Baseado em trabalho de campo desenvolvido desde 2006 pela antropóloga Marina Vanzolini na região do Alto Xingu, o livro A flecha do ciúme é uma etnografia sobre a feitiçaria e suas imbricações com o parentesco no sistema multilíngue xinguano, sob a perspectiva de um dos povos que o integram, os Aweti. Habitantes das margens dos rios Curisevo e Tuatuari, nas cabeceiras do rio Xingu, ao norte do Mato Grosso, os Aweti são um povo falante de língua tupi ainda pouco conhecido na literatura etnológica.
Mostrando que o feitiço ocorre geralmente entre pessoas muito próximas, o que contrasta com a imagem, nativa e antropológica, do pacifismo como marca da relação entre os povos xinguanos, a autora busca descrever como a feitiçaria pode ser uma antítese do parentesco e, ao mesmo tempo, dele derivada. "Se é verdade que tornar-se xinguano significa abdicar da violência guerreira, como mostram depoimentos nativos reunidos por diversos autores que trabalharam na área, a feitiçaria revela que o processo de transformação de estrangeiro ou inimigo em xinguano não é um evento histórico isolado, mas algo que exige contínua recriação”, conclui.