Versão portuguesa, “Suite em Branco”, Douda Correria, Dezembro de 2022
A minha mãe disse: Distorces a ferida com a tua mentira desafortunada
Há uma mudez que não se pode traduzir
O que me puxou para este livro foi, sem dúvida, a sua estética: letras brancas sobre tarjas pretas sobre fundo branco, criando um contraste que talvez a leitura explique. Após uma breve introdução em que Athena Farrokhzad, filha de refugiados iranianos na Suécia, aborda a questão da aprendizagem de uma nova língua...
Passava os dias a praticar vogais curtas e longas
como se os sons que saíam da sua boa
pudessem lavar o azeite da pele dela
A minha mãe deixou que o cloro escorresse pela sintaxe
Com os sinais de pontuação as sílabas dela fizeram-se mais brancas
que um inverno em Norrland
...”Suite em Branco” desdobra-se numa polifonia de testemunhos, da mãe, do pai, da avó, do tio e do irmão, que por vezes assumem a forma de axiomas.
O meu pai disse: Quanto mais te afastes do local do crime, mais te amarrarás a ele
A minha mãe disse: Quanto mais trates da ferida, mais pus ela largará
A minha avó disse: O que perdes em fruta recuperas em passas
Além da necessidade de aprender a língua do país de acolhimento, onde nunca deixam de se sentir estrangeiros...
O meu irmão disse: Um dia quero morrer num país
onde as pessoas consigam pronunciar o meu nome
...surge a indissociável questão da identidade...
A minha avó disse: O pertencer é como um espelho
Caso se quebre podes arranjá-lo
A minha mãe disse: Mas ao reflexo falta um estilhaço
...das saudades da terra natal...
O meu pai disse: Ainda lá estamos, mesmo que o tempo nos tenha separado do sítio
...da superação do trauma...
O meu irmão disse: O passado é um abuso nunca completado
...e, consequentemente, da memória.
O meu tio disse: Irás esquecer tudo
menos a memória, que irás lembrar para sempre