- O País das Renas -
“Quando as renas têm pouco pêlo no ventre, é de esperar um Inverno muito duro; em contrapartida, se no Inverno se lambem umas às outras, é sinal de que se avizinha um longo e bom Verão. Se as perdizes conservam uma plumagem escura no fim do Outono, isso quer dizer que o Inverno vai chegar tarde. Se no Inverno as renas se atacam umas às outras, quer dizer que virá uma onda de tempo quente seguida de outra de frio intenso. Se no Outono as renas comem raminhos de bétula, quer dizer que na Primavera, sobretudo em Maio, nevará abundantemente. Se o cuco canta escondido entre a folhagem na parte mais alta de uma árvore, é sinal de péssimo Verão. Se o cuco canta em cima de um tronco caído, é sinal de desgraça.”
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- Baleias do Mediterrâneo -
“Recordo-me de um entardecer ao pé do mar, no Norte da Sardenha. O sol punha-se diante dos olhos do nosso grupo de amigos que contemplava o crepúsculo, deixava-nos para iluminar outras terras a oeste, quando se repente, nos chegou do mar o inconfundível canto das baleias, aquele som agudo que tem qualquer coisa de música futurista e que surpreende todos os que o ouvem.”
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- O Amor e a Morte -
“ ... personagem central, o gato Zorbas, um gato grande, preto e gordo que foi nosso companheiro de sonhos, histórias e aventuras durante muitos anos.
Justamente quando o carteiro estava a entregar-me aquele primeiro exemplar do romance e eu a sentir a felicidade de ver as minhas palavras na ordem meticulosa das suas páginas, estava Zorbas a ser examinado por um veterinário, queixoso de uma doença que começou por lhe tirar o apetite e o fez andar triste e murcho e que acabou por lhe dificultar dramaticamente a respiração. Fui buscá-lo à tarde e ouvi a terrível sentença: lamento, mas o gato tem um cranco pulmonar muito avançado.
Os parágrafos finais do romance falam de um gato nobre, de um gato bom, de um gato do porto, porque Zorbas é tudo isso e muito mais. Chegou às nossas vidas justamente na altura em que Sebastián nasceu e, com o tempo, passou de nosso gato a ser mais um companheiro, um querido companheiro de quatro patas e melódico ronronar.
Amámos aquele gato, e em nome deste amor tive de reunir os meus filhos para lhes falar da morte.
Falar-lhes da morte, a eles que são a minha razão de viver. A eles, tão pequenos, tão puros, tão ingénuos, tão confiantes, tão nobres, tão generosos. Lutei com as palavras à procura das mais adequadas para lhes explicar duas terríveis verdades.
A primeira era que Zorbas, por uma lei que não inventámos e à qual no entanto temos de nos submeter, mesmo à custa do nosso orgulho, ia morrer, como tudo e como todos. A segunda era que dependia de nós evitar-lhe uma morte atroz e dolorosa, porque o amor não consiste apenas em conseguir a felicidade do ser que amamos, mas também em evitar-lhe sofrimentos e preservar a sua dignidade.
Sei que as lágrimas dos meus filhos me hão-de acompanhar toda a vida. Como me senti pobre e miserável perante a sua indefesa… ”