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O tempo e o vento (7 Volumes) #7

O Arquipélago - Volume III

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A trilogia O tempo e o vento, que inaugura o relançamento da obra completa de Erico Verissimo pela Companhia das Letras, é a saga mais famosa da literatura brasileira. São cento e cinqüenta anos da história do Rio Grande do Sul e do Brasil que o escritor compôs em três partes - O Continente, O Retrato e O arquipélago -, publicadas entre 1949 e 1962. O arquipélago, última parte da trilogia, encerra a história da família Terra Cambará. O Brasil, o Rio Grande do Sul e Santa Fé se modernizam, e não cabem mais nos planos das oligarquias tradicionais. Os Cambarás retiram o apoio ao governo e aderem à revolução libertadora em 1923, ao lado dos arquiinimigos maragatos. No fim do conflito, guarnições militares das Missões se rebelam e Toríbio, o irmão mais velho de Rodrigo, une-se a elas na formação da coluna revolucionária liderada por Luiz Carlos Prestes. Na cidade fictícia de Santa Fé, a família Terra Cambará é abalada por novos Toríbio rompe com o irmão e Sílvia, a amada do escritor Floriano, revela seu mundo num diário surpreendente. Tudo converge para uma encruzilhada de tempos e memó o doutor Rodrigo tem um acerto de contas definitivo com o filho, Floriano, que começa a escrever o grande romance de sua vida. Na galeria de personagens de O tempo e o vento há figuras fascinantes, comparáveis a grandes ícones da literatura nacional como Peri, Capitu e Macunaíma. A forte Ana Terra, o valente capitão Rodrigo Cambará, a sedutora Luzia Silva e o curioso doutor Carl Winter são apenas alguns desses personagens, eternamente vivos na imaginação dos leitores. Desfilam no romance as disputas entre famílias pelo poder local, regional e nacional; as guerras de fronteira e as civis; a bravura dos homens e a tenacidade das mulheres; a pobreza de meios e a violência contra os desassistidos.

488 pages, Kindle Edition

First published January 1, 1962

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About the author

Erico Verissimo

107 books390 followers
Erico Verissimo (December 17, 1905 - November 28, 1975) is an important Brazilian writer, who was born in Rio Grande do Sul. His father, Sebastião Veríssimo da Fonseca, heir of a rich family in Cruz Alta, Rio Grande do Sul, met financial ruin during his son's youth. Veríssimo worked in a pharmacy before obtaining a job at Editora Globo, a book publisher, where he translated and released works of writers like Aldous Huxley. During the Second World War, he went to the United States. This period of his life was recorded in some of his books, including: Gato Preto em Campo de Neve ("Black Cat in a Snow Field"), A Volta do Gato Preto ("The Return of the Black Cat"), and História da Literatura Brasileira ("History of Brazilian Literature"), which contains some of his lectures at UCLA. His epic O Tempo e o Vento ("The Time and the Wind'") became one of the great masterpieces of the Brazilian novel, alongside Os Sertões by Euclides da Cunha, and Grande Sertão: Veredas by Guimarães Rosa.
Four of Veríssimo's works, Time and the Wind, Night, Mexico, and His Excellency, the Ambassador, were translated into the English language by Linton Lomas Barrett.
He was the father of another famous writer of Rio Grande do Sul, Luis Fernando Veríssimo.

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42 (8%)
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2 (<1%)
1 star
1 (<1%)
Displaying 1 - 20 of 20 reviews
Profile Image for Carmo.
727 reviews569 followers
April 19, 2021
”Já vejo claro o que vai ser o novo romance. A saga de uma família gaúcha e de sua cidade através de muitos anos, começando o mais remotamente possível no tempo.
Quero começar um ciclo que comece e venha a encerrar-se duzentos anos mais tarde.

Sentou-se à máquina, ficou por alguns segundos a olhar para o papel, como que hipnotizado, e depois escreveu dum jato:

Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério abandonado.


