Mais de cem anos após a morte de Gabriel Tarde (1843-1904), chega ao Brasil esta reunião de seus ensaios. Apesar de conhecido como o rival histórico de Émile Durkheim, a edição destes textos é extremamente oportuna, possibilitando ao público brasileiro entender o quando Tarde contribuiu para a fecundação de teorias de pensadores como Henri Bergson (1859-1941), Gilles Deleuze (1925-1995), Bruno Latour e Eduardo Viveiros de Castro. O ensaio "Monadologia e sociologia" ganha uma nova tradução para o português, de Paulo Neves, e a revisão técnica de Eduardo Viana Vargas, antropólogo da UFMG e especialista no autor. Os outros três ensaios do livro, inéditos em português e fora de circulação na França desde sua publicação em 1910, são "A variação universal", "A ação dos fatos futuros" e "Os possíveis". Destacam-se ainda informações sobre a vida e a obra de Gabriel Tarde, incluindo uma carta autobiográfica e uma rigorosa compilação cronológica da bibliografia do autor e sobre o autor, permitindo ao leitor conhecer o desenvolvimento de seu pensamento, pontuando a evolução dos temas, suas variações e variedades.
Gabriel Tarde é um sociólogo intempestivo, sempre se contrapondo a uma ciência social engessada que se recusa a abraçar certas questões mais abrangentes do pensamento em favor de uma especificidade muitas vezes infrutífera.
Nessa coleção de ensaios Tarde vai dar corpo a uma profunda reflexão, que muito se aproxima de uma metafísica, mas que abre caminhos muito interessantes para um outro tipo de sociologia que não a imaginada por Durkheim.
Tarde é o mais filósofo dos sociólogos e aqui ele se apropria do conceito das mônadas imaginadas por Leibniz, porém aprofundando o conceito, esticando a corda da ideia até alcançar ares não pensados com implicações enormes para a filosofia e sociologia. Enquanto a reflexão corrente nas ciências sociais até então visava compreender o que era comum, o que era repetido, os padrões dentro da nossas relações sociais, Tarde sugeria uma filosofia do infinitesimal, que se preocupasse com a diferença mínima, que pautasse uma reflexão a partir da diferenciação homogênea. Uma tarefa extremamente ousada, mesmo para os padrões atuais. Não a toa as suas ideias tiveram tanto impacto nos pós-estruturalistas franceses que também estavam preocupados em questionar os alicerces do pensamento.
É uma remodelação no eixo das ideias no molde do que Kepler fez na física. Sair da busca pela compreensão dos estados permanentes da realidade e concentrar nossas reflexões sobre o movimento, essa era a proposta radical de Tarde. Sendo a realidade pura diferenciação e movimento, nossas reflexões precisavam, portanto, deixar de negligenciar o futuro para a produção da realidade. Tarde demonstrava grande preocupação com a centralidade do passado dentro da nossas análises sobre o presente. Ora, nem passado e nem futuro existem, portanto, ambos os tempos têm o mesmo peso na formação da nossa realidade. Ideia extremamente radical, mas que tem implicações interessantíssimas para nosso pensamento.
E por fim, Tarde vai refletir sobre os possíveis. Em um mundo de eterna diferenciações, de movimentos constantes, haverá sempre um excesso de potência sobre o ato. O cortejo do possível é o que produz o real, sob o custo do aborto de infinitos possíveis. É esse aborto dos possíveis que gera nosso espaço de movimentação, nosso vazio para o que ainda não é real, mas pode vir a ser. E como Tarde diz, tudo que é possível, tende uma dia a acontecer. E talvez, quem sabe, num futuro próximo as suas ideias tão marcantes também ganhem o reconhecimento que merecem e a penetração dentro das ideias sociológicas que nós tanto precisamos renovar. Mesmo Tarde sendo um pensador do século XIX ele ainda tem uma enormidade de ideias a nos ensinar.