Novo livro da vencedora do Prêmio Jabuti 2015 de melhor romance traz uma narrativa comovente sobre passado e futuro Numa travessia de ônibus pela noite, Maria, uma mulher que dedicou a vida à educação de base, entrelaça passado e presente para recompor uma longa jornada que nem mesmo a distância do tempo pode romper. Em uma escrita fluida, conhecemos personagens cativantes de diversos lugares do mundo e memórias que desfiam uma série de impossíveis amores, dos quais Maria guarda lembranças escondidas numa “caixinha dos patuás posta em sossego lá no fundo do baú”. Com sutileza e domínio da narrativa, Maria Valéria Rezende vai compondo um retrato emocionante dessa mulher determinada, que sacrifica a própria vida em troca de algo maior. Outros cantos é um romance magistral, sobre as viagens movidas a sonhos.
Maria Valéria Rezende nasceu em 1942, em Santos (SP), onde morou até os 18 anos. Em 1965 entrou para a Congregação de Nossa Senhora - Cônegas de Santo Agostinho. Sempre se dedicou à educação popular, primeiro na periferia de São Paulo e, a partir de 1972, no Nordeste. Viveu no meio rural de Pernambuco e da Paraíba e, desde 1986, mora em João Pessoa. Já esteve em Angola, Cuba, França e Timor, entre outros países, convidada a falar sobre seus projetos sociais. Maria Valéria estreou na ficção em 2001, com o livro de contos Vasto mundo. Depois, escreveu livros infanto-juvenis e o elogiado romance O Voo da guará vermelha. A autora, que costura referências das culturas erudita e popular, “é uma revelação em nossas letras”, como disse Frei Betto.
A experiência de Maria Valéria com a dor do analfabetismo e também com a educação de jovens e adultos foi o mote para O voo da guará vermelho. “Uma personagem se apaixona por aprender a ler e a outra descobre um sentido para sua vida, ensinando”. A autora constrói no livro o encontro de Irene, uma nordestina que vira prostituta em São Paulo, com Rosálio, um servente pedreiro. Dona de uma escrita inventiva e conhecedora da realidade de “Rosálios” e “Irenes”, Maria Valéria fez uma obra poética e forte, que dispensa trivialidades.
Nos contos de Vasto mundo, seu primeiro livro, Maria Valéria apresenta “causos” do povo nordestino, em que trata de amores e dores, da geografia local e da crença fácil no que transcende o explicável. A autora também escreve para crianças e jovens, tanto poemas quanto histórias ficcionais, em que aborda temas como o medo, a lealdade e as relações sociais, sempre com humor e criatividade.
Maria Valéria Rezende tem aquela coisinha bonita dos grandes escritores brasileiros que é conseguir retratar com sensibilidade e poesia o que ocorre no sertão brasileiro, de maneira que mesmo quem não vivenciou as dificuldades dali, consegue sentir o quão difícil era/é a vida de quem espera todo dia, mês e ano pela chuva e a dor que acomete o povo quando ela não vem.
Em Outros Cantos, a autora nos apresenta a vida de Maria, uma professora que adentrou ao sertão quando jovem para alfabetizar adultos pelo Mobral em plena ditadura, e que volta uma vez mais, na condição de observadora ao sertão, em uma viagem de ônibus, ao específico povoado de Olho d'Água; descrevendo as transformações ocorridas, das dificuldades e barreiras encontradas, da sabedoria que nenhuma letra seria capaz de explicar; compondo, assim, uma imagem diferente do lugar onde tanto sofreu e onde também foi tão bem acolhida. É, portanto, uma obra secular, onde a personagem nos leva a visualizar as transformações do país, como plano as perseguições a quem combatesse os ideais da ditadura, até a quase irreal liberdade de comandar o próprio destino em um lugar que o destino das pessoas parecia ser sofrer, quase nada comer e não chorar pois a água era valiosa demais.
