Lisbonne des mouettes, Lisbonne des trottoirs en noir et blanc, Lisbonne du marquis de Pombal, des curieux azulejos du palais Fronteira, mais aussi Lisbonne des bars, du métropolitain, des offrandes au saint docteur Sousa Martins, José Cardoso Pires nous invite à le suivre pour une promenade toute personnelle à travers ses souvenirs d'enfance - un ange se jetant du haut d'un toit dans le quartier d'Arroios -, ses lectures complices (Pessoa, bien entendu, mais aussi Alexandre O'Neill, Eça de Queirós, Lawrence Ferlinghetti), l'histoire poétique d'une ville que dominent deux corbeaux encadrant un saint rabougri...
JOSÉ CARDOSO PIRES nasceu na em São João do Peso, concelho de Vila de Rei, distrito de Castelo Branco, a 2 de Outubro de 1925. Estudante na Faculdade de Ciências de Lisboa, trocou as matemáticas superiores pela marinha mercante. Entre 1969 e 1971, foi docente de Literatura Portuguesa e Brasileira no King’s College, em Londres. Foi director literário de editoras lisboetas e director-adjunto do Diário de Lisboa (1974-75). Estreou-se com Os Caminheiros e Outros Contos (1949) e obteve o Prémio Camilo Castelo Branco com o romance O Hóspede de Job (1964). Dentro do neo-realismo, retoma a tradição satírica setecentista. Entre outros, escreveu os romances O Delfim (1968), Dinossauro Excelentíssimo (1972), Balada da Praia dos Cães (1982, Prémio da Associação Portuguesa de Escritores), Alexandre Alpha (1987), República dos Corvos (1988). Escreveu para o teatro O Render dos Heróis (1960) e Corpo Delito na Sala de Espelhos (1979). Deu ainda a lume a colectânea de ensaios Cartilha do Marialva (1960) e o volume de crónicas E agora, José? (1978) e A Cavalo no Diabo (1994). Em 1997 publicou De Profundis - Valsa Lenta e Lisboa, Diário de Bordo que lhe valeram o Prémio Pessoa desse ano. Foi condecorado pela Presidência da República com a Comenda da Ordem da Liberdade, em 1985. Faleceu a 26 de Outubro de 1998, em Lisboa.
A reading of Lisbon - Livro de Bordo (1997) by José Cardoso Pires in the light of the writings of Walter Benjamin and The Invisible Cities (1972) by Italo Calvino reveals the complexity of this hybrid text, not only reflective of the plural discursive construction of ‘Lisboas ‘but also creative. Through collage and’ oral writing’, a kind of illustrated conversation occurs in which practical and literary theory interact, culminating, like Benjamin and Calvin, in a symbolic reflection on the writing profession itself. The question of the big city as a place of memory leads to the book (text and image) as ‘in-between’ that claims the city’s legibility.
Relido muitos anos depois, e concluo que o livro não envelheceu bem. Mas como é Cardoso Pires, a garantia de uma escrita humorada e irónica está sempre lá.
Dice Cardoso Pires, tuteándola, que Lisboa se le "aparece posada sobre el Tajo como una ciudad para navegar”. Ese tuteo seductor es constante en estas páginas. Ya en la portada se habla de "voces, miradas, memorias". Como si se tratara de una amante a quien no se le ha perdido la (ir)reverencia ni las ganas.
Um livro, sobretudo, para quem já respirou, calcorreou e viveu muitas luzes e muitas horas de Lisboa. Como o autor escreve “a cada visitante, sua Lisboa”. Sublime.
Quando um escritor de talento incontestável e paixão declarada pela cidade onde vive resolve escrever sobre esse seu amor urbano, o resultado é uma longa e bela crónica, prosa poética, uma carta de amor a Lisboa. A uma certa Lisboa, aquela que compõe o itinerário vivido por José Cardoso Pires. É uma Lisboa datada da década de 1990, mas é uma Lisboa que ainda hoje se lê com avidez e com a satisfação de quem, sem pudores, espreita pela fechadura das memórias do escritor. Memórias com morada fixa no espaço de toda uma cidade, que passamos a ver com outros olhos, depois de a lermos nestas páginas.
"é uma cidade em geometria esquiva, colinas, requebros, ondulações, reflexões dum rio a tons incertos, conforme os dias e conforme as marés, um corpo para soletrar sem pressas." (p.38-41)
Um livro que é uma celebração da cidade de Lisboa, das suas particularidades e descobertas que nela podemos fazer. O texto é claro, bonito, luminoso - e as ilustrações da edição da D. Quixote acompanham-no de modo irrepreensível.
"em poucos lugares como este de tantas cores cada cor é feita" (p.10)
Brèves promenades dans Lisbonne où chaque lieu est prétexte à la remémoration de poètes ou écrivains - faute de les avoir lus, ces invocations n'éveillent pas d'échos en moi.