Das distâncias entre as montanhas de Zahle e Santa Bárbara D'Oeste, entre 1920 e 2013, entre o império otomano e a ditadura brasileira, entre um avô e um neto e, da aproximação do fantástico com o autobiográfico, irrompe a narrativa deste romance evocativo, lírico e sensível sobre o medo e suas consequências. Assaad Simão Maluf veio do Líbano para o Brasil ainda menino, depois de viver uma tragédia na família, no ano de 1920. Marcelo, seu neto, não o conheceu. Quando nasceu, em janeiro de 1974, Assaad Simão já havia falecido. Apenas sabia de seu avô pelas histórias que contavam os seus pais e tios. Mas, na busca por compreender sua própria identidade e a dos seus antepassados, Marcelo se vê no ano de 1966, na casa do avô, na cidade de Santa Bárbara D`Oeste, interior de São Paulo. Sentado à janela da casa, enquanto Assaad escreve em um caderno suas memórias sobre a infância no Líbano, quando pastoreava carneiros nas montanhas de Zahle. Marcelo acompanha, como uma presença invisível, a escrita do avô, que está vivendo os seus últimos dias.
Nasceu em Santa Bárbara D’Oeste, interior do estado de São Paulo, em 1974. Autor dos infanto-juvenis Jorge do pântano que fica logo ali (FTD, 2008), As mil e uma histórias de Manuela (Autêntica, 2013), entre outros. Seu primeiro romance A imensidão íntima dos carneiros” (Reformatório, 2015), foi finalista do Prêmio Jabuti (2016) e vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura (2016).
Livro lido 3°/Ago//40°/2017 Título: A imensidão íntima dos carneiros Autor: Marcelo Maluf (BRASIL) Editora: Reformatório Publicado: 2015 Páginas: 156 Minha classificação: ⭐️⭐️⭐️⭐️ _____________________________________________ A leitura desse livro me fez lembrar de "Dois irmãos", do Milton Hatoum, primeiro livro que li este ano, por diversas razões.
Entre elas, a beleza poética, com seus cheiros, cores, tessituras, movimentos e sons, tão presentes na prosa de Hatoum, que nos envolve numa elegia de concretudes idiossincráticas marcantes.
Por descrever a beleza histórica e geográfica do Líbano, este país distante, mas que devido aos laços construídos por libaneses que vieram para o Brasil enriquecendo-o com seu sotaque forte, seus costumes marcantes, sua culinária unica estreitaram a distância através da sua cultura. Hoje, eu não posso imaginar uma Manaus (Deus queira que eu a conheça um dia!) sem pensar na grande contribuição libanesa para o embelezamento da capital manauara que Hatoum retratou tão divinamente bem em "Dois irmãos" e em Maluf pude recordar aquelas páginas.
Mas, a despeito de tão bons aspectos, este é um livro sombriamente triste e poético. A história da "redenção, sacrifício e transformação" de Assaad, patriarca de uma família nascida no Brasil, mas iniciada no Líbano sob a ocupação otomana. A trágica reconstrução do passado, evocando suas dores e, sobretudo o medo, foi a sua escolha. Nas páginas líricas e embargadas de um prosa fantástica, onde homens e animais se simbiotizam, Assaad busca expurgar o dia em que o medo fê-lo perder seus irmãos. A jornada escolhida não é fácil, mas não há saída para se chegar à imensidão íntima de si mesmo, nos ensina Assaad sob a voz de Marcelo.
"A imensidão íntima dos carneiros", primeiro romance de Marcelo Maluf, é um brinde de poesia em prosa para a literatura brasileira, um livro capaz de nos fazer sentir o mistério do ser e do existir ou quem sabe apenas nos levar ao interesse pelas ondas do mar...
Um relato quase que espiritual do passado recente de uma mesma família. A voz que serve como fio condutor da narrativa é passada de avô para pai, de pai para filho, numa espiral constante, mas com uma lógica muito clara. A trama se concentra no fato de que cada membro carrega em si algo dos seus antepassados, os relatos se mesclam, os históricos se entrelaçam, formando uma bagagem única, um legado comum a todos. Cada um dos personagens aqui carregam suas particularidades, mas ao mesmo tempo representam um só sujeito. Um todo unificado pelo sangue, pelo passado, pela família.
É engenhosa a posição do narrador nesta história: diante do fantasma de Assad, é Marcelo que assume a forma de um ectoplasma e viaja temporalmente para ter acesso às lembranças do avô morto. Ao passo que estas lembranças estão bastante nítidas e vivas, porém, há uma opacidade em Marcelo que me incomoda: pouco sabemos de sua própria narrativa, que em vários momentos achei que podia se tensionar um pouco mais com a do avô, culminando naquele belíssimo final.
