Achei esse livro um tanto estranho, ele reúne frases das mais variadas de Clarice, frases tiradas dos livros, do diário, da agenda, da parede do banheiro dela, sei lá. Acho que os editores partiram do princípio de que as pessoas gostam das frases da autora, é uma grande verdade, mas o livro, na minha modesta opinião, parece mal feito, eu acho, inclusive, que algumas frases foram repetidas. Outras frases ficaram bobas assim isoladas e outras deviam simplesmente terem sido esquecidas. Todo mundo escreve umas coisas que prefere jogar no fogo depois, não? Enfim, talvez seja exagero meu. É claro que há aquelas frases excelentes dela. Recopiei aqui algumas que chamaram a minha atenção.
“Amo a língua portuguesa. Ela não é fácil. Não é maleável. E, como não foi profundamente trabalhada pelo pensamento, a sua tendência é a de não ter sutilezas e de reagir às vezes com um verdadeiro pontapé́ contra os que temerariamente ousam transformá-la numa linguagem de sentimento e de alerteza. E de amor. A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve. Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de superficialismo.”
“A culpa em mim é algo tão vasto e tão enraizado que o melhor ainda é aprender a viver com ela, mesmo que tire o sabor do menor alimento.”
“Quisera eu ser dos que entram numa igreja, aceitam a penitencia e saem mais livres.”
“Quem me obriga a escrever? O mistério é esse: ninguém, e no entanto a força me impelindo.”
“Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada.”
“E saiba que gosto de ler histórias em quadrinhos, meu amor, oh meu amor!”
“O que é angústia? Na verdade minha tendência a indagar e a significar já é em si uma angústia. Esta começa com a vida. Cortam o cordão umbilical: dor e separação. E enfim choro de viver.”
“Minha falta de coragem de matar uma galinha e, no entanto, comê-la morta me confunde, espanta-me, mas aceito.” (Achei essa reflexão bastante crucial, se estivesse viva talvez virasse vegetariana)