3,5*
A Filha Obscura (4,5*)
A escrita e as personagens de Ferrante são inconfundíveis. Neste livro, o tema principal é a maternidade e as suas duas faces da moeda. A autora dá-nos uma perspectiva fria e cruel, porém muito verdadeira, de como ela pode ser uma vocação ou uma maldição disfarçada de amor. Já conhecia a mestria de Ferrante para contar histórias de pessoas comuns, que têm pensamentos abomináveis e que fazem coisas horríveis, as suas histórias não são felizes e não nos vão deixar com um sorriso no rosto. Quando comecei a ler A Filha Obscura, comecei por encarar a protagonista como uma mulher independente, com filhas criadas, que estava só a passar umas férias na praia sozinha. Essa descrição está certa, mas no final do livro, tudo muda, porque ficamos a descobrir que esta mulher tem um fundo de malvadez. Abandonou as filhas, traiu e abandonou o marido, roubou uma criança pequena, interfere maldosamente na rotina de uma família como se estivesse a jogar The Sims. Claro que dei por mim a sentir-me mal por estar a ler os pensamentos de uma pessoa assim, mas, por outro lado, tudo o que estava escrito era muito sincero, sem qualquer filtro, eram os pensamentos e as acções puras de uma pessoa que poderia muito bem existir, o que torna a história de alguma maneira maravilhosa. O mais genial é que ficamos a reflectir sobre tanta coisa, sem grande coisa ter acontecido, porque o enredo é bastante simples. O complexo está presente na mente da nossa protagonista que, aos nossos olhos, tornou a maternidade obscura, uma coisa que deveria ser feliz e maravilhosa, é o completo contrário. Acho curioso que a tradução para o inglês ficou "The Lost Daughter", o que se pode muito bem aplicar, devido não só, mas também, à boneca que é perdida e se torna toda ela numa personagem. Contudo, o título original descreve melhor todas as complicações que implica ser mãe e ser filha, na minha opinião. E, inevitavelmente, transportei algumas das coisas que se passam na história para a minha própria vida e comecei a pensar se alguma vez a minha mãe sentiu que eu era um fardo, se houve algum momento em que ser mãe não era o que ela queria. Ou mesmo como seria a nossa relação hoje em dia e como a nossa história seria diferente se nos tivéssemos perdido uma da outra, se ela simplesmente não tivesse vocação para ser mãe. Ferrante é genial, repito mais uma vez, porque nunca será suficiente dizê-lo.
Os Dias de Abandono (3,5*)
Este livro deixou-me num dilema. Para explicar o porquê de uma das minhas autoras favoritas me ter arrebatado com o seu brilhantismo e simultaneamente frustrada com a sua personagem principal mais chata e enfadonha, preciso de resumir o enredo da história: uma mulher é abandona pelo seu marido e fica com a casa, os filhos e o cão nas suas mãos. E este livro é a louca e desconcertante jornada mental (e extremamente traumática em termos físicos) por que esta mulher passa enquanto se sente completamente abandonada e ignorada pelo "companheiro de vida". Primeiro que tudo, a escrita da Ferrante é fenomenal e a sua capacidade para criar personagens plausíveis e descrever a realidade de forma pura e crua é indiscutível (estou sempre a dizer isto, mas é verdade). E neste livro, a autora descreve o processo de separação que esta mulher vive quando anteriormente estava completamente dependente do homem, o seu parceiro, em termos financeiros, sociais, emocionais... Ela não tinha vida própria, só vivia em função da família, e agora vê-se perdida, como se o marido a tivesse deixado no fundo de um poço, sem nenhuma ferramenta para sair dele. E é extremamente interessante acompanhar a sua jornada, mesmo sendo penoso lê-la. O livro está escrito em primeira pessoa, logo, somos obrigados a colocar-nos no lugar dela, e tudo o que ela passa, faz, sente, é um tormento. Mesmo. Senti-me mal ao ler esta história, principalmente no meio do livro, em que as coisas mais loucas, impossíveis de imaginar possíveis de acontecer, realmente acontecem. É um livro que me causa reacções psicossomáticas. Porém, e por outro lado, acho esta mulher chata, ingénua e inconsequente porque se deixou colocar num lugar em que só há vazio, apenas porque o marido resolveu mudar de vida, deixando um casamento que já não existia, só no papel. As coisas que ela faz com ela própria, com os filhos, com o cão, com a casa... Não gostei, embora tenha noção de que são completamente plausíveis. Mexeram muito comigo e várias foram as vezes em que condenei a personagem por toda a loucura que vivia dentro dela e que ela deixou passar cá para fora. Ao contrário de outros livros "comuns", este deixou-me num dilema em que, à primeira vista, não gostei do livro, só que, depois de reflectir um pouco, só não gostei da personagem principal. Falta-me dizer que, no final, esta mulher surpreendeu-me e a mensagem que a autora nos deixa é importantíssima: tudo passa se deixarmos passar.
Um Estranho Amor (2,5*)
Este foi o primeiro livro que a autora escreveu, em 1992, no ano em que nasci. Portanto, esta história tem a minha idade, é interessante pensar que passaram 25 anos e a violência doméstica acontece e é consentida por todos os que dela têm conhecimento. Curiosamente, foi o último que li da autora e o de que menos gostei. O tema centra-se na maternidade e na relação entre filha e mãe, sendo que aqui apenas temos o ponto de vista da filha. A mãe morreu e a protagonista vai tentar perceber o que lhe aconteceu, ao mesmo tempo que recorda o passado das duas e a relação que tinham. Não me identifiquei com a protagonista, não me aqueceu nem arrefeceu, nem estava preocupada com o que lhe poderia acontecer. Julguei-a bastante em alguns aspectos e não compreendi a "projecção" amarga que ela depositava na mãe. Penso que foi isto que me impediu de desfrutar do livro. Por outro lado, gostei bastante desta, mesmo não tendo contacto algum com ela. As descrições e memórias, de que temos acesso pela filha, revelam uma pessoa muito mais interessante do que ela quer fazer parecer. Acrescento apenas que, por ser o primeiro, a autora ainda não tinha encontrado a sua voz e ainda estava a treinar para escrever posteriormente os muito bons livros que publicou.