode cometer erros. Linguagem perfeita é a que está morta. Nem se modifica, nem hesita".
"Peter Brook costuma dizer que dirigir uma peça é tornar visível o invisível. A imagem do encontro decisivo com a platéia existe desde que o trabalho começa, na própria escolha da peça. Mas existe como uma forma imprecisa, imersa numa névoa. Todo o trabalho subsequente precisa se concentrar na elucidação dessa forma, tornando-a vivída e palpável."
""Num famoso comentário, Sacha Guitry disse uma vez: 'O concerto que vocês acabaram de ouvir é de Wolfgang Amadeus Mozart. E o silêncio que veio depois também é de Mozart'".
"Todo nosso século, ainda que obstinadamente concreto, parece secretamente obcecado com a criação de múltiplas materializações do invisível."
"Fellini disse certa vez que a televisão criou uma nova geração de espectadores que ele considerava arrogantes, autoritários, neuroticamente impacientes. A capacidade de mudar de canal a qualqluer hora, o que aniquila a narrativa, de prosseguir à procura de uma coisa a mais originou espetáculos de fogos de artício que jorram das pontas de nossos dedos. O mágico controle remoto nos dá a ilusão de que essas imagens nos pertencem, de que temos total poder sobre elas, de que não existiriam sem nós."
"Nossa visão do passado e talvez até nosso sentido de História nos chegam agora, principalmente através do cinema. Imagens cinematográficas se gravam em nós sem que percebamos, como máscaras fixadas sobre os séculos passados. Aos poucos, elas substituem as antigas versões oficiais. [...] Algumas deficiências técnicas do cinema têm um forte impacto sobre a nossa percepção básica da História. A ausência de odor, por exemplo. Todos os historiadores dizem, que o passado cheirava mal, pelo menos nas cidades. Mas esses odores asquerosos para nós são quase impossiveis de imaginar, de sentir. O cinema, como uma tela invisível entre nós e a realidade, os rejeito. O cinema suavizou a História, higienizou-a, lavou-a a seco, e tudo por causa de uma simples deficiência técnica."
"Os limites da tela são delineados geometricamente, bem definidos. Tudo em volta deles é sombra. Existe o que está na tela — um bombardeio de fótons organizados — e existe o que não está na tela — o enevoamento, o escuro, o imperceptível, o invisível."
"O feixe luminoso emanava do fundo da sala de cinema, e passava, com sua carga de imagens vivas, através do ar empoeirado, acima de nossas cabeças. Na tevê, o filme nos chega pela frente; nós o confrontamos diretamente. E a imagem é menos; nós a dominamos, em vez de nos sentirmos diminuídos pela tela."
"A aprovação unânime é perigosa, pois pode implicar uma obra conciliatória, soporífera e estritamente convencional."
" O cinema nos arrasta para fora de nós mesmos. Exceto em raríssimas ocasiões, o teatro não possui realmente esta derradeira arma do grande cinema clássico. O ator de palco permanece ele mesmo, distinto de nós. Ele fala por nós e sofre em nosso lugar, não nos despindo de nós mesmos da maneira como o cinema, em sua melhor forma é capaz de fazer. Continua uma criatura de carne e osso, um espírito animado, efetivamente presente diante de nós.
"Qualquer frequentador de festivais conhece esta sensação estranha e de certa forma perturbadora: após assistirmos a dois ou três filmes seguidos, no Festival de Cannes, saímos meio aturdidos, meio perdidos. As palmeiras na Croisette, o mar, os transeuntes, de repente tudo parece particularmente irreal. Deixamos a verdadeira realidade para trás, na sala de exibição, o confuso turbilhão de imagens que sobreviveu à maratona de filmes daquele dia. Esse caos diariamente repetido, ameaçado pelo esquecimento imediato, é, não obstante, tudo o que o que a memória permite colher e armazenar do que foi visto. Não estivéramos realmente vivendo. Sentados no escuro, abandonáramos nossos corpos, nossas mentes e talvez até nossas almas, tudo por essa sequência imperiosa (mas já turva) de sons e imagens que nos envolvem, exaurem e despedaçam."
"Durante os ensaios de uma peça, por exemplo, que se damos oralmente uma fala para um ator, sem escrevê-la, ele a trata despreocupadamente e muitas vezes com fértil inventividade. Se você escreve a mesma fala numa folha de papel, ou, melhor ainda, a entrega datilografada, o ator a respeita imediatamente. Isto pode até paralisá-lo."
"Nosso cérebro (mente) está sempre pronto a venerar a si mesmo, sempre pronto a adorar o que quer que brote de suas próprias profundezas. Ele não se dá mais conta de que é ao mesmo tempo adorador e adorado, que é tanto instrumento quanto obstáculo."
"Os filmes de Buñuel são mais do que simples filmes. Talvez se apresentem em forma de filmes apenas incidentalmente, na ausência de outra forma ideal, uma forma ativa, perfeita, "uma forma de não arte". Daí, o altivo e genuíno desprezo que Luis sentiu, a vida inteira, pelo efeito estético, o enquadramento elegante, a iluminação insólita, o acompanhamento musical — tudo o que ajuda a fazer de um filme um objeto de arte.. Ele soltava a sua irresistível gargalhada sempre que um repórter se referia à sua 'paleta' ou analisava e classificava seus closes e tomadas de localização".
"Os avanços técnicos fazem parte, simplesmente, da ordem natural das coisas; nunca significam que uma forma de arte estivesse "progredindo". Essa palavra não tem sentido, pelo contrário, é uma armadilha na qual caímos frequentemente. [...] Nós confundimos as coisas: moda e gosto, evolução e progresso. Todas as épocas e todos os povos têm o seu jeito de dizer as coisas. [...] Tudo, sempre, tem que ser iniciado de novo. Incluindo o cinema. Ele não morreu nem está gloriosamente vivo. [...] Como todas as coisas, ele está em movimento e em perigo."