E valiosa também é essa obra, foi a mim uma excelente leitura, Maria Valéria Rezende é sempre incrível e que sorte a nossa poder ler suas poesias em forma de romance.
Algaroba, algazarra, almocântara, albornoz, algaravia. O vocabulário de raízes árabes se emaranha à aridez agreste de quarenta anos atrás. Maria retorna ao sertão que conheceu quando, professora do Mobral (e percebo que a palavra quase soa também arábica), tentava plantar no solo seco a semente da revolução. Não à toa, o presente é representado por um deslocamento, uma viagem de ônibus, um retorno a um sertão que só existe na memória, e o presente aparece apenas nos sustos e solavancos da viagem, mostrando de forma sutil que algo mudou naquela paisagem - para o bem e para o mal.
"Apostava-se a vida no que acreditávamos ser maior que a nossa própria vida. Encher de sentido o tempo era, então, mais urgente pois tão passageiro, urgência de marcar o mundo com a nossa existência, mesmo arriscando-nos a torná-la ainda mais breve."
Aos 30 anos, Maria conheceu o Sertão pela primeira vez. Não foi seu primeiro deserto; idealista, se viu em outros tão áridos e de gente que também não tem muita vez. Foi para ser professora, muito mais que de beabá, pois a educação que pretendia era outra. Mas aprendeu que o tempo era outro, que sua existência não se marcaria pelos ponteiros.
No tempo da viagem de sua volta à aridez, anos depois, Maria nos conta o seu primeiro sertão, o que aprendeu, os ideais que se perderam ou que se refizeram. As histórias que ouviu e as que levou em sua caixinha de memórias. São viagens de uma viagem; num primor linguístico comovente.
A voz da narradora de OUTROS CANTOS, novo romance da premiada escritora Maria Valéria Rezende, é sedutora. Seduz com suas idas e vindas entre passado e presente num fluxo de memória e observação. Acompanhamos dois momentos da vida dessa mulher chamada Maria.
Quatro décadas atrás foi para o Sertão do nordeste, numa pequena cidade para onde ninguém queria ir, para implementar educação para jovens e adultos. Porém, os tramites legais demoram, e ela trava amizade com os moradores e até trabalha com eles. No presente, essa mesma mulher está numa viagem de ônibus para visitar esse mesmo lugar, e puxa, pelo fio da memória, esse passado e outros mais distantes, na Argélia, México.
É nesse diálogo entre o onírico e o real que se constitui a trama narrativa de Outros Cantos. Há uma figura que a acompanha desde sua juventude, quando o conheceu no Rio, e deixou-lhe um pequeno souvenir de sua Harley-Davidson. Ao longo dos anos, ela o reencontrou – e sempre deixa um pequeno objeto. No Sertão não foi diferente. Guarda tudo em uma caixinha, e são suas lembranças mais caras. Sobre essa figura, é claro, pairam dúvidas: existe mesmo, sempre é ele, aqueles objetos foram realmente deixados para ela ou apenas perdidos.
Enquanto traça essa jornada pessoal – que beira uma amorosa – Maria Valéria paralelamente retrata as mudança nos 40 anos dessa região esquecida no mundo. São pequenos detalhes – como já ocorria em seu premiado QUARENTA DIAS – que dão conta dessas transformações sociais e culturais. Nesse sentido, chega a ser um livro político, seja no trabalho da professora quando jovem com seu idealismo numa região marcada pelos mandos e desmandos de coronéis e afins, ou pela mudança de um presente em transformação.
Outros Cantos se constrói, então, pelas dicotomias de tempo, de ponto de vista (de uma mesma narradora), de um lugar. Faz o retrato de um Brasil em transformação, e todas as consequências – positivas e negativas – disso tudo. A prosa de Maria Valeria é certeira, e seu olhar nos torna cúmplices desse retrato.