Termina assim esta longa narrativa, desta forma melancólica combinando com a nostalgia de quem se despede da saga mais famosa da literatura brasileira. Foram quatro meses (sem confinamento seriam quatro anos) de convívio com os Terra Cambará, acompanhando o crescimento da família e a formação do Rio Grande Do Sul e do Brasil. Um épico focado na formação territorial do país, mas que se entrelaça com os acontecimentos mais significativos da Europa e do mundo.
Erico termina o livro com um perfeito atar de pontas, num remate gracioso em que a personagem-escritor Floriano Terra Cambará irá escrever a história que estivemos a ler.
Ficar-me-á na memória, sobretudo pelas personagens. Não vou nem fingir que tentei fixar todos os imbróglios dos governantes ou que não me dispersei nas longas discussões políticas e filosóficas. Fica, sobretudo, uma lembrança muito carinhosa pelas bravas mulheres que compuseram esta história. Mas sobre elas, não há palavras mais lisonjeiras que as do próprio autor.

”(…) a coragem das mulheres desses guerreiros que ficaram em suas casas esperando os maridos, os filhos e os irmãos que tinham ido para a guerra. As mulheres que durante horas incontáveis de agonia ficaram ouvindo o uivar do vento no descampado e o lento arrastar-se do tempo.
Sem mulheres como a velha Ana Terra, a velha Bibiana e a velha Maria Valéria não existiria também o Rio Grande. Elas eram o chão firme que os heróis pisavam. A casa que os abrigava quando eles voltavam da guerra. O fogo que os aquecia. As mãos que lhes davam de comer e de beber. Elas eram o elemento vertical e permanente da raça.”


Este é dos que fechamos com os olhos molhados. E isso diz tudo.
Profile Image for Luciana.
517 reviews160 followers
September 26, 2023
Última revolução, último amor e os últimos suspiros são a maneira pela qual Veríssimo fecha o último e final volume acerca da vida de uma família tradicional rio-grandense situado nos períodos de 1700 a 1945, em um grande poema épico que não tem herói, nem vilões e sim, como Tolstói, personagens que são um pouco de cada coisa, sinceros meio a suas hipocrisias, corajosos meio a suas covardias.

Retratando os períodos obscuros da história, a família Cambará convive com a ascensão do fascismo e do nazismo no Rio Grande, onde os descendentes alemães e italianos iniciam células de apoio ao Führer por um lado, enquanto por outro Getúlio Vargas institui a tomada de poder e implementa a ditadura para conter uma possível ameaça totalitária, concretizando aquilo que ataca. Mais que isso, a ameaça do comunismo parte país à dentro gerando perseguições, torturas e mortes, em um ambiente político caótico como tem sido em toda a narrativa.

Embora tudo o que menciono seja parte essencial da narrativa, com diálogos e ações adoráveis de se acompanhar, há, por meio de Floriano Cambará, filho do doutor Rodrigo, e de seus amigos Tio Bicho e Arão Stein uma parte profundamente filosófica e antropológica que Veríssimo aborda ao longo do volume, tornando aquilo que já era bom, em excepcional; uma vez que seus personagens se munem de humanidade para se opor ao fundamentalismo, ao antissemitismo, ao machismo, ao racismo, a misoginia e ao nazismo, fechando, assim, a obra com maestria.

No mais, os últimos dois capítulos que fecham a obra são de uma beleza tão grande, de um acerto de contas tão sincero, que só o talento e sensibilidade de Veríssimo poderia tê-lo feito. Foi um enorme prazer e privilégio acompanhar a história do Rio Grande, do Brasil e dos Cambarás por tanto tempo.
Profile Image for Andre Helal.
11 reviews13 followers
November 24, 2015
Que jornada... Não sei como descrever. Melhor leitura do ano. Uma das melhores leituras da vida. Sim, todos os 3 (O Continente, O Retrato e O Arquipélago) são 5 estrelas. Cada um possui suas nuances e peculiaridades, mas todos são maravilhosos.
Profile Image for Rita.
910 reviews188 followers
September 10, 2022
O Tempo e o Vento de Érico Veríssimo acompanhou-me nos últimos 5 anos.

Acabo hoje uma trilogia que considero épica e que ficará na prateleira dos favoritos. Não deixa de ser com uma certa tristeza que faço as malas e deixo de a cidade de Santa Fé, o Sobrado e o Angico e todas as personagens que me acompanharam, umas mais inesquecíveis que outras.

É impossível não ficar com saudades de:

essa quase lendária Ana Terra (…) que a tradição aponta como um dos fundadores de Santa Fé. (…) essa brava pioneira que “matou um índio com um tiro nos bofes.”

