Quando a sorte presenteia alguém com uma vida travada em tempos de cólera, qual será a melhor atitude a tomar? Enfrentar os eventos vindouros, que não auguram ganhos proveitosos mas apenas feridas impossíveis de sanar, ou aceitá-los e participar neles como um actor secundário, submisso a um papel menor?
Em “Adeus a Berlim”, Isherwood cria uma persona que, segundo o próprio, não é ele mas a ele se assemelha – um britânico aspirante a escritor, em visita a Berlim, que, tal como defendido por uma personagem, adopta uma postura de “uma máquina fotográfica com o obturador aberto, totalmente passiva, que regista e não pensa”. Na nota introdutória desta edição, o autor refere-se às diferentes partes que compõem a obra como “peças”. De facto, não têm o poder narrativo de um conto ou novela mas também não aspiram a esse patamar. São antes relatos de uma cidade em ebulição, num ringue de boxe do civismo, onde a cada canto pode surgir a violência, a condenação, o desprezo e a discriminação cega.
Sente-se o frio da sombra, cheira-se a futilidade materialista e saboreia-se a decadência social. Há referências à perseguição aos judeus e às querelas políticas, a que se contrapõem os ambientes descontraídos mas sempre conspirativos dos cafés, espetáculos e cabarets (ou não tivesse este livro servido como argumento para o filme “Cabaret”), onde planos eram engendrados, contactos feitos e olhares cruzados, numa clara afronta às normas estabelecidas (de antes mas ainda tão vincadas actualmente). De facto, para a purpurina brilhar necessita de um foco de luz e, nesta época, reinava mais um negrume que consumia o fruto interior que designa o ser humano como tal. O que fica desta amálgama? Uma involução do quotidiano, tão bem retratada no ímpeto dos tísicos arredados em sorverem ao máximo a vida de quem os visitava no sanatório.
Tal como o destino “escreve direito por linhas tortas”, também aqui o tempo é desconexo e não linear. Mas nada disso impede a entrega de um retrato frio e indesejado de uma sociedade em queda, onde imperam a desconfiança, a ambição e a disciplina. Tudo à lei da força e da bala, ambas repressoras de qualquer liberdade, inclusivamente daquela que permite ler nas entrelinhas.