OLGA GONÇALVES nasceu em 12 de Abril de 1929, em Luanda. Frequentou na Universidade de Londres, o King's College e o Queen Elizabeth College. Foi professora de inglês dos funcionários de uma empresa multinacional em Lisboa. Estreou-se com o volume de poesias Movimento (1972), a que se seguiram 25 Composições e Onze Provas de Artista (1973), Só de Amor (1975), Três Poetas (1981) e Caixa Inglesa (1983). Cultivou sobretudo o romance, tendo obtido o Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa com A Floresta de Bremerhaven (1975). Publicou ainda Mandei-lhe Uma Boca (1977), Este Verão o Emigrante Là-Bas(1978), Ora Esguardae (1982, obra finalista do Grande Prémio do Romance e Novela da APE/IPLB e Prémio Mulheres), O Livro de Olotolilisobi (1983), Rudolfo (1985), Sara (1986), Armandina e Luciano, o Traficante de Canários (1988), Contar de Subversão (1990) e Eis Uma História (1992). Traduziu Simone de Beauvoir, A Mulher Destruída (1975) e Benoîte Groult, Assim Seja Ela (1976). Faleceu a 3 de Abril de 2004, em Lisboa.
«Falaria do júbilo, do frenesim, da glória e da coragem do acontecer, mas calo-me. Antes, olhai.»
É-nos ensinado, muito erradamente, que a história é linear, e que o discurso a uma voz (masculina) é suficiente para nos dar a conhecer tudo o que se passou. Olga Gonçalves, todavia, sabia melhor do que isto e, em 1982, vai operar uma revolução na forma de criar literatura que lhe permita recuperar as vozes que a história cala em nome da autoridade exercida pelo homem e sua inteligibilidade.
«Sem termos descansado de havermos sido outros, o País tentava o acesso a si mesmo, Novembro de Setenta e Cinco, vaivém de sombras e de ameaças, de passos inquisidores...»
Ora Esguardae é assim, diria eu, um livro protótipo da revolução literária feminina em Portugal - a par de outros, não por acaso relativamente contemporâneos, como Dia dos Prodígios, ou Cartas Portuguesas, por exemplo - mas que, apesar dos melhores esforços, escapa a todas as classificações de género: não é um romance, não é um ensaio... Aliás, Ora Esguardae não é sequer uma obra ficcional a ser classificada de qualquer forma possível para o género, pois a sua perspectiva histórica, assente na pluralidade - de linguagem, estilo, vozes e percursos - obriga a um reconhecimento desta obra como de cariz puramente subversivo.
«Ah, o texto, o jogo
do escrevedor, e o olho do censor que não via não, e também deixava passar o que pensava que burgo não entendia, e o burgo nem sempre estende é verdade, e a percepção do leitor, o leitor menor que lia os títulos Diário de Notícias às vezes lá no escritório, às vezes a meio da manhã com a bica, às vezes mesmo só para entreter, mas não havia nada que interessasse muito, e o leitor médio que era o que toscava tanto como o censor ou que toscava mais ou menos o mesmo, e era para esse que ele se apurava no corte; e o leitor maior, não era em grande número, e o jogo já nem lhe dava gozo nenhum de tão enfrontado que andava na metaliteratura.»
Em Ora Esguardae, a dificuldade de assimilação, face a outras grandes obras que se lhe possam comparar, advém de, logo desde o início, sermos bombardeados por vozes anónimas que gritam cânticos reacionários, sermos embalados por poemas, sermos transportados para as laudas de história onde recordamos os louvores de outros tempos: "Era uma vez um pequeno condado..."; vivermos hoje, por força destes testemunhos, o mesmo conflito que os portugueses de '74-'80 (sensivelmente): a dificuldade de articular o tempo presente e o tempo passado; a dificuldade de encaixar discursos progressistas e atitudes retrógradas; a dificuldade de processar a frustração das promessas falhadas.
« -Tu não sabes que isto de se sofrer acaba por ser um costume?»
Tudo isto Olga Gonçalves passa em revista - da mocidade portuguesa (a doutrinação), ao colonialismo (a aculturação e a exploração), à cultura doméstica (a submissão feminina) - com o intuito de reconstruir uma identidade perdida no discurso histórico - não mais glorificando o opressor.
«estávamos a crescer, não sabíamos o significado de decadência, e a tónica humana era a da moralidade e do patriotismo a nossa juventude heróica ficou soterrada num valor ideal em que tanto se enjeitou o sensível como o livre alvedrio acatávamos, tocando a defuntos, a peia à imaginação nutrindo outra veemência para o exercício da procura»
A autora não pretende dar voz ao homem branco - a sua obra identifica-se com as mulheres que desejam a independência do homem; com os portugueses "de segunda" que querem o reconhecimento dos seus semelhantes; com os negros que querem recuperar a sua dignidade.