Um certo Capitão Rodrigo, aventureiro, espadachim, mulherengo, homem de coragem extraordinária e apetites insaciáveis, desses que bebem a vida não aos copos, mas aos baldes.>/i>

Bibiana, um dos pilares da família eque sempre dizia que era nas noites de vento que ela mais pensava nos mortos.

Bolivar Cambará, assassinado pelos capangas dos Amarais.

O velho Licurgo, líder político de Santa Fé, republicano e com uma antiga rivalidade com a família Amaral.

Carl Winter, alemão que se radicou em Santa Fé, tornando-se íntimo da família Cambará.

Rodrigo Cambará, bisneto do Capitão e pai de Floriano, que de homem culto, médico formado e de requintados costumes, torna-se o gaúcho machão, com acessos de violência e de um incontido desejo sexual. Cheio de defeitos mas impossível não gostar.

Maria Valéria, a Dinda. Uma personagem secundária mas com um peso enorme.

Tio Bicho, o filósofo existencialista de Santa Fé.

Sílvia, casada com Jango. Os diários de Sílvia cheios de lembranças, rancores, remorsos e paixões não consumadas são maravilhosos.

Floriano, o alter ego de Érico.

Sentou-se à máquina, ficou por alguns segundos a olhar para o papel, como que hipnotizado, e depois escreveu dum jato:
Era uma noite fria de lua cheia. As estrelas cintilavam sobre a cidade de Santa Fé, que de tão quieta e deserta parecia um cemitério abandonado.


O Continente – Volume I –19/08/2017
O Continente – Volume II – 10/11/2017
O Retrato – Volume I - 22/07/2018
O Retrato – Volume II - 23/03/2019
O Arquipélago – Volume I - 11/02/2021
O Arquipélago – Volume II – 06/09/2022
O Arquipélago – Volume III – 10/09/2022
Profile Image for Vinícius Menti.
Author 1 book4 followers
November 3, 2015
Não tenho palavras pra descrever o que senti quando acabei essa trilogia do Érico. É realmente uma das mais importantes e incríveis obras da literatura brasileira, com personagens memoráveis e discussões muito importantes sobre fatos e ideias que até hoje são válidos.
Profile Image for Sara Fritz.
52 reviews13 followers
December 24, 2020
Como presente de Natal me dei o fim desse livro. Esse último volume foi bem chatinho não vou mentir, só homem trancado em um escritório sendo muito chato entre homens, passei mais de um mês sem tocar nele porque não aguentava mais ler sobre esses home. Floriano é bem xarope. Mas gostei do final e agora falando da série como um todo valeu muito a experiência, bem imersiva né gente.
Profile Image for Suellen Rubira.
955 reviews89 followers
May 27, 2018
Apesar de toda a minha implicância com Rodrigo Cambará, viver em Santa Fé com essas personagens durante 5 meses, nos 7 volumes da série foi uma experiência única, como toda história que Erico Verissimo conta. Ler Érico não é passar o tempo, mas é criar laços com as personagens, ter que ouvir suas reclamações e suas alegrias. Vou sentir saudade da Ana Terra, da Bibiana, do velho Fandango, do Floriano e até mesmo do doutor Rodrigo Cambará, por que não? Essa obra é um acontecimento na vida de uma pessoa.
Profile Image for Barbara.
127 reviews5 followers
October 6, 2018
Entre os tantos planos que fiz para 2018 e não realizei, ficam aqueles que não planejei e fiz. Ler essa saga foi a melhor surpresa, e maior escolha, deste ano. Obrigada Érico Verissimo por me mostrar um Brasil que eu não conhecia, uma história que eu vivi tanto tempo distante para descobrir, no fim, que é sua, é nossa, é minha. Me redescobri como leitora e como brasileira.

