Um romance de beira de estrada.
Num de seus últimos textos, João Guimarães Rosa adverte: "Minas Gerais é muitas. São, pelo menos, várias Minas." E o que temos no romance Um chão de presas fáceis é uma outra Minas Gerais, raras vezes incluída nos mapas das representações literárias das regiões brasileiras. Trata-se dos "Sertões Proibidos", estreita faixa de terra do Leste de Minas, compreendida entre o Vale do Jequitinhonha (divisa com a Bahia) e a Zona da Mata (fronteira ao estado do Rio), assim denominada graças ao édito do rei de Portugal (1733) que, a fim de impedir o descaminho do ouro, proibia tanto a sua ocupação quanto a abertura de picadas que dessem nas Minas. A ocupação tardia, os ciclos de progresso econômico de curtíssima duração e a implantação da estrada Rio-Bahia (atual BR-116) a partir dos anos 1930 conferiram ao Leste de Minas características distintas das demais regiões mineiras.
Embora se confesse mero compilador de material alheio, Fernando Fiorese nos guia neste travelling fragmentário e múltiplo pelas margens da Rio-Bahia. Ao modo de um documentário cinematográfico, alinhava histórias contadas por personagens que vivem nas cidades à beira da estrada: andarilhos, pequenos burgueses, pistoleiros, trabalhadores rurais, prostitutas, políticos, caminhoneiros etc. Aeste brió-à-brac textual, ajunta ainda cartas, registros históricos, citações, notícias de jornal, diálogos soltos e aforismos. Tudo isto para dar a ver as mazelas de uma região que tem a Rio-Bahia como um apelo férreo e feérico à migração de seus habitantes para o Rio de Janeiro e São Paulo, de forma a escapar de uma existência precária e de poucos horizontes.