"Cada um dos trabalhos aqui reunidos aponta e caminha, de fato, na direção de certas evidências de princípio, que, organizadas e hierarquizadas, compõe uma filosofia, mas cuja expressão plena não se encontrará neste volume, pela simples razão de que se trada de filosofia in fieri e de que não poderia ser de outro modo, sendo seu autor um homem de sessenta anos - precisamente a idade em que, após décadas de ensaios e tentativas, um filósofo começa a penetrar no território que será definitivamente o seu, se viver para ocupá-lo. É pois natural que o filósofo, antes de se aventurar a dar às suas idéias a expressão formal e sistêmica em que adquirão sua identidade definitiva, acerta as contas com as primeiras etapas de sua vida e de sua obra, como o pintor que revê e ordena seus esboços antes de iniciar o quadro. Não é outro o sentido da coletânea de Estudos reunidos que este volume inaugura. Para o escritor, para o crítico, para o ensaísta, um volume deste gênero é coroamento de uma vida. Publicá-lo aos sessenta anos seria prematura aposentadoria. Para o filósofo, é apenas a hora de fazer a avaliação final dos ensaios para poder iniciar o espetáculo".
Olavo de Carvalho, nascido em Campinas, Estado de São Paulo, em 29 de abril de 1947, tem sido saudado pela crítica como um dos mais originais e audaciosos pensadores brasileiros. Homens de orientações intelectuais tão diferentes quanto Jorge Amado, Arnaldo Jabor, Ciro Gomes, Roberto Campos, J. O. de Meira Penna, Bruno Tolentino, Herberto Sales, Josué Montello e o ex-presidente da República José Sarney já expressaram sua admiração pela sua pessoa e pelo seu trabalho.
A tônica de sua obra é a defesa da interioridade humana contra a tirania da autoridade coletiva, sobretudo quando escorada numa ideologia "científica". Para Olavo de Carvalho, existe um vínculo indissolúvel entre a objetividade do conhecimento e a autonomia da consciência individual, vínculo este que se perde de vista quando o critério de validade do saber é reduzido a um formulário impessoal e uniforme para uso da classe acadêmica. Acreditando que o mais sólido abrigo da consciência individual contra a alienação e a coisificação se encontra nas antigas tradições espirituais — taoísmo, judaísmo, cristianismo, islamismo —, Olavo de Carvalho procura dar uma nova interpretação aos símbolos e ritos dessas tradições, fazendo deles as matrizes de uma estratégia filosófica e científica para a resolução de problemas da cultura atual. Um exemplo dessa estratégia é seu breve ensaio Os Gêneros Literários: Seus Fundamentos Metafísicos, onde se utiliza do simbolismo dos tempos verbais nas línguas sacras (árabe, hebraico, sânscrito e grego) para refundamentar as distinções entre os gêneros literários. Outro exemplo é sua reinterpretação dos escritos lógicos de Aristóteles, onde descobre, entre a Poética, a Retórica, a Dialética e a Lógica, princípios comuns que subentendem uma ciência unificada do discurso na qual se encontram respostas a muitas questões atualíssimas de interdisciplinariedade (Uma Filosofia Aristotélica da Cultura — Introdução à Teoria dos Quatro Discursos). Na mesma linha está o ensaio Símbolos e Mitos no Filme "O Silêncio dos Inocentes" ("análise fascinante e — ouso dizer — definitiva", segundo afirma no prefácio o prof. José Carlos Monteiro, da Escola de Cinema da Universidade Federal do Rio de Janeiro) que aplica a uma disciplina tão moderna como a crítica de cinema os critérios da antiga hermenêutica simbólica. Sua obra publicada até o momento culmina em O Jardim das Aflições (1995), onde alguns símbolos primordiais como o Leviatã e o Beemoth bíblicos, a cruz, o khien e o khouen da tradição chinesa, etc., servem de moldes estruturais para uma filosofia da História, que, partindo de um evento aparentemente menor e tomando-o como ocasião para mostrar os elos entre o pequeno e o grande, vai se alargando em giros concêntricos até abarcar o horizonte inteiro da cultura Ocidental. A sutileza da construção faz de O Jardim das Aflições também uma obra de arte.
É grande a dificuldade de transpor para outra língua os textos de Olavo de Carvalho, onde a profundidade dos temas, a lógica implacável das demonstrações e a amplitude das referências culturais se aliam a um estilo dos mais singulares, que introduz na ensaística erudita o uso da linguagem popular — incluindo muitos jogos de palavras do dia-a-dia brasileiro, de grande comicidade, praticamente intraduzíveis, bem como súbitas mudanças de tom onde as expressões do sermo vulgaris, entremeadas à linguagem filosófica mais técnica e rigorosa, adquirem conotações imprevistas e de uma profundidade surpreendente.
A obra de Olavo de Carvalho tem ainda uma vertente polêmica, onde, com eloqüência contundente e temível senso de humor, ele põe a nu os falsos prestígios acadêmicos e as falácias do discurso intelectual vigente. Seu livro O Imbecil Coletivo: Atualidades Inculturais Brasileiras (1996) granjeou para ele bom número de desafetos nos meios letrados, mas também uma multid
O simbolismo é uma chave poderosa para entender o mundo. Olavo mostra como os símbolos estão presentes na dialética, na arte, em especial na literatura. Como aplicação prática do conjunto de ensaios que constituem o corpo do livro, um estudo genial sobre O Silêncio dos Inocentes. Mais que mostrar a chave simbólica para entender realmente o filme e porque ele nos impactou tanto, ele mostra como as atuais deformações da crítica nos conduzem a erros que nos fazem perdar o fio da meada. Interpretações ideológicas, psicológicas, sociais, são muitas vezes uma forma de não entender nada e reduzir toda arte a expressões de nosso próprio pensamento e preconceitos.