O livro cria a expectativa da experiência do ensino na realidade do sertão, mas fala mais do cotidiano e aprendizado da professora com aquela realidade. Usa memórias de outros lugares "desérticos" para fazer paralelo com o sertão que achei forçado. Também revisita memórias de amores urbanos na época da ditadura, mas não dá prosseguimento, e não me seduziu.
Depois de ler Quarenta Dias, não esperava menos da Maria Valéria Rezende. Jornada de uma mulher que dedicou a vida aos excluídos, em movimentos de alfabetização popular na época da ditadura militar. O sertão no coração e nas palavras, nas bonitas lembranças que ela vai amarrando ao longo de uma viagem de ônibus.
A narradora de Maria Valéria Rezende se equilibra entre o tempo presente e o passado de 40 anos antes. A prosa é simples, fluida, mas tem sofisticação nos seus mecanismos internos.
Uma história descritiva, e de narrativa fluida, intercalando entre três fases da vida da narradora-protagonista, mas que carece de elementos que fazem o leitor se importar com o enredo e os personagens. É uma teia que vai sendo tecida mas que no processo acaba perdendo seu brilho, infelizmente não me cativou. Um ponto interessante foi nomear o fenômeno atual de dependência da tecnologia das pessoas de "autismo virtual", que Maria pensou estar presente somente nos grandes centros urbanos mas se deparou com adolescentes no mesmo estado na pequena cidade de Olho D'Água.
Outros Cantos, o premiado romance de Maria Valéria Rezende, narra a travessia de Maria por dois sertões. Um de quarenta anos atrás, rudimentar, bruto, precário e inexplorado, e; um outro, que ela observa através da janela de um ônibus e, em alguma medida, desconhecido e alheio.
A memória é elemento essencial para reconstruir os dias vividos em Olho D’Água, entre as histórias à sombra da algarobeira, trabalho e vidas tão áridas quanto o solo da caatinga.
Uma caraterística que se repete aqui é a construção de um espaço-protagonista, como ocorre com a Farinhada de “Vasto Mundo”. Porém, usa Maria como um denominador comum para colacionar as histórias, mesclando com suas memórias da Argélia e outros cantos por onde passou e viveu.
Contudo, também guarda relação com “Quarenta Dias” ao enfatizar o coque cultural entre Maria e os hábitos e costumes do lugar.
A noção de estrangeiro é presente na narradora, não apenas pela fluidez, ao percorrer o sertão à noite dentro de um ônibus, quanto na sensação de pertença ao sertão, mesmo sabendo-se alheia.
Assim, Maria Valéria constrói um retrato do sertão e do sertanejo das décadas de 1960 e 1970, oprimidos entre a seca e o sistema de poder e dominação vigente. Há um tom de mítico, trazido pela distância da narradora, e, pouco a pouco, próximo e verdadeiro.
Altamente recomendado para quem quer deitar na rede e aproveitar uma boa leitura.
Que leitura tocante! Primeiro livro que leio da autora e despertou em mim a vontade de conhecer outras obras. A escrita poética e permeada de metáforas, torna a leitura agradável e extremamente profunda. A história é uma enxurrada de lembranças da protagonista, que está a bordo de um ônibus retornando ao lugar onde vivera quarenta anos antes como professora alfabetizadora popular. Não há muita ação no decorrer da história mas nem por isso ela é monótona, isso por causa da cativante escrita da autora. Maria Valéria Rezende dá voz a um povo sertanejo duramente castigado pelas intempéries do clima seco e árido do sertão e por aqueles que se aproveitam disso para explorar ainda mais aqueles já tão explorados pela vida. Fiquei envolvida pela doçura da narração da protagonista, uma personagem paradoxalmente romântica e pragmática. Sem dúvidas, a literatura brasileira contemporânea está muito bem representada por Maria Valéria Rezende. Poesia e encantamento em meio a secura e dureza do sertao. Recomendo muito!