"E se fosse possível viver a vida sem verbalizá-la? Sim, tocar seu cálido e enorme coração que pulsa, aflito e quase abafado por baixo de uma crosta de convenções, superstições e prejuízos....Libertar a vida, o mundo, o homem de sua prisão de palavras!"
Profile Image for Monique Gerke.
310 reviews31 followers
April 18, 2017
Muito feliz por terminar essa série lendária!
foram 200 anos da história do Rio Grande do sul, com personagens marcantes, histórias e momentos únicos, mescla de política, discussões filosóficas e romance que me ajudaram a compreender um pouco da história do Brasil.
Erico deu um tom de realismo a história. Desnudou a alma dos personagens, e consequentemente a do leitor. Sem dúvidas, foi uma série memorável!!!
Profile Image for Mayumi.
846 reviews22 followers
May 15, 2017
Livro incrível! Série incrível! Deveria ter escrito sobre os outros livros também, mas acho que vou ter que reler os livros para fazê-lo. (Ahhh... que pena... só que não! =)

N'O tempo e o vento a gente acompanha a ascensão e declínio da família Terra Cambará. O primeiro Rodrigo Cambará (o "um certo capitão Rodrigo" do Um Certo Capitão Rodrigo) costumava dizer que Cambará macho não morre na cama, e é isso que acontece com o doutor Rodrigo Cambará; o que eu interpretei como declínio da família. De fato, todos os "Cambarás macho" morreram "peleando", inclusive o Toríbio, irmão do doutor Rodrigo, que morre numa briga de bar, mas foi "peleando".

Gostei muito da representação feminina em todos os livros. Todas as mulheres eram muito fortes, por mais que nunca fossem para as guerras e revoluções. Como bem disse Maria Valéria n'O continente, volume 1:

"Ter filhos é que é negócio de mulher, eu sei. Criar filhos é negócio de mulher. Cuidar da casa é negócio de mulher. Sofrer calada é negócio de mulher. Pois fique sabendo que esta revolução também é negócio de mulher. Nós também estamos defendendo o Sobrado. Alguma de nós já se queixou? Alguma já lhe disse que passa o dia com dor no estômago, como quem comeu pedra, e pedra salgada? Alguma já lhe pediu pra entregar o Sobrado? Não. Não pediu. Elas também estão na guerra."

Destaque para o personagem Roque Bandeira, o Tio Bicho! Personagem incrível!

Érico Veríssimo é de uma sensibilidade incrível! Marquei muitos devaneios sobre a vida, o universo, o tempo e o vento... Achei maravilhosa a forma como ele nos leva pelos vários tempos da história, indo e voltando, ao sabor do vento.

Leitura recomendadíssima!

Li durante a Maratona Skindô Skindô 2016.

E, por fim, algumas citações.

Eu já disse... O remédio é separar o Rio Grande do resto do país, mandar estender uma cerca de arame farpado na fronteira com Santa Catarina.

Que fazer? Já que não posso derrubar o governo, que ao menos me seja permitido dormir com a professora! Gostou da frase e mentalmente se deu uma palmadinha admirativa no ombro.

Floriano sentiu um passageiro desejo de descer e olhar a festa, mas uma timidez mesclada de preguiça o tolheu. Não lhe era fácil conviver com as outras pessoas.

Recusava-se, porém, a dizer as frases e a assumir as atitudes que conquistam amizades, simpatias e admirações, não só por achar o estratagema hipócrita e primário como também por uma espécie de preguiça tingida de não-vale-a-penismo.

— O doutor não se interessa por peixes? — Não. Prefiro seres humanos. — Questão de gosto.

D. Revocata, que estava presente, observou que avalanche era um galicismo desnecessário, uma vez que em português existia a palavra alude.

A tristeza lhe vinha da compreensão a que chegara, da inutilidade de todos os gestos, da monotonia com que os fatos se repetiam. Os homens insistiam nos mesmos erros. Pronunciavam frases antigas com um entusiasmo novo. Encontravam justificativas para matar e para morrer, e estavam sempre dispostos a acreditar que “desta vez a coisa vai ser diferente”.

— Que estranho tipo de sociologia — indaga ele com uma ponta de ironia na voz — me andaste aprendendo lá pela Sorbonne? Será que teus mestres te ensinaram que um único homem tem o poder de mudar o curso da história dum povo? Ou que um presidente ou mesmo um ditador pode ser responsável por tudo, mas tudo quanto acontece em todo o território que governa? Pelas secas, pelas chuvas, pelas safras, pelos terremotos, pelos humores e maquinações da oposição, pelas oscilações do câmbio? E que me dizes de seus ministros? E dos seus secretários? E dos amigos e parentes que usam seu nome em vão ou, pior ainda, com propósitos interesseiros?

