O que se espera de uma crônica de Tati Bernardi, antes de ler, provavelmente é que seja leve, descontraída, bem-humorada, que focalize miudezas do cotidiano e, sem se preocupar em ser profunda, consiga render boas risadas, em meio a uma ou outra pequena filosofia sobre o modo como conduzimos nossa vida. O próprio título de “Depois a louca sou eu” favorece essa visão, enquanto sugere um vínculo com a oralidade, de onde certamente a cronista pinçou essa bem-sacada expressão.
Por isso o susto logo na introdução do livro, que começa com a frase “Sempre que tenho uma crise de pânico, a fantasia mais maluca é a de que vou me desintegrar até deixar de existir” e prossegue com “Talvez escrever me salve diariamente de não enlouquecer de verdade”, “O pânico é essa interseção entre a certeza absoluta de que você não importa nada para o mundo e a certeza absoluta de que todos estão comentando o fato de você não importar nada para o mundo”, entre outras mais.
Ao final, a revelação de que se trata de “um livro sobre o medo”, escrito quase como uma promessa após sobreviver a uma crise de pânico. E, de fato, o que se percebe a partir de então é que o livro é um mergulho extremamente corajoso da autora em seus próprios medos, por meio de crônicas absurdamente sinceras em que expõe alguns dos episódios mais críticos que já teve de ansiedade e síndrome do pânico. É a insuspeitada carga psicológica do livro, bem mais pesado do que se imaginaria.
Existe o humor, mas, principalmente nas primeiras crônicas, quando ainda se tenta entender melhor o universo da autora, prevalece no leitor a dor e a empatia por tudo o que a cronista se viu obrigada a passar em consequência de seus transtornos. Tati busca o exagero e o absurdo, que é grande parte da receita do humor, mas sente-se que por trás de tudo isso há um sofrimento incalculável, talvez até indizível, se ela não tivesse, em boa hora, conseguido dar voz e expressão a esse tipo de emoções.
A exposição que a cronista faz de si mesma, não hesitando em revelar tudo o que de constrangedor já foi obrigada a fazer por ansiedade ou pânico, talvez só encontre parâmetros em Marisa Raja Gabaglia, que no final dos anos 1970 expunha a família de tal maneira que chocava o próprio Rubem Braga. Os problemas de Tati não são os de Marisa, mas ambas usam a crônica como um exercício de autoconhecimento extremamente poderoso, capaz de promover a imediata identificação do leitor.
A cronista escreve para retrabalhar, dentro dela, as mais marcantes experiências que o medo lhe deixou, e nesse processo ela chega a lembrar Nelson Rodrigues, que também enxergava na crônica uma utilidade praticamente psicanalítica, como instrumento para auxiliar a compreender suas motivações no tempo presente. Mas é inegável que, ao expor os seus dramas mais pessoais, a cronista também alcança o leitor, porque a ansiedade, patológica ou não, é hoje uma experiência difundida.
Na realidade, Tati mostra ser a cronista que melhor consegue captar um momento muito específico da trajetória da humanidade, que pode ser identificado como “a era da ansiedade e dos remédios controlados”. Basta olharmos ao redor e perceber a quantidade de pessoas que precisam lidar com algum transtorno e que se valem de algum medicamento para tornar mais suportável a experiência de viver. Então a crônica de Tati é absolutamente contemporânea e dialoga com o tempo presente.
O tarja-preta virou o pretinho básico, como ela diz, e todos têm coisas demais para pensar e lidar, em meio à cotidianíssima experiência da ansiedade. “Ninguém está bem”, ela chega a assumir. A cronista expõe todo o pesadelo do “e se…”, o que nos lembra como somos igualmente sozinhos e tristes e assustados, mas não se trata mais de um sentimento desesperador, porque agora descobrimos que, pelo menos, há uma escritora que consegue nos traduzir, e quem sabe isso já possa nos ajudar.
O conjunto de suas crônicas é um eloquente fluxo de consciência sobre o medo, a autoironia é levada a tal extremo que provoca tanto o riso quanto a compaixão, e mesmo o humor à Dorothy Parker, mesmo os exageros com efeitos cômicos, são dolorosos. Em meio a esse ambiente psicologicamente sensível, a cronista ainda consegue promover momentos de lirismo escrachado, de poesia crua, caso de “A louca do jardim”, e tudo isso fortalece o impacto que esse livro provoca.
“Depois a louca sou eu” é um dos mais significativos livros de crônicas lançados no presente século, porque, por mais pessoal que seja, consegue ir muito além do ego da autora e oferecer um panorama sobre uma realidade cada vez mais comum aos brasileiros, mas poucas vezes expressada com tamanha ousadia e sinceridade, em um estilo saboroso que, além de tudo, já não é tão comum assim no gênero.