Lendas Brasileiras, de Luís da Câmara Cascudo, reúne 21 tradições populares das cinco grandes regiões geográficas do país. Algumas dessas histórias, sem perder a identificação regional, são hoje conhecidas em plano nacional, graças à difusão da literatura, do rádio, de histórias em quadrinhos, de enredos de escolas de samba, de curtas-metragens. Assim, as lendas da Iara, do Neguinho do Pastoreio, da morte de Zumbi dos Palmares, do aparecimento da imagem de Nossa Senhora Aparecida.
No entanto, algumas das lendas incorporadas ao livro serviram de temas a obras famosas da literatura brasileira, sem se popularizarem. Caso da Cobra-Norato, que inspirou o poema famoso de Raul Bopp, tão original em sua expressão e origem, ao contrário de outras que, sem perder a identificação com a terra, são variantes de tradições multisseculares, presentes em todos os povos.
É o caso da missa dos mortos, da cidade encantada, residência de uma linda rainha, que para ser desencantada exige um sacrifício de sangue, e das cidades desaparecidas nas águas do mar ou de rios, em geral por castigo divino, em cujo local se ouvem rumores estranhos, lembrando as bíblicas Sodoma e Gomorra.
Uma boa parte das lendas reunidas no livro foi ouvida, e registrada, por Luís da Câmara Cascudo diretamente da boca do povo. Para as demais, utilizou fontes escritas, colhidas em obras de escritores ilustres, como o mineiro Afonso Arinos e o gaúcho Simões Lopes Neto, mas também em revistas de difícil acesso, livros raros. Esses textos encontram-se reproduzidos fielmente, com anotações de mestre Cascudo, esclarecendo o significado de termos regionais, fixando a difusão da história. As Lendas Brasileiras, de Luís da Câmara Cascudo, oferecem ao leitor um delicioso passeio pela alma brasileira, sem sair da poltrona.
Luís da Câmara Cascudo foi um historiador, antropólogo, advogado e jornalista brasileiro. Câmara Cascudo passou toda a sua vida em Natal e dedicou-se ao estudo da cultura brasileira. Foi professor da Faculdade de Direito de Natal, hoje Curso de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), cujo Instituto de Antropologia leva seu nome.
Pesquisador das manifestações culturais brasileiras, deixou uma extensa obra, inclusive o Dicionário do Folclore Brasileiro (1952). Entre seus muitos títulos destacam-se: Alma patrícia (1921), obra de estreia, e Contos tradicionais do Brasil (1946). Estudioso do período das invasões holandesas, publicou Geografia do Brasil holandês (1956). Suas memórias, O tempo e eu (1971), foram editadas postumamente.
Cascudo quase chegou a ser demitido de sua posição como professor por estudar figuras folclóricas como o lobisomem.
Um conjunto de contos fantásticos Brasil adentro, ricos por suas minucias que demarcam povos, períodos, tradições e história. Cada região possui sua representação (umas mais, outras menos), mas algumas são tesouros nacionais, conhecidas independentemente de seu local de origem. De cada região, tive um favorito:
NORTE: 4 Cobra-Norato;
NORDESTE: 7 Senhor do Corpo-Santo;
CENTRO-OESTE: 1 Romãozinho (embora tenha apenas um conto da região, ela foi muito bem representada, sendo esse um dos meus favoritos do livro todo);
Eu simplesmente amo os livros do Luís Câmara Cascudo. Eles são ricos de informações das lendas e costumes, e sempre descubro uma história nova. Nesse livro ele conta cada lenda em formato de história, ao invés de fatos e descrições. Fazia muito tempo que eu queria ler uma obra dele nesse estilo e esse livro foi perfeito para justamente isso. Como sempre, no final há sempre sua bibliografia de pesquisa e eu sempre descubro novas futuras leituras folclóricas, e eu sempre fico incrédula do quão profundo suas pesquisas eram - mesmo quando não deveria pois, de novo, suas obras são riquíssimas.
Câmara Cascudo, com todos os seus defeitos e problemas, ainda assim inegavelmente era um estudioso da nossa cultura e que muito se preocupou em valorizá-la. Nesse livro, ele compila algumas lendas transmitidas de diversas regiões do país. É um livro curto, e não é tanto um trabalho de estudar de forma analítica essas histórias, mas sim expor elas de uma maneira semelhante a como são contadas (apesar do fim do livro conter algumas brevíssimas anotações sobre cada lenda). Nesse sentido há muito aspecto criativo envolvido, e é difícil pro leitor, sem estudar mais a fundo essas lendas, saber até que ponto esse trabalho de excitar a imaginação na forma de contar a história veio de Cascudo ou da fonte de onde ele tirou. Mas acho que isso é uma questão a parte, o mais importante é que o livro é uma leitura interessante. Algumas histórias e personagens aqui são bem conhecidos, outros bem mais específicos. Eu diria que queria que o livro fosse mais longo, até porque tem algumas personagens e histórias muito famosas que também poderiam muito bem ter entrado aqui e não estão. Mas é difícil pois acho que um trabalho completo assim seria impossível, já que certamente há infinitas lendas por todo o Brasil e seu povo. Com certeza Câmara Cascudo sabia disso. Então, no propósito do livro, é um bom esforço.
“Uma vez viram descer uma montaria de bubuia pelo Amazonas, solitária porque o pirassara tinha-se deixado seduzir pelos cantos da Iara.”
Extraído do livro “Lendas brasileiras: A lenda da Iara”, de Câmara Cascudo (1898-1986), com ilustrações de Poty (1924-1998).
Iara é uma lenda brasileira que fala de uma sereia que vive nas águas amazônicas e que com seu canto doce atrai os homens deixando-os hipnotizados e rendidos à sua beleza. Confira as consequências de se deixar levar por esse fascínio neste outro trecho da lenda:
“Uma vez viram descer uma montaria de bubuia pelo Amazonas, solitária porque o pirassara tinha-se deixado seduzir pelos cantos da Iara.
Mais tarde, apareceu num matupá um teonguera, tendo nos lábios sinais recentes dos beijos de Iara. Estavam dilacerados pelos dentes das piranhas.”
Nem parece lenda! O canto doce de algumas sereias ainda encanta e desencanta...
Infelizmente, tive alguma dificuldade em ler este livro e compreender todas as lendas que aqui são apresentadas, nomedeamente a da Iara, escrita com muitos vocábulos e expressões da região amazónica. Só depois percebi que a tradução desses vocábulos vinha numa nota, no fim do livro. Enfim... Não deixo, por isso, de gostar bastante destes livros de lendas recolhidas da tradição oral.
Alguns trechos podem ter uma leitura um pouco difícil mas também por isso o livro é uma ótima fonte de conhecimento cultural do nosso país. Muito legal ler lendas que já conhecia e descobrir algumas novas.
Lendas brasileiras. Praticamente este termo já vem associado a Câmara Cascudo. Livro muito bem ilustrado, reúne as principais lendas do nosso folclore divididas por região. Muito gostoso e rápido de ler, ótimo para introduzir as crianças nesse maravilhoso mundo do imaginário regional.