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Passos Perdidos

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Há neste livro duas personagens obsessivas e misteriosas: Anna W., uma mulher que gosta de ilhas pequenas e nos leva a Santa Helena, Malta e Diu; C. Brandon, um homem perdido em grandes espaços arquitectónicos e no amor não correspondido por Anna W., enquanto percorre Paris, várias cidades belgas, Munique, Milão, Bombaim e Bijapur. As suas motivações e os seus destinos jogam-se entre a década de 1970 e os nossos dias, e vão‑se revelando nas deambulações pela história e geografia das ilhas, pelas audácias da arquitectura e, sempre subjacentes, pelas memórias do autor.

«As ilhas, sussurra para si mesma Anna W. com a alma cheia de culpa e de impotência, as ilhas são os lugares dos obsessivos e dos obstinados, sítios onde voltam a germinar manias mortas como líquenes em pátios onde não bate o sol. Nas ilhas há horizonte mas não há saída.»

A elegância de estilo, as extravagâncias narrativas e o cosmopolitismo invulgar das suas personagens colocam Paulo Varela Gomes num lugar único da literatura portuguesa contemporânea.

«Estamos perante as mais belas páginas literárias que Paulo Varela Gomes escreveu, desde que em 2013 publicou "O Verão de 2012". São páginas de uma prosa soberba.» —António Guerreiro, Público

LIVRO DO ANO 2016, Público

392 pages, Hardcover

Published January 1, 2016

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About the author

Paulo Varela Gomes

20 books22 followers
PAULO VARELA GOMES nasceu a 28 de Outubro de 1952. Licenciado em História, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (1978), mestre em História da Arte, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (1988) e doutorado em História da Arquitectura, pela Universidade de Coimbra (1999).
Foi Professor Associado no Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, tendo sido ainda professor e conferencista convidado de várias Universidades portuguesas e não-portuguesas. Era ainda investigador do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra.
Foi representante da Fundação Oriente na Índia (em Goa) em 1996-1998 e em 2007-2009. Autor de vários artigos e livros nas suas áreas de especialização, foi durante muitos anos crítico de arquitectura e arte e ainda autor e apresentador de documentários de televisão, como O Mundo de Cá, emitido pela RTP (1995). Faleceu em Podentes, Penela, a 30 de Abril de 2016.

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Displaying 1 - 4 of 4 reviews
Profile Image for João Roque.
346 reviews17 followers
May 25, 2016
“Passos Perdidos” foi o último livro escrito e publicado por Paulo Varela Gomes, recentemente falecido.
Dele havia já lido “Era uma vez em Goa”, que tem uma característica semelhante ao livro que acabei de ler: ambos são, sem o serem explicitamente, livros de viagens. São ambos livros com uma história para contar, mas os locais onde essas histórias ocorrem têm uma importância fundamental e são abundantemente descritos.
Em “Passos Perdidos”, livro que se nota, e que o próprio autor refere numa breve nota inicial, ter sido escrito numa corrida contra relógio contra a morte, PVG, varia muito os locais, fazendo-nos visitar a ilha de Santa Helena, cidades europeias como Antuérpia, Bruxelas, Milão e Munique, a ilha de Malta e alguns locais da India, com destaque para a ilha de Diu. Há ainda uma breve referência a Aguzmer, em Marrocos.
Todos estes percursos, muito interessantes suportam a história da sua personagem principal, Ana W., história essa que se nota perfeitamente ter ficado incompleta, como que à espera de um próximo livro que não vai haver.
Além da história dessa complexa personagem, surgem dois temas fundamentais – as ilhas, uma paixão de Ana e a Arquitectura, tema em que o autor está particularmente à vontade pois na sua vida académica foi professor de Arquitectura e História de Arte.
Curiosa a intromissão constante de “dizeres” do autor na narrativa, chegando mesmo por vezes a ser parte da história e os também constantes diálogos com os leitores, e que curiosamente são sempre direccionados para uma “leitora”.
Livro muito rico, muito bem escrito, como é normal na escrita de Paulo Varela Gomes, é culturalmente muito importante (as vezes que me fez ir ao Google...) e que me obriga a ler sem desculpas os outros dois livros que publicou.
É escusado dizer que recomendo vivamente este livro como já havia recomendado “Era uma vez em Goa”.
Profile Image for Miguel Duarte.
132 reviews55 followers
May 23, 2016
http://www.comunidadeculturaearte.com...

Paulo Varela Gomes faleceu há umas semanas, no dia 30 de Abril de 2016. Sabemos que tomou a decisão de se dedicar plenamente à escrita quando soube do seu diagnóstico de cancro terminal. A doença leva-o, mas ainda lhe dá 4 anos a partir do diagnóstico, tempo suficiente para que nos deixe, além deste Passos Perdidos, um livro de contos e mais três romances (todos com carimbo da Edições Tinta-da-China), de entre os quais se destaca Hotel, publicado em 2014 e vencedor do prémio PEN Narrativa 2015.

Passos Perdidos é, isolando apenas o fio narrativo, uma história à volta de duas personagens, Anna W. e C. Brandon, ela francesa, ele inglês, passada sobretudo em movimento, pela Bélgica, por Malta, pela Índia, por uma colecção de sítios.

Mas no início não conhecemos C. Brandon; no início Anna W. está só na remota ilha de Santa Helena, onde a morte de Napoleão, durante o seu exílio de seis meses por lá, traz à ilha atracção turística. Peculiar é Anna W., não tendo qualquer fascínio pelo imperador Francês, ter escolhido cumprir funções de directora dos Domínios Nacionais Franceses num local onde a única razão para a França destacar para lá alguém se prende com os locais por onde Napoleão andou há quase 200 anos. O que leva Anna W. a isolar-se num local como este é o seu fascínio por ilhas, fascínio que marca o próprio momento em que C. Brandon e Anna W. se conhecem no Panteão parisiense. Enquanto C. Brandon discursava para os seus alunos, Anna W. interrompe-o para marcar as diferenças deste edifício para com aquele no qual foi, supostamente, inspirado, dizendo que “O Panteão de Roma é como uma ilha e esta igreja não”. Esta frase marca, aliás, um ponto de partida para as temáticas deste livro.