«Negro cuspindo no chão se passa mulato. Branco cafuso fazendo mulato. Negra dormindo na esteira lado da cama bem alta do seu senhor. Lavadeira negra dócil rendida mulher criada de branco. Mulata, vestido de seda, salto na sandália, cristaleira ao canto, filho louro e esbelto, mas ainda cabrito. Raça danada sem santo. Negro, sim, com santo na Igreja. (...) Negro rojado no medo da turva ameaça condição de ser negro. Em terra sua. Ou terra de patrão branco?»
O seu foco salta constantemente entre antagonistas e figuras marginalizadas pela história política: mulheres, mães, povo, retornados, soldados, guerrilheiros; entrecruzando memórias, cartas, estórias, cartazes, grafitti, intervenções políticas, intrigas, conversas anónimas, medos sussurrados, comentários banais, governos em derrocada, promessas que não se cumprem, pregões de vendedeiras, confissões dolorosas...
«O nosso filho! Onde dormirá a sua face gelada? Mandarem no assim para uma guerra que era o quê? Que sabia ele disso? E nós, que sabíamos? Assim nos pediam os filhos! Pediam-nos, não!, obrigavan-nos a dar o corpo dos filhos para defender o que ninguém tinha visto.»
Na sua forma Ora Esguardae é completamente inovador e disruptivo, perfeitamente filho do seu tempo - e, porque escrito fragmento a fragmento, é um desafio tremendo para o leitor menos cauto pois que nos dá uma Olga Gonçalves fraturante, mordaz, ácida - a Olga Gonçalves 2.0 - a narradora/autora silenciosa, que escuta, regista, mas não interage, não interfere, não marca a sua presença, que se esconde, e se anula para devolver a voz aos que dela necessitam.
«Há-os com galardões, um camarada ganhou a Medalha de Guerra de 3° Classe, ganhou-a atrás de uma árvore, a ver passar a banda!, um que, tão assustado, tão quieto dentro de si, arfante perante a guerra, no final do espectáculo sai do esconderijo a pensar: acabou a bernarda!, aliviado, e dá com dois negros atrasados no cortejo. Pum! Pum!, era uma vez dois guerrilheiros distraídos!, e lá teve de se aperaltar e ir ao Terreiro do Paço, feito herói, no dia 10 de Junho, para ser condecorado. Era o Dia da Raça. Mais uma vez afirmada a supremacia branco.»
Olga Gonçalves é, dentre muitos escritores que vejo abordar o tema, a voz mais límpida e experimental do pós-25 de abril e, sobretudo, da narrativa histórica feminina do pós-25 de abril.
«A sopa dos pobres já vinha do tempo do Sidonismo, e o Salazar acabou-lhe com os dias por uma questão de fachada. Pela mesma razão por que o Governo Civil ordenou às varinas que não andassem de pé descalço. Já se passeava por aqui o turista. E o pé da varina sem chinela, não seria propaganda benéfica para o país.»
É tão brilhante quanto exigente este seu texto que começa por se identificar com a obra de Fernão Lopes (e o cerco de Lisboa: a crónica; o registo histórico inalterável, a luta das potências dominantes, o sacrifício dos insignificantes e a dignificação dos heróis) e termina citando Eugénio de Andrade (leia-se aqui o que se entender...).
«Cai, como antigamente, das estrelas um frio que se espalha na cidade. Não é noite nem dia, é o tempo ardente da memória das coisas sem idade. (...) Amanhece. (...) Eu falo do jardim onde começa um dia claro»
Este romance pode ser descrito como um mosaico de frases, diálogos, momentos narrativos, observações e palavras de ordem captados por um hipotético cronista (o título é uma citação de Fernão Lopes) que tivesse deambulado por Portugal e pelo Ultramar, no 25 de Abril e período subsequente. O resultado de um hipotético exercício de captação aleatória dos sons da Revolução teria, inevitavelmente, um interesse muito limitado, e a autora tem a sensatez de evitar essa armadilha. "Ora Esguardae" é um elogio da atenção, mas que não ignora a necessidade de uma estrutura, sem a qual tudo soçobra em coisa pastosa e amorfa. O maior feito do livro é oferecer um inteligente casamento entre sincronia e diacronia, um breve mas intenso retrato que recorta os diferentes estratos, lugares e cambiantes de ansiedade e esperança que coexistiram, em equilíbrio precaríssimo, durante esses dois ou três anos.
Talvez o pior livro que já li. sem fio condutor; sem uma história perceptível. Coisas desgarradas e sem nexo o ambiente é vagamente o pós 25 de abril com incursões aparentemente a África muitas vezes discurso em primeira pessoa, mas não se percebe se é a autora ou uma personagem que fala. enfim, um sacrifício.