No seu mais recente livro de poesia Filipa Leal fala-nos, com uma voz muito própria, de problemas e sobressaltos, dos dramas da sua geração mas também dos tumultos por que passaram as anteriores. «Havemos de ir ao futuro e, no futuro, estará finalmente tudo como dantes.» Desfia memórias e cartografa emoções, porque afinal «[…] buscamos no quotidiano uma estrada onde se repita o amor e a casa de algum Verão.»
Filipa Leal é uma das minhas poetisas portuguesas de eleição, por isso, já sabia que ia deleitar-me com muitos poemas. Foi bom reencontrar um dos meus preferidos, “Havemos de ir a Viana”, e descobrir outros, como “Livraria Sá da Costa”, “Manual de Despedida para Mulheres Sensíveis”, “O Quadro do Futuro”, “Nocturno para Varsóvia” e “Vem à Quinta-Feira”, claro. Destaco o tríptico “Bissorã 1970-72” e a homenagem pungente a Herberto Helder, em “Os meus primeiros passos em volta”, mas copio apenas “Porto Sentido”, que também senti centenas de quilómetros mais abaixo.
PORTO SENTIDO
É difícil ter estado contente aos dezassete ou aos vinte e sete. É difícil ter bebido finos, ter comido tremoços e, com cinquenta ou cem escudos, ter escolhido a música na jukebox da Ribeira: aquela canção do Rui Veloso no repeat, os amigos cansados do meu lado obsessivo, deste meu lado A, a senhora do avental sujo que dizia sai mais uma chouriça, ou talvez nem o dissesse, talvez não houvesse senhora de avental sujo, talvez a memória tenha gente a mais. Seja como for, é difícil que agora nenhum de nós lá esteja a ouvir música e a assar chouriços. Eu avisei. Mas eles insistiram em mudar
Uma reflexão/mensagem sobre o Portugal da geração da autora, mas também das anteriores: inquietas, solitárias, espantadas, atrevidas com ânsia do futuro:
«Havemos de ir ao futuro e, quando lá chegarmos, hão-de estar no sofá os nossos pais a cuidar dos sonhos que nos deram, (…) Havemos de ir ao futuro e, no futuro, estará finalmente tudo como dantes.»
Filipa Leal rouba o título à última quadra do poema «Caranguejola» de Mário de Sá-Carneiro. Sente-se uma urgência. Falta cumprir Portugal.
«Temos ainda tanto para fazer. Por isso, se algum dia voltares, meu amor, volta numa quinta.»
Gostei particularmente do final de um poema sobre a emigração, MANUAL DE DESPEDIDA PARA MULHERES SENSÍVEIS:
«É tanto o que se pede a um ser humano no século vinte e um. Que morra de medo e de saudade no aeroporto Francisco Sá Carneiro. Mas que não chore.»
"PARA APRENDER A CHORAR Juntaram no jantar de escritores um crítico literário, um poeta zen, uma poetisa dada à música contemporânea, uma produtora de espectáculos de fusão, e eu.
Eu era, naturalmente, a mais alta representante da poesia lamechas. Eu era a da voz grossa, a que lia poemas deles pelas esquinas da cidade. Eu era a que fazia pausas para o cigarro, a que não tinha companhia para tanto mar, tanto frio, tantas interrupções de medo e nicotina.
Talvez alguém tenha falado de tristeza. É um tema que me interessa.
Eu não sei chorar, disse. Nunca aprendi a chorar. Aflijo-me. Fico com falta de ar. Quero chorar muito mas acabo por chorar pouco porque tenho medo de me engasgar e morrer.
Oh, riso geral. Esta poeta lamechas é tão engraçada, tão dada à auto-ironia, tão menos lamechas do que nós pensávamos.
Nessa noite, chorei muito."
✤✤✤✤✤✤
"A RECUSA DO AMOR Não temos uma arma apontada à cabeça, dizias-me. Mas era impossível que não visses, impossível. Eu ao teu lado com aquela dor no pescoço, imóvel, cuidadosa, o cano frio na minha testa, a vida a estoirar-me a qualquer momento. Era impossível que não visses o revólver que levava sempre comigo. Por isso dormia virada para o outro lado, não era por me dar mais jeito aquele lado, era por me dar mais jeito não morrer quando nos víamos, era para dormir contigo só mais esta vez, sempre só mais esta vez, sempre com o meu amor a virar-se de costas, sempre com o teu amor apontado à cabeça."
Não