Para usar uma frase do velho Fandango, os livros passaram por ti, mas tu não passaste pelos livros.

Como dizia Machado de Assis, a ocasião faz o furto e não o ladrão, porque este já estava feito.

Mas isso também me alegra, pois estou convencido de que, para o tipo de história que vou escrever, o cobre talvez seja um metal mais nobre que o ouro.

— É engraçado, mas esse processo de gestação literária, no caso de vocês os ficcionistas, parece-se muito com o da gravidez... Vê bem. A personagem (ou o livro) cresce na tua mente como um feto no ventre materno. Como uma gestante, estás sujeito a momentos de alegria, esperança e plenitude alternados com náuseas, apreensões e crises de nervos. Um dia a criança nasce, depois cresce e já não te pertence mais: passa a ser um pouco dos outros e muito de si mesma. Agora eu só queria saber como é que os contadores de histórias ficam grávidos... Alguns devem ser fecundados pelo pólen da inspiração trazido pelo vento, pelos insetos e pelos passarinhos...

Resigna-te às contradições e imperfeições do bicho-homem, que são até certo ponto o resultado da luta desigual entre sua poderosa natureza animal e os preconceitos duma educação cristã que nos quer impor uma moral feita mais para anjos que para homens.

“Em certas coisas sou um homem antigo”, dissera ele, não fazia muito. “Há modernismos que não aceito. Essa história de andar na rua sem chapéu, por exemplo... Em outros assuntos considero-me evoluído. Principalmente no terreno das ideias.”

Pervagava geralmente a atmosfera do salão uma mescla de odores: café recém-passado ou velho, sarro de cigarro antigo ou novo, bafio de álcool e um cheiro de suor humano de dois tipos: um já histórico, entranhado nos móveis, nas frestas, no soalho, nos panos, e o outro vivo e atual, produzido pelos fregueses presentes.

Quando perguntavam ao velho Liroca se existia lobisomem, ele respondia: “Se existe o nome é porque existe o bicho”.

O Brasil não é um país lógico, mas um país mágico.

Concluíra que sua solidão só tinha sabor e sentido se — ilha também — fosse cercada de seres humanos.

Conheço histórias de mil brigas que começaram porque um sujeito se pôs a olhar com insistência para outro. Que significa isso para um homem não muito certo de sua masculinidade? Ele raciocina assim: “Esse cachorro está me namorando, logo pensa que sou efeminado”. E não há para o gaúcho insulto maior que esse. Ora, se ele estivesse mesmo seguro de seu machismo, a coisa não teria a menor importância. Mas não está. Lá nos refolhos da alma (com o perdão aqui do nosso Irmão Zeca), no inconsciente do “monarca das coxilhas”, mora a negra suspeita. E então ele vira bicho e agride o “sedutor” para provar a este e ao mundo que não há nem deve haver a menor dúvida quanto à sua masculinidade.

Nunca preguei nem desejei a destruição ou a difamação dos heróis da nossa história. O que sempre achei absurdo foi a projeção desses homens no plano ideal, com prejuízo de sua humanidade, de sua autenticidade, de sua verdade existencial.

[...] mas sem mulheres como a velha Ana Terra, a velha Bibiana e a velha Maria Valéria (isso para citar só gente de casa) não existiria também o Rio Grande. Elas eram o chão firme que os heróis pisavam. A casa que os abrigava quando eles voltavam da guerra. O fogo que os aquecia. As mãos que lhes davam de comer e de beber. Elas eram o elemento vertical e permanente da raça.

[...] surpreendo-me a fazer-lhes um discurso que não premeditei.

Diz a Dinda que o vento e o tempo têm uma briga antiga, que vem do princípio do mundo.

Por muito tempo, d. Flora me deu as roupas e sapatos que iam ficando pequenos demais para a Alicinha. Coisas de segunda mão. De certo modo, a menina pobre sentia que o amor que lhe davam era também de segunda mão.

Não expressei ainda em nenhum livro a convicção que tenho de que o homem, por seus próprios meios, sem contar com o apoio de forças sobrenaturais, pode melhorar a sua vida e a de seus semelhantes na terra.

