Dois anos depois de terminar a Primeira Grande Guerra, Aquilino revisitou a Alemanha (país em que vivera por uns meses em 1912, em Berlim e em Parchin, e em que casara, em 1913, com Grete Tiedemann, de Meclemburgo, que conhecera na Sorbonne). Dessa viagem deixou um diário, mais tarde publicado sob o título de Alemanha Ensanguentada (1935). Neste texto, são visíveis as contradições e as hesitações num país saído de uma guerra havia dois anos, com difícil aceitação do acordado em Versalhes, assim como se evidencia a capacidade de perscrutar o ser humano, que Aquilino detinha, num exercício de leitura de rostos, de gestos, de tempos.
Aquilino Gomes Ribeiro was a Portuguese writer and diplomat. He is considered as one of the great Portuguese novelists of the 20th century. He was nominated for the Nobel Literature Prize in 1960.
Natural son of Joaquim Francisco Ribeiro, a priest, and Mariana do Rosário Gomes, he had three older siblings: Maria do Rosário, Melchior and Joaquim. Destinated to priesthood, Aquilino Ribeiro got involved in republican politics, opposing the Portuguese monarchy, and had to exile himself in Paris; he returned to Portugal in 1914, after the Republican Revolution of 1910.
He was involved in the opposition to António de Oliveira Salazar and the Estado Novo, whose government tried to censor or ban several of his books.
He married twice, firstly in 1913 to German Grete Tiedemann (ca. 1890-1927), by whom he had a son Aníbal Aquilino Fritz Tiedeman Ribeiro in 1914, and secondly in Paris in 1929 to Jerónima Dantas Machado, daughter of the deposed President of Portugal Bernardino Machado, by whom he had a son Aquilino Ribeiro Machado, born in Paris in 1930, who became the 60th Mayor of Lisbon (1977–1979).
Alemanha Ensanguentada (Bloody Germany) refers to two distinct periods: the year 1920, when he returns to Berlin and finds a city resentful of the peace of Versailles ("the kind German, eager for his neighbor, who spoke all the living and dead languages ..." disappeared... ), and a tour of the French battlefields, section dated 1928. In Berlin, he feels uncomfortable with the disdain that surrounds him. On the other side of the border, where the armies clashed, she reflects on facts and circumstances: "It was not in vain that [Artois] passed through here and gave laws to the Iberian genius, refractory to modernities." In short, a document for history.
Uma perspetiva muitíssimo interessante de um português que conhecia bem a Alemanha antes da Primeira Guerra Mundial. A Alemanha que Aquilino reencontra em 1920 é um país desfeito, revoltado e assustadoramente preparado e expectante com o que virá a seguir.
Uma visita de Aquilino à Alemanha no pós-guerra imediato, que é ao mesmo tempo literatura de viagem, reflexão sobre a sociedade de um país, e um analisar de uma história contemporânea ainda fresca nas memórias. Por pós guerra entenda-se o pós-I guerra, com a derrocada da monarquia alemã, as exigências impossíveis dos aliados vencedores e vingativos, e as convulsões sociais e políticas de um país derrotado. Não se trata do mítico ano zero do pós-II guerra, com um país em escombros e arrasado a ter de enfrentar os horrores que provocou.
Aquilino era arguto, e na análise que faz do país que revisita observa por várias vezes que o gérmen de uma futura guerra e da liderança de homens fortes está presente no pós-guerra que visita. Anota as privações de um povo, as convulsões políticas, a humilhação da derrota e a perda de caráter moral, mas também sublinha a industriosidade alemã, e a sua capacidade de recuperação. O olhar do escritor português atravessa cidades e regiões, faz-se de conversas e interações com gente de todos os níveis.
O livro termina com uma visita a algumas zonas de batalha, com especial emoção nas zonas da frente ocidental onde o CEP verteu sangue pelas terras de França e Aragança (uma daquelas deliciosas expressões hoje esquecidas que o escritor tanto usa na sua obra). A visão de Aquilino sobre a participação portuguesa na guerra é realista e crítica, embora se note um certo elogio da entrada na guerra e a observação da sua inevitabilidade face à defesa das colónias, embora observe que a perda de vidas humanas e os gastos militares não compensam "uns palmares no além mar".
Gostei muito do livro. Um diário de viagens pela Alemanha logo a seguir ao fim da primeira guerra. Um relato difícil de um Alemanha literalmente no chão. Consegue-se compreender como a seguir a Alemanha elege um líder com enorme capacidade mobilizadora.
Já há muito tempo que não tinha tanta dificuldade em ler um livro - não porque o tema não me interessava, mas porque o autor usa uma linguagem bastante rebuscada para os padrões de hoje, e que quase nos faz querer ter um dicionário à mão, para ver o que significa esta palavra ou aquela expressão. Por um lado, é um bom desafio, ajudando o leitor a enriquecer o seu vocabulário e a sua cultura, mas por outro, obriga a "saltar" da leitura, provocando alguma distracção. Conhecendo a Alemanha dos dias de hoje, é interessante ter alguns vislumbres da Alemanha do antigamente, especialmente tendo em conta o que seguiu em termos históricos.