A narrativa é bastante simples, mas Maria Valéria Rezende escreve tão bem (e as coisas que ela decide escrever e descrever) que tudo é beleza. E sutilezas (você esquece que o livro se passa em tempos de ditadura; até que de repente você é convidado a lembrar). Livro muito bonito. A passagem do tempo no sertão (o resto do ano é como se fosse apenas um longo dia, até que chega o Natal, mas sem papai noel, só o presépio e a família), a transformação que a chuva faz na paisagem, tudo é celebrado e tudo é feito em comunidade... É um livro nostálgico.
Memórias que permeiam choques de realidade, mas que acalentam (ou assustam) a alma... Fato é que são onipresentes, e nos conduzem ao longo dessa bela obra, uma verdadeira viagem no tempo, no espaço e na palavra.
Mais próximo de "Quarenta Dias" que de "Vasto Mundo", em minha leitura. Consigo enxergar aqui quase a mesma narradora, com seus comentários pontuais sobre o choque cultural entre o Sertão de hoje e o Sertão de outrora, seu ar de nostalgia, bem como a relação metonímica estabelecida entre os objetos que ela guarda - e as epígrafes dos capítulos - com a narrativa que vai emergindo, os vários tempos que se desfraldam em camadas, a partir da viagem da protagonista. Destaco as passagens (justamente as que mais me lembraram os causos de "Vasto Mundo"), em que o relato em primeira pessoa se deixa imbuir da oralidade sertaneja para contar as histórias de alguns personagens alheios ao enredo da professora, que se fixa em Olho d'Água para alfabetizar jovens e adultos. É incrível como, nestas passagens, a voz sertaneja - e não a emulação de uma voz sertaneja feita por alguém "estrangeiro" àquela realidade - parece de fato ditar a história.
A história de "Outros Cantos" acompanha a educadora Maria em uma viagem a Olho d'Água, povoado a que foi enviada para trabalhar quando mais jovem pelo Mobral, dessa vez para uma palestra.
Acompanhamos pequenos trechos do caminho da protagonista e seu espanto, aparentemente incômodo, com as tantas mudanças do sertão nos últimos quarenta anos, intercalados com memórias de sua primeira estadia no lugarejo. Numa espécie de história dentro da história, a protagonista-memória (não sei como chamar a Maria jovem, das lembranças, então usei isso) relembra de outras viagens, sempre em situações análogas às que passa no momento, inclusive os nomes das pessoas que conheceu em cada lugar.
A escrita da autora é bem fluida e imersiva, com certeza vou ler mais coisas dela! Nota 4.0/5.0
Outros Cantos é um livro belíssimo. Bem escrito e com uma narrativa incrível em que a autora intercala vários acontecimentos do passado e o presente.
Durante uma viagem de volta ao sertão a protagonista conta tudo o que já havia vivido por lá. Maria Valéria Rezende fala muito sobre o comportamento dos sertanejos. Como vivem, o modo de trabalho, os sonhos, os sofrimentos e tudo mais sobre a cultura popular.
A minha nota é porque o meu ritmo de leitura atrapalhou a minha imersão na obra e também porque achei que faltou explicações sobre certos acontecimentos, mas super indico. É um livro fascinante. O último capítulo trouxe uma perspectiva que gostaria que estivesse sido mais explorada. Com certeza renderia muito mais histórias.
Texto impecável! São muitas histórias dentro da narrativa principal, muitas pessoas diferentes, muitas dores e a certeza de que quem pode deve assumir uma postura de renovação constante da luta contra as injustiças sociais. Só não dei 5 estrelas, porque o livro Quarenta dias, da mesma autora, me impactou mais.
Missionária que esteve envolvida com educação no interior do sertao nordestino. o livro conta um pouco dessa história e de outras referentes a opressão carência e, sobretudo, força vivida por essa população.
Uma bela prosa. História um pouco parada, mas que vai te envolvendo e emocionando quando vai chegando o fim. Gostei bem mais do que Quarenta Dias, outro livro da autora.