Neo-humanismo? Detesto os rótulos, Zeca. Porque eles são estáticos, ao passo que as criaturas humanas estão em constante devir.

O Jango precisa de ti. As mulheres têm uma capacidade de renúncia maior que a dos homens. É por isso que elas são mais fortes que nós.

É preciso um certo tipo de coragem para admitirmos que temos medo.

Nunca te esqueças do que vou te dizer agora. Vocês literatos escrevem romances, poesias e ensaios. Os filósofos interpretam a vida e o mundo. Os cientistas e os técnicos inventam ou descobrem coisas e procuram domar a natureza, pondo-a a serviço do homem. Mas para fazer uma civilização não bastam os literatos, os filósofos, os santos, os profetas, os cientistas e os técnicos. É preciso também homens de ação e paixão como o teu trisavô, o capitão Rodrigo, e como o teu tio Toríbio, homens que não têm medo de sujar as mãos de barro, nem mesmo de sangue, quando necessário. Sem esse tipo de gente, a roda da história não anda...

Ficou-lhe de tudo isso a impressão de que, de certo modo, Sílvia obrigara Deus a existir.

Porque o amor está mais perto do ódio do que a gente geralmente supõe. São o verso e o reverso da mesma moeda de paixão. O oposto do amor não é o ódio, mas a indiferença...

Espera mais um dia ou dois, e verás como vais te sentir mais perto de teu pai que nunca. Morto, ele passará a ser o que tua amorosa imaginação e a tua saudade fizerem dele. Nossa memória é dotada dum filtro mágico cuja tendência é deixar passar para a consciência apenas as boas lembranças dos dias vividos e das pessoas mortas. E é justamente essa inocência da memória que nos torna possível continuar vivendo sem desespero. E é ainda por causa disso que custamos tanto a aprender a viver... quando aprendemos.
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Profile Image for Geovani de Souza.
44 reviews
September 19, 2025


Acaba-se assim (ou inicia-se) a grande série O Tempo e O Vento de Érico Veríssimo. Já nem tenho tanto mais a comentar sobre essa esplêndida coleção que, ao me ver, é uma das maiores obras da literatura brasileira. Esse volume, tão similar ao anterior, acrescenta à série um pouco mais de sentimentalismo por meio do personagem Floriano Cambará, o qual, às vezes, parece até ser um reflexo do próprio autor. A história não necessariamente caminha para um fim, ao longo da narrativa, mas ela também não simplesmente acaba. No fim, me restam apenas as memórias e a melancolia de ter que se desapegar da família Terra-Cambará e amigos, de Santa Fé e das grandes discussões filosóficas e políticas deste grande apanhado da história brasileira.

Embora não dei 5/5 para os volumes individualmente, considero essa série 5 estrelas e me sinto completamente cativado por ela. Recomendo a todos.
Profile Image for Mislene Alves.
20 reviews
July 4, 2024
Um ótimo desfecho para a saga o Tempo e o Vento. Sem pontas soltas, estabelece o mote de toda a trilogia: a dinâmica cíclica da vida. A história acaba com o fim do último grande personagem representativo da "estirpe" Cambará, evento que provoca os sentimentos necessários para Floriano dar o ponta-pé inicial ao seu primeiro romance de verdade. A descrição da última noite de 1945 descreve como diferentes pessoas passam problemas e angústias muito semelhantes, inclusive em comparação a personagens e litígios do passado. A última frase da trilogia também é a primeiro.

O único ponto negativo pra mim são os maçantes e infindáveis debates políticos entre os personagens, que, apesar de interessantes, acabam enjoando pela extensão e quantidade. Porém, querendo ou não, a repetição serve para explicitar ainda mais a cadência cíclica e intermitente da história, na qual as coisas são diferentes mas também as mesmas.
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11 reviews
July 16, 2022

'' ... Até que ponto o romance é autobiográfico?''

'' Já vejo claro o que vai ser o novo romance. A saga duma família gaúcha e de sua cidade através de muitos anos, começando o mais remotamente possível no tempo.''

