À Mão Esquerda faz um extenso relato da vida de Percival von Traurigzeit ou Pérsio Traurig, um jornalista gaúcho que nasceu numa colônia alemã no início da década de 1940 e correu mundo em memoráveis aventuras e desventuras. Esse relato, porém, começa a ser contado muitos anos antes do seu nascimento, desde século XVI, quando se escreve a história de seus antepassados distantes e próximos, e vai culminar no ano de 1995. Cada capítulo é contado por um personagem diferente num determinado ano compreendido nesse período.
Livro muito bem escrito, narrativas envolventes que apresentam críticas sociais elaboradas e ainda atuais para o século XXI, ainda que ao mesmo tempo contenha um linguajar que em nossa época não seja bem vista. De todo modo, como socióloga da imigração, esse romance ficcional brasileiro traz traços sociais ao situar o teuto-brasileiro em um contexto de colônia que, ao contrário do que se esperaria de imigrantes alemães, energia um estado de pobreza. Os personagens não são caracterizados, ao contrário, muito bem descritos. É uma obra política, social, muito inteligente mesmo. Fica a recomendação.
A estrutura tem pontos em comum com Viva O Povo Brasileiro, como o seccionamento da narrativa por diferentes épocas. Também não deixa de ser um épico de formação, porém mais fechado na imigração alemã do RS e com muitos elementos autobiográficos. A politização transparece um pouco (é o velho Lobo afinal), mas sem esquematismo. Livro de autor que sabe o que faz. Enfim, uma leitura agradabilíssima de uma obra muito mais relevante do que sua pouca divulgação faz parecer. Uma pena não haver versão eletrônica, mas vale a pena buscar a impressa.