Estou a ler a Trilogia Nikopol pela segunda vez. Primeiro porque adorei quando a li a primeira vez e segundo porque é uma BD marcante.
Antes de tudo, há uma relação muito clara entre A Feira dos Imortais (1º volume da Trilogia) e a história pessoal de Enki Bilal. Não de uma forma autobiográfica directa, mas profundamente ideológica, emocional e política.
Bilal nasceu em Belgrado, na antiga Jugoslávia socialista, e cresceu entre vários países do regime socialista antes de se fixar em Paris. Cresceu num ambiente marcado por regimes autoritários, propaganda política, vigilância, censura, culto do poder e fronteiras rígidas, tanto físicas como mentais.
Por isso A Feira dos Imortais, de Enki Bilal, é uma banda desenhada densa, inquietante e com o peso das memórias do seu autor.
Num futuro distópico passado em Paris, o autor cruza política, mito e decadência para construir um mundo onde o poder humano já não passa de uma caricatura e até os deuses parecem cansados de existir.
Nada ali é heróico no sentido clássico: todos parecem corrompidos, cansados ou à beira da irrelevância.
Visualmente, a obra é tão opressiva quanto fascinante, com cores frias, rostos marcados e cenários em ruína que reforçam a sensação de estagnação e desconforto. É muito mais do que ficção científica: é uma reflexão sombria sobre poder, identidade e decadência.