Conhecem-se nessa Paris, de onde ela é natural, mas os seus encontros, esparsos e, ao mesmo tempo, regulares, arrastam-nos com eles para uma infinidade de destinos. C. Brandon busca pelo mundo as salas dos passos perdidos, ou seja,

“salas de espera tanto dos tribunais, como das estações de caminho-de-ferro e dos parlamentos, lugares onde todos os passos estão efectivamente perdidos porque, na nulidade desses espaços inertes, sem função que não seja servir outros espaços, entra-se na esperança de poder sair o mais depressa possível. Neste sentido, explica C. Brandon, as salas dos passos perdidos partilham com os cenotáfios e outros monumentos comemorativos, como os arcos de triunfo, o facto de serem espaços que podem ser dedicados à distracção e até ao sono, mas também à imaginação e à memória, ou à observação do próprio espaço, ocupações cuja inutilidade imediata e estatuto expectante tornam a arquitectura paradoxalmente mais visível do que seria possível nos lugares onde as pessoas estão a trabalhar.”

A imaginação, memória e observação espacial a que o autor faz referência acima são presença assídua ao longo de toda a obra e adquirem um grau de destaque muito maior que o dispensado propriamente à narrativa e às personagens. O foco posiciona-se sobre junção entre estes elementos e as constantes deambulações históricas, filosóficas, arquitectónicas, culturais, e por aí fora, que Paulo Varela Gomes tem tanto gosto e talento a fazer. E fá-lo quando quer e bem lhe apetece. Interrompe constantemente a narração para acrescentar factos, esclarecer detalhes, contribuir com um pouco mais de informação sobre o que está a servir de fundo.

Referências à vida do próprio autor são regulares, principalmente aquando da viagem à Índia, onde mistura constantemente os acontecimentos presenciados por Anna W. e C. Brandon com os acontecimentos vividos por ele, a sua mulher, e um casal amigo durante a sua viagem à Índia. É até bastante engraçada a forma como ele tenta mostrar quão diferentes (ou iguais) são as reacções tidas pelas personagens dos livros em relação às reacções tidas por ele, pela mulher e o casal amigo, quando face às mesmas situações. Situações como esta levam a que, apesar de algumas diferenças, seja difícil dissociar a personagem de C. Brandon do próprio autor, sentindo o leitor que, quando Paulo Varela Gomes não explícita a diferença entre o seu comportamento e o de C. Brandon, autor e personagem são o mesmo.

A própria busca pelas salas dos passos perdidos foi, também, uma busca de Paulo Varela Gomes, que, referindo-se a si próprio durante o livro, afirma que “o autor, quando ainda se dedicava à elusiva prática da historiografia académica da arquitectura e da arte, pensou que gostaria de escrever, em futuro incerto, um livro acerca desse tema”. Esse hipotético livro ganha forma neste livro, que se torna numa versão literária, escrita, dessas mesmas salas de passos perdidos. Um espaço onde cabem imensas dimensões, algumas aparentemente paradoxais, e onde, num romance, as palavras acabam a destacar mais a arquitectura do que, por exemplo, num livro onde as imagens sejam o foco. Essas imagens, não aparecendo de forma directa no livro, acabam, curiosamente, por figurar sempre ao longo do mesmo de forma indirecta. Somos frequentemente encorajados, pelo autor, a procurar online imagens do que está a ser descrito, culminando na ausência de descrições físicas das duas personagens principais, Anna W. e C. Brandon, que nos são apresentadas como sendo, cada uma, iguais aos actores Alicia Vikander e Laurence Harvey. Momentos desconcertantes que fogem aos cânones do género. E por falar em género, é também desconcertante a forma como Paulo Varela Gomes se refere no feminino a quem está a ler, como “a leitora”. Se, por um lado, se poderia interpretar isso como uma idealização de um leitor mulher, feminino, ou como uma sugestão de que são mais as mulheres que lêem que os homens, esta referência ao leitor como entidade feminina parece-se mais com uma tentativa de retirar a um homem a sua zona de conforto que, ao se ver referido como uma mulher, é inegavelmente obrigado a questionar-se acerca do papel das designações de género.
Profile Image for Miguel.
Author 8 books38 followers
April 4, 2016
Duas personagens, uma mulher e um homem, perseguem-se e fogem um do outro pelos lugares do mundo. Pouco enredo, poucas peripécias, mas duas personagens densas que dão a este livro o pretexto narrativo. A maior parte do resto são ensaios, sobre lugares, sobre arquitectura, sobre história de arte, sobre história, que se vão desenrolando e cruzando com os destinos das personagens ao longo da larga deambulação que encetam por cidades, ilhas ou continentes. Muito do melhor são reflexões, são dúvidas, são descrições, de lugares imaginados ou imaginários, são debates, internos ou não, são intervenções do autor no passado e no destino das personagens.
Profile Image for Helena.
54 reviews
September 18, 2016
O testemunho final do Paulo Varela Gomes. Estão os seus locais e temas favoritos, da Índia ao Magrebe, a política e a arquitetura. A realidade e a ficção misturam-se entre reviravoltas rocambolescas. Deixa dito e bem claro o que quer que saibamos sobre a nossa história. E de resto, com as personagens e o enredo, brinca.
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