Livro de prosa bonita, mas de estrutura e estilo muito confusos. Se não fosse pelo narrador-personagem onisciente e onipresente que viaja pelo tempo e espaço a cada capítulo, acho que o livro seria mais interessante. Aliás, não é qualquer família que possui parentesco consanguíneo com um carneiro.
Eu queria dar 4.5 porque aquilo da Haia me tirou a paz, mas não tem como dar meia estrela e não achei justo um 4... Eu gostei muito, destaquei o livro inteiro. A escrita é linda.............
A IMENSIDÃO ÍNTIMA DOS CARNEIROS, romance de Marcelo Maluf, começa com a seguinte frase: “O medo estava no princípio de tudo”. Mas, ao longo de sua narrativa, o medo não está apenas no princípio, não. O medo é uma força que impulsiona as personagens e a trama, que transita entre o Líbano e o Brasil.
Não apenas pela ligação com o Líbano, mas há algo que conecta o livro de Maluf com Milton Hatoum e Raduam Nassar. Talvez esteja mais no jeito de contar uma história, num fluxo regado a som e fúria, mas também sabores e cores, e a dinastia de uma família que atravessa décadas e continentes. Uma espécie de realismo mágico permite que o Marcelo, personagem contemporâneo e narrador, acompanhe seu avô, Assaad, resgatando sua história. Os dois nunca se conheceram, o jovem nasceu em 1974, quando o avô já havia morrido.
Há também animais falantes, um carneiro sábio chamado Mustafa, que já foi humano e teve uma família, e, conforme diz a Assaad: “Já desejei o mundo. Vivi como os miseráveis e como os reis. E morri cercado por ladrões e inimigos. Sempre tive medo. [...] A morte pode estar em qualquer lugar, Assaad.”
A transição entre o tom realista e o onírico é sutil, e, ao mesmo tempo, poderosa, pois quando elementos do real já não dão mais conta de captar a realidade, a fantasia se embrenha nas fissuras e se expande. Só ela é capaz de acompanhar, por décadas e gerações, o medo que move ou estanca os personagens de Maluf, conforme o último parágrafo do primeiro capítulo: “E é da morte que todos de nossa família têm medo desde sempre. Temos o medo e por isso preservamos tanto nossas vidas a ponto de não vivermos tudo o que poderíamos ter vivido.”
Por causa dos algoritmos da Amazon De alguma forma misteriosa esse livro chegou até mim. A combinação de título com capa enigmáticos me atraíram de um jeito que não consegui resistir. E valeu muito à pena.
Imagine uma autobiografia que passe pela história da sua família, mas contada de um ponto de vista fantástico e um pouco surrealista, em alguns momentos. É exatamente o que o Marcelo Maluf fez aqui. Temos animais falantes, mensagens através de sonhos, cargas carregadas através da reencarnação, projeções astrais, espiritualidade e ancestralidade, que se misturam e confundem a realidade e a ficção.
Não bastando esse contexto f*da, o autor ainda conta sua história através de 2 narradores que se intercalam e criam uma estrutura que vai e volta no tempo, sem muito apego com uma linha lógica. Não é a obra mais simples de ser lida e admito que só por volta dos 30% percebi do que se tratava e consegui reduzir minha confusão.
De qualquer forma é uma história maravilhosa. O contato do personagem principal com suas raízes e como isso contribui para que ele entenda a si mesmo é um processo incrível de ser acompanhado. Me lembrou muito algumas coisas do "O Labirinto do Fauno" (Guillermo del Toro) por manter o real e o onírico separado por um véu muito fino.
Leia se você curtir uma psicodelia na literatura, ou quiser se arriscar numa autobiografia experimental e mística.
Escrever simples, com um estilo próprio, acho que hoje é uma das coisas que mais gosto. Acho que funciona por que é bem curto. Os artifícios que ele usa para quebrar a temporalidade são bem legais, mas não sou tão fã de como ele os resolveu. Enfim, um belo livro.
Que livro lindo! Me arrancou lágrimas algumas vezes! Como carregamos em nós as delícias e, principalmente, as dores de nossos antepassados. Cadê a editora que vai republicar essa pérola????
O livro é bem dinâmico e se insere em uma vertente da literatura contemporânea que trabalha com a memória e as heranças ligadas às origens estrangeiras - no caso, a libanesa. Apesar de ter uma narrativa bem envolvente e que nos motiva a seguir para a próxima página, e também acertar quanto ao uso plural dos narradores, achei o texto em si pouco consistente: há um excesso de lirismo que, na maioria das vezes, não corrobora as situações, fora que algumas das cenas que podiam ser mais demoradas são brevíssimas. Enfim, esperava um pouco mais, mas indico a leitura!
