"Deus foi a pior invenção do homem." (página 472)
Esta é uma das frases mais eloquentes que já vi escrita sobre Deus e os homens e que resume muito bem os acontecimentos que este livro retrata. Sempre pensei numa realidade alternativa, em que não existisse nem Deus nem religiões, e se tal acontecesse, a Humanidade, durante a sua história, talvez tivesse sido poupada aos massacres que todos conhecemos.
Mas reflexões à parte, no que diz respeito ao livro, este retrata-nos a vida de uma fotógrafa portuguesa que cobre vários conflitos, desde a primeira invasão do Iraque pelos Aliados, no início dos anos 90 do século XX, até à actualidade, e à entrada em Bagdade pelos combatentes do Estado Islâmico.
A personagem principal, Maria ou "Marie", como passa a querer ser conhecida, efectua reportagens fotográficas em Jerusalém, no Iraque, na Jordânia e no Afeganistão, onde ela, como outros repórteres de guerra, viciados em adrenalina, correm os maiores riscos, para darem a conhecer ao mundo os campos de refugiados nos territórios palestinianos ocupados, os atentados em Israel, as duas invasões do Iraque, a invasão do Afeganistão pelos E.U.A. após o 11 de setembro de 2001, e os constantes atentados nestes dois países por terroristas muçulmanos da Al-Quaeda e do Estado Islâmico.
E no livro são abordados todos os lados da história: o trabalho dos repórteres de guerra e das razões que os movem, os espiões, os jovens soldados ocidentais que morrem ou que ficam estropiados nos conflitos, o sofrimento das populações locais dos países afectados pelas guerras, as ambições dos políticos, os interesses económicos das multinacionais, o trabalho desenvolvido pelos voluntários das organizações humanitárias, a radicalização de jovens terroristas e os atentados que levam a cabo.
E ninguém é poupado pela autora. Todos têm culpa e não há inocentes, a não ser talvez, as vítimas dos atentados e as populações afectadas pelas guerras.
A autora também não poupa os leitores nas descrições violentas que faz, e com um realismo demasiado cruel, dos acontecimentos. E por vezes, a crueza do que nos é relatado obrigou-me a fazer uma pausa.
Há, ainda, histórias de amor no decurso de tantos conflitos, mas sem finais felizes.
É um bom livro, bem escrito, e que fala de forma fria, por vezes cínica, mas objectiva, sobre o conflito e as suas origens entre o ocidente e o mundo islâmico e entre as três principais religiões (cristã, judaica e muçulmana), mas que nos deixa uma amargura no nosso coração: a guerra não tem fim à vista, todos nós podemos ser vítimas e não há qualquer esperança na sua resolução.