O primeiro conto me deixou abismada - é realmente impressionante. A narrativa de Marguerite Yourcenar tem algo de poético e melancólico, quase hipnótico e onírico, que transporta o leitor para um universo simultaneamente concreto e simbólico. Em CONTO AZUL, mercadores europeus viajam pelo Oriente em busca de safiras, mas a aura mística da narrativa transforma essa jornada em uma travessia filosófica e sensorial. A história emana uma espiritualidade discreta, uma beleza rarefeita. É uma verdadeira joia literária. Estou convencida de que, especialmente para quem tem pouca bagagem de leitura, esse conto pode ser um divisor de águas — não apenas pelo impacto estético, mas pela forma como sugere múltiplas camadas de interpretação, provocando o leitor sem jamais lhe impor respostas.
No conto A PRIMEIRA NOITE, o protagonista Georges me remeteu imediatamente a Frédéric Moreau, de A Educação Sentimental, de Flaubert. Ambos são figuras deslumbradas por ideais de status e sofisticação social, mas incapazes de se comprometerem com o real. Vivem entediados e insatisfeitos, são volúveis e, sobretudo, superficiais. Falta-lhes não apenas profundidade, mas também autenticidade nas relações. São homens fascinados apenas pelo que lhes escapa, o que é distante, inacessível, enigmático. Como se apenas o mistério — ou mesmo a presença da morte — fosse capaz de romper o torpor existencial em que estão imersos. São exemplos do chamado “homem sensível” que, longe de revelar complexidade emocional, esconde sob essa máscara uma imaturidade afetiva e um narcisismo desolador.
Já em MALEFÍCIO, Yourcenar constrói, na figura de Algenara, uma personagem atravessada pelo ressentimento e pela exclusão. Mais pobre que as demais, tratada por vezes como servente e socialmente invisível, Algenara inveja Amanda - bela, amada, desejada. Seu sentimento não é apenas rivalidade: é dor, humilhação, a desesperança de quem se sente irrelevante. A crença em seus próprios “poderes ocultos” torna-se um artifício vital: ao acreditar que é capaz de provocar a morte da amiga apenas com sua vontade, e ao perceber que todos estão dispostos a acreditar nisso, Algenara se reinventa. Passa da mediocridade social a uma posição de temor e fascínio. O malefício, nesse conto, não é mágico - é simbólico e coletivo. É o desejo de ser vista, de ser alguém, que se alia ao ressentimento e cria uma identidade poderosa, ainda que perversa.
Algo que chama a atenção nos três contos é a ausência de transcendência, de compaixão, de qualquer forma de caridade verdadeira, que grita silenciosamente. É como se os personagens vivessem num mundo privado de um horizonte espiritual, presos em si mesmos - no ego, no desejo, no ressentimento. A falta de Deus - ou, no mínimo, da dimensão do sagrado - parece mesmo abrir espaço para o vazio ético e emocional que os consome.