"Este livro foi escrito com pedaços de mim. Usando pedaços de mim como palavras, eu falei sobre Deus. Porque não há outra forma de falar sobre Deus a não ser falando sobre nós mesmos. Deus é um espelho no qual a imagem da gente aparece refletida com as cores da eternidade. [...] O nome "Deus" é também um bolso. Há bolsos que guardam infernos e outros que guardam jardins. Este livro são coisas que tirei do meu bolso de nome "Deus". Ali, dentro desse nome-bolso, estão jardins, beleza, amor, utopias... Mas tirei também coisas que me dão medo, venenos que vazam na água cristalina. Para me livrar deles."
Rubem Alves
No livro "O Deus que conheço", Rubem Alves revela sua peculiar teologia, seu olhar autêntico e surpreendente sobre o sagrado. Longe de tentar convencer ou mesmo converter quem quer que seja, o autor expõe aqui, de maneira ora cômica, ora lírica, mas sempre com uma leveza revigorante, a crença que carrega consigo.Ao expressar seu assombro diante da beleza que reside no mistério de Deus e, ao mesmo tempo, apontar as contradições e incoerências do pensamento teológico oficial, Rubem Alves pinta um retrato colorido e sutil do divino em nossa vida cotidiana.
Rubem Alves é um psicanalista, educador, teólogo e escritor brasileiro, é autor de livros e artigos abordando temas religiosos, educacionais e existenciais, além de uma série de livros infantis. Durante sua infância, enfrentou os problemas comuns ocasionados pelas freqüentes mudanças de estados e de escolas. Tais mudanças influenciaram sua atitude de introspecção que o levou à companhia dos livros e ao apoio da religião, base de sua educação. Presbiteriano, tornou-se pastor. Teve três filhos, e entrou numa crise de fé decorrente de um problema de saúde na família, tendo assim de abandonar o pastorado. Apóstata do cristianismo, tornou-se crítico da religião organizada. É considerado persona non grata na Igreja Presbiteriana, pelas suas posições liberais e anticlericais. De volta ao mundo secular, tornou-se escritor e acadêmico.
Não é um livro propriamente dito, é uma coletânea de ensaios — alguns deles, inclusive, extremamente repetitivos, até mesmo com frases muito similares. Mas é Rubem Alves e tudo que o Rubem tocava era ouro. As repetições podem até ser vistas como um mantra, um convite a refletir de novo e de novo sobre questões que para sempre serão eternas. Já li muita teologia, mas nunca li uma teologia tão poética quanto a dele — com exceção de Richard Rohr, mas ele ainda se baseia muito em um ecumenismo institucionalizado, enquanto o Rubem está porta afora. Adorei muitos dos textos, outros não funcionaram tanto assim.
"Deus é um espelho no qual a imagem da gente aparece refletida com as cores da eternidade"
"Para se voltar a Deus, é preciso esquecer, esquecer muito, desaprender o aprendido"
"Os jardineiros sabem que há muitos jardins diferentes — nenhum deles é verdadeiro, mas todos são belos""
"Todos os que pretendem possuir a verdade estão condenados a ser inquisidores"
"Deus nos deu asas, as religiões inventaram as gaiolas"
"De todas as artes, a música é a que mais se parece conosco. Para existir, ela tem de estar sempre a morrer"
Uma coletânea de pequenos ensaios, contos e reflexões espaçadas. Nada sistematicamente organizado, e às vezes um pouco repetitivo entre um texto é outro. Algumas breves aventuras em ética, só que nada muito rigoroso (nem é a proposta do livro). Ainda assim, Rubem Alves escreve como poucos, e acho que ele toca diretamente naquilo que de mais real podemos conhecer de Deus: a beleza. Com a simplicidade característica, vemos aqui uma exposição, que desvela ao ocultar, o Deus do mistério apofático, presente em todas as coisas e em todas as criaturas — não como parte delas, ou parte do mundo, muito menos como algo. Mas Deus como a beleza inexplicável presente nesse cosmos bagunçado, mas infinitamente desejável nas suas limitações e na sua finitude.
A leitura é fácil, agradável, e esteticamente cativante. Contudo, pela repetitividade, algumas vezes fica cansativa, mesmo sendo um livro curtinho.
Coleção de pequenos textos nos quais Rubem Alves expõe suas ideias sobre Deus. O que deles resulta é uma noção toda particular, fruto de sua sensibilidade e perspicácia. Os textos exemplificam, ainda, a importância de se fazer boas perguntas. Boas perguntas nos levam a boas respostas, isto é, a respostas (reflexões) que nos estabilizam, assim como uma boa âncora estabiliza um barco em mares revoltos.