''Sempre viveste procurando a liberdade ... Descobri que a verdade, a grande liberdade é a aceitação dum dever, duma responsabilidade. Não há no mundo ninguém menos livre do que o egoísta ... ou o homem detaché. É um perigo a gente pensar que liberdade é sinônimo de solidão.''
Profile Image for Lucas Marques.
71 reviews4 followers
Read
April 18, 2022
"Doía-lhe a cabeça e não lhe era fácil concentrar a atenção na leitura. O açodamento com que procurava devorar o que naquelas folhas estava escrito prejudicava-lhe o entendimento, e mais de uma vez, depois de ter lido uma página inteira, teve de voltar à primeira linha."
Profile Image for Nilzete.
75 reviews3 followers
December 15, 2021
Foi o livro mais enrolado de toda a saga. Ficou mais repetitivo. Muitas relembranças.
Profile Image for Meyrielle.
38 reviews
July 20, 2024
Os últimos volumes (a parte toda do Arquipélago) têm discussões muito maçantes e só por isso não levaram 5 estrelas redondas.
Profile Image for Paulo Sousa.
294 reviews13 followers
June 4, 2016
Livro 2°/Mar// 11°/2016

Título: O Tempo e O Vento 3 - O Arquipélago vol. 3
Autor: Erico Veríssimo
Editora: Cia das Letras
Páginas: 488
Minha classificação: ⭐️⭐️⭐️⭐️⭐️

_________________________________
Acabo de concluir a leitura da terceira e última parte de O Arquipélago e final da saga O Tempo e O Vento, encerrando este maravilhoso projeto de leitura que me consumiu exatos 70 dias, iniciados em 2 de janeiro e terminado em 11 de março de 2016.
E que belo final Erico deu ao final desta história...

Neste derradeiro volume, os costumeiros diálogos de discussão política continuam a se arraigar no Sobrado, tendo a figura de Getúlio Vargas e seu Estado Novo como centros de controvérsias e acalorados debates. Entremeiam-se as correntes políticas da primeira metade do século XX, como o comunismo de Eduardo, o tradicionalismo de Terêncio Prates, a religiosidade de Irmão Toríbio e às digressões filosóficas de Floriano Cambará, até então para mim um fantasma que vivia ora a se esgueirar pelos cantos da velha casa da família Cambará, ora em passeios pelas ruas de Santa Fé onde abre sua torrente de emoções reprimidas ao amigo Roque Bandeira -- o Tio Bicho -- e a seu primo, o irmão Toríbio.
Mas é na sua solidão que Floriano se encontra, a perder-se de amor por Silvia, objeto de sua mais terna lembrança. É ali tb que ele revive os rancores e decepções por seu pai, Rodrigo, desde que era menino.
Como que fantasmas que saem das sombras da água furtada para cobrarem o legado que o atormenta.
Já Floriano, o romancista, ensaia o grande livro da sua vida, o raio X de sua própria família, abarcando desde os tempos do Continente, onde delineará o Retrato de várias gerações de Terra Cambará Quadros, esmiuçará cada ilha, nesse imenso Arquipélago que são seus irmãos, pais e parentes próximos.
Mas para mim o ponto alto do romance é a enigmática e calada Silvia, que se revela no diário que passa anos escrevendo, e onde leio as passagens mais lindas e marcantes da parte final dessa história.
Silvia também ama Floriano, mas, o casamento com Jango a impede de viver o grande amor da sua vida...
E não tinha como não terminar esta belíssima história com o acerto de contas entre Floriano -- o filho -- e seu pai, Rodrigo, onde ambos põem à mesa uma toalha branca onde são despejados anos de ingratidões. Também narra o início do romance de Floriano, e a forma como Erico nos mostra as primeiras linhas não tem como não trazer a impressão de que o fim da história dos Cambaras e de Santa Fé, na verdade, é o seu começo, como uma espécie de Macondo tupiniquim, onde a vida corre em círculo...

Enfim, recomendo vivamente esta estupenda trilogia, sem dúvida um dos livros essenciais da literatura mundial!
Profile Image for Gláucia Renata.
1,306 reviews41 followers
July 22, 2014
A Guerra dos caudilhos chega ao fim, porém a Grande Guerra acaba repercutindo de alguma forma na vida dos habitantes do sobrado. Floriano escreve um livro dentro de um livro e através dele Veríssimo termina essa saga.
Displaying 1 - 20 of 20 reviews

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