NOTAS TIRADAS DA INTRODUÇÃO: A SINFONIA DO MAL de Tomás Eloy Martínez
"O artista só é responsável perante sua obra. Se for um bom artista, será completamente desumano. Ele tem um sonho, e esse sonho lhe provoca tamanha angústia que deve se livrar dele. Enquanto não o fizer, não terá paz. Joga tudo pela janela: honra, orgulho, decência, segurança, felicidade, tudo. Tudo para escrever seu livro". Disse Faulkner em uma entrevista à The Paris Review.
Na obra de Fonseca, não há consciência política nem desolação moral, só a pura e simples condição humana entregue a sua incredulidade e sua desolação sem esperança. Seus personagens habitam um mundo anterior a Deus, ou no qual Deus é indiferente, ou quem sabe um mundo em que Deus é desnecessário. Sem pecado, nem culpa, nem nada além de um incessante Mal inocente. Que mal pode fazer o Mal quando não passa de mais uma vibração da natureza, como a água, o ar e o impulso sexual? Se o Mal é uma ocupação, um trabalho, uma distração, uma pequena chama que arde à toa no deserto da vida cotidiana, quem se importa com a transcedência do Mal? A única moral que rege seus personagens é saciar a si mesmos, o personagem sabe por que faz o que faz, mesmo que o leitor fique de fora, pasmado. Não porque o texto deixe algo sem explicação ou porque a clareza se perca no caminho, mas porque respiramos a sua atmosfera tóxica e não nos damos conta. O leitor contempla fascinado um absurdo feito de omissões e de silêncios que só os personagens entendem.
He is an important brazilian writer (novelist, short story writer and screenwriter), born in Juiz de Fora, state of Minas Gerais, but he lived for most of his life in Rio de Janeiro. In 1952, he started his career in the police and became a policy commissioner. Even though, he refuses to do interviews and is a very reclusive person, much like Thomas Pynchon, who is a personal friend of Fonseca. His writing is pretty dark and gritty, filled with violence and sexual content, and it usually happens in a very urban setting. He says that a writer should have the courage to show what most people are afraid to say. His work is considered groundbreaking in Brazilian literature, up until then mostly focused on rural settings and usually treating cities with a very biased point-of-view. Almost all Brazilian contemporary writers acknowledge Fonseca's importance, and quite a few authors from the newer generation, such as Patrícia Melo or Luis Ruffato, say that he's a huge influence. He started his career with short stories, and they are usually considered to be the best part of his work. His first popular novel was "A Grande Arte" (High Art), but "Agosto" is usually considered to be his best work. In 2003, he won the Camões Prize - considered to be the most important award in the Portuguese language - and the Juan Rulfo Prize - award for Latin American and the Caribbean literature.
Rubem Fonseca constrói personagens durões, desequilibrados, inconsequentes, insanos, aventureiros incompetentes, mulheres enlouquecidas, homens desesperados, vencedores cínicos, trambiqueiros inábeis. O que os move é o impulso impensado, estúpido ou louco. Ninguém é perfeito. Seus personagens buscam o instinto, através do instinto eles esperam preencher um vácuo dentro de si. A ética e a moral são valores mutáveis no tempo e no espaço. Seus personagens não sentem culpa.
Os diálogos são secos e objetivos, sem sentimentalismos baratos. A linguagem presente em sua obra é acessível, direcionada para um leitor imerso na cultura de massa, acostumado à linguagem publicitária. Linguagem econômica, cotidiana, concisa, jogando toda força e tensão sobre as imagens e os efeitos que essas possam criar no leitor a partir das ações, reações e relações dos personagens. Uma necessidade documental de surpreender o homem em seus conflitos mais primitivos. O texto curto e grosso necessário para capturar o homem na sua essência. Como se a presença de recursos estilísticos mostrassem um homem falso, que finge ser civilizado, finge controlar suas emoções. A linguagem erudita cobre o homem com um verniz de civilização que nos impede enxergá-lo como ele realmente é. Com a linguagem das ruas Rubem Fonseca é capaz de captar o instante revelador das situações ficcionais. Momentos onde essas situações ficcionais adquirem um caráter de documento biográfico. Com isso, reconhece na ficção a capacidade de expressar a realidade de maneira mais concreta. Até mesmo mais concreta do que um registro de pretensão científica. É na ficção o lugar da verdade.
Do estranhamento inicial à narrativa de Rubem Fonseca me veio a percepção de que a vida nas grandes cidades tornou-se tão ou mais brutal do que os fatos narrados em suas ficções. Fatos que pareciam bárbaros se tornaram ainda mais cruéis por se perceber neles a presença da cultura. A violência do ser humano é um fato cultural. A cultura e a barbárie conversam, dialogam. Nos contos de Rubem Fonseca a mistura de barbárie e humanidade no íntimo de uma pessoa é constante. Ao expor a violência em sua obra, Rubem Fonseca não tenciona ser deliberadamente chocante. O choque surge naturalmente, uma vez que ele busca sua matéria prima no real. E sua matéria prima é o real, não existe justificativa para mascará-la. Ele também se choca com o que vê.
Engoli o livro em 12 dias. Foi uma indicação de um desconhecido no sesc. Comecei cética, não suporto escritores de romance/mistério noir metido a outsider. Mas quando percebi, estava ansiosa pra chegar em casa e ler o livro. Viciante! São contos curtos com temáticas instigantes, alguns verdadeiramente surpreendentes. Porém me incomodou a forma como o autor retratava as mulheres e, principalmente, as menores de idade. Achei de extremo mau gosto e não defendo esse tipo de escrita como liberdade literária, é uma forma de perpetuar essa cultura machista e violenta que é tão danosa.
Os contos de Rubem Fonseca precisam ser lidos homeopaticamente, pois vários deles são "novelas" e quase romances de tantas reviravoltas e personagens envolvidos. Outros são curtos, sintéticos e objetivos. Um bom livro para ter na cabeceira do quarto de um mestre brasileiro das letras.