É possível que justamente por ter lido recentemente dois bons exemplos da dita autoficção, gênero muito popular na jovem e contemporânea literatura brasileira (a saber, A Resistência, de Julián Fuks, e A Chave de Casa, de Tatiana Salem Levy), esse contato com o primeiro romance do paulista Marcelo Maluf tenha soado um pouco insatisfatório. A Imensidão Íntima dos Carneiros, título encantador e que faz jus à trama, é um amontoado de camadas, sensações, pontos de vista e subtramas que convergem todas para a figura do autor. Neto de Assad, imigrante libanês que sempre escondeu com vigor sua história pregressa, Marcelo recebeu o pesado fardo dos segredos familiares de seu tio Sami, quando da morte de seu pai. Como forma de combinar sua perplexidade e seu desejo de dar um fim àquelas memórias tão violentas, Marcelo escreve um livro onde viaja no tempo para lugares tão distintos quanto os últimos dias de vida do avô, que não chegou a conhecer, em Santa Bárbara do Oeste, interior de São Paulo, ou a pequena aldeia de Zahle, no Líbano, onde foram criadas tantas tradições e segredos familiares.
Auxiliado por essa característica íntima, por esse anseio de abraçar certo sentimento abstrato de família e fraternidade, talvez a maior beleza de Imensidão esteja em seu caráter quase fabular. Não imagino se Maluf efetivamente pretendia canalizar uma espécie de Sherazade e suas Mil e uma Noites, mas é fato que para além das pequenas historietas e causos que insere aqui e ali nas falas de seus personagens, seu próprio livro soa como uma parábola, um dito que poderia ser passado de geração em geração. A tragédia presenciada pelo avô em 1920 e que definiria toda sua vida dali em diante não é destituída de sua gravidade mas também não é descrita com grande distanciamento dos outros momentos mais fantasiosos da narrativa, que vão desde carneiros falantes até entidades com poderes mágicos. Como o próprio Maluf fala em dado momento, está é uma história sobre um medo que toma formas distintas e atravessa décadas, um medo que se inicia num momento específico e atravessa os anos se infiltrando no sangue dos homens daquela linhagem, e cabe ao escritor e a seu livro darem um fim a tal sensação.
Ou seja, Maluf toma o caminho da ancestralidade de uma maneira um pouco mais mística e reverente aos costumes daqueles que vieram antes dele do que se costuma ver no gênero da autoficção mas isso não parece ser suficiente para que as questões de abarcar um tema e um desejo tão grandiosos num primeiro livro podem acarretar. Ainda que seja uma leitura bastante rápida (não necessariamente ágil), o texto parece cambalear um pouco para encontrar tom e ritmo, e no fim das contas a dor do presente, a viagem ao passado, as memórias descritas pelos fantasmas de pai e avô, as reflexões sobre futuro, tudo soa como uma grande massa disforme que luta para encontrar coerência. Enquanto porções isoladas, no entanto, é tudo muito bonito.
Herança, ascendência, descendência, vida passadas, presentes e futuras. De onde viemos e somos, quem somos e estamos, para onde vamos seremos.
São essas as questões do livro de Marcelo de tons (auto)biográficos como a segurar um espelho onde o passado olha, o presente chora e o futuro pode rir. Vontades de conhecimento de raízes, de origens e fazer pazes com aqueles que antes de nós foram, estiveram e cuja vida é nossa em sangue, prosa e fala, sem elas não seríamos senão sonhos de um passado imaginado.
Há muito a aprender com o que foi e com o medo de gerações que se falam através dele, cada uma de nossas famílias tem legados distintos, medo, raiva, amor, cobiça, conformismo, tristeza, alegria, como separar o que herança do que é vivência? Como separar o que é nosso do que é memória coletiva? Como viver uma vida impregnada de outras vidas?
Segurando esse espelho, Marcelo nos faz refletir sobre a estranheza de sermos estrangeiros de nós mesmos, imigrantes de nossa linhagem, carneiros de nosso saber e tradições herdadas e criadas, somos túmulos de tradições que nos negamos a perpetuar e sementes de outras tantas que criamos para chamar de nossas e termos algum senso de propriedade e segurança num mundo sem face e voz e que cada vez mais valoriza o agora e execra o ontem, vivemos dias cheios demais de amanhãs para encaixar os ontens.
A imensidão íntima dos carneiros é a imensidão íntima de uma história nossa que vai se esvaziando conforme mergulhamos mais e mais fundo no oceano do amanhã.
Eis aqui uma obra nacional contemporânea maravilhosa; vencedora do prêmio São Paulo e finalista dos prêmios Jabuti e APCA. Confesso que o título me chamou muito a atenção e por esse motivo “aluguei” o livro no Prime reading da @amazonbrasil . Mesmo sem conhecer nada da história, já me interessei logo de cara pela trama, pois o autor escolhe uma forma de contar a história que eu nunca tinha visto: enquanto Assad escreve suas memórias em um caderno, seu neto (que sequer o conheceu em vida) o acompanha como se estivesse presente em todos os momentos (ou será que realmente estava 🤔) A trama gira em torno da vida de Assad, um imigrante libanês que após um trágico episódio veio e formou sua família no Brasil. O livro é poético e sensível, mas também com algumas pitadas de realismo fantástico (que amo por sinal), com as conversas de Assad e seu carneiro Mustafa. Mais uma leitura nacional recomendadíssima! •
Quando escolhi essa obra para conhecer a literatura de Marcelo Maluf não sabia ainda o que iria encontrar - a genialidade com que Maluf escreve foi como um toque direto ao lado de dentro da minha alma. A Imensidão Íntima dos Carneiros é um relato sobre a dor coletiva que perpassa gerações de uma mesma família, quase como um tratado sobre os laços e acordos de sangue que atam a todos nós - sabendo ou não de sua existência. Com esse texto, acho que fica uma reflexão de que a dor é sempre uma sombra do amor - por que não?!
Em tempo: para mim, a alegoria aos carneiros e sacrifício foi uma das melhores metáforas já escrita, e, por sinal, a melhor que eu já li desde Ensaio Sobre a Lucidez de José Saramago.
Não sabia que era autoficção até terminar a leitura. Essa é a surpresa boa que acompanha o hábito de não se ler a sinopse de nada.
Talvez precisamente por esse desconhecimento eu me permiti abraçar as incoerências e os elementos de fantasia da narrativa de Maluf com toda a facilidade. Sua escrita tem o peso certo - não transborda nem para o açúcar nem para o sal, seguindo uma uma linha agradável. Sempre que me lembrar deste livro, lembrarei da imagem de um expatriado idoso girando em um pé só e caindo ao chão, reproduzindo os movimentos que um velho improvável em uma caverna improvável lhe ensinou no pior dia da sua vida, há décadas e oceanos de distância.
A história se lê como uma parábola e se concretiza como tal ao chegar no fim. Uma boa escolha para um bom livro.
Gerações, medo e liberdade. Esse livro estava na minha biblioteca do Kindle a um tempinho e a capa e o título sempre me chamaram atenção, então como vi que eram poucas páginas comecei a ler despretensiosamente e que baita surpresa esse livro foi. O autor conta a história de uma família e suas gerações com um plano de fundo sobre o medo, utilizando de uma escrita poética e não linear que pode parecer um pouco cansativa a leitura mas é uma leitura super fluida, profunda, que você consegue absorver vários significados dependendo da sua situação. Eu achei um livro incrível e ainda por cima é de um escritor brasileiro, então se você está na dúvida sobre ele, pode ler sem medo.
A história começa bem, mas desanda. O início é bastante onírico, com relato de lendas familiares e do povo libanês que são prazerosas de ler. Porém, desanda para um aspecto fantástico que não me cooptou. É bom mas faltou algo. Talvez porque eu esperava a história da diáspora dessa família e o que viveram para reconstruir suas vidas no Brasil e a narrativa se prende aos traumas que trouxeram consigo.
Eu não sabia muito o que esperar e me surpreendeu bastante. A história de uma família, seus dramas e traumas através das relações entre avô e neto. Contudo, essa relação não é retratada no mesmo espaço-tempo, há um distanciamento físico que é ultrapassado de forma mística através de prosa extremamente poética e dolorosa, que torna a narrativa tão bonita quanto triste.
A narrativa extremamente poética e leva o leitor pela história de reconexão do autor a suas raízes familiares, através do encontro com o avô que nunca conheceu. Explorando a história de ambos, o desfecho é intenso e ao mesmo tempo delicado, comovente.
"Quando eu nasci, sob o sol daquele mês de janeiro, o medo estava no meu primeiro choro. O mesmo medo que hoje ainda vive em mim. Um medo genético passado de pai para filho, de avô para neto."
Maravilhoso Confuso? Sim. Mas essa confusão é muito importante no livro….. foi perfeito, triste, trágico, esperançoso, e existencial…. Nem sei o que dizer, talvez as lágrimas que estão correndo pelo meu rosto agora passem a mensagem melhor
Não me pegou como uma pancada, mas fluiu tranquilamente. O destaque fica a cargo da abordagem às práticas e crenças religiosas comuns na região do Líbano. Leitura fluida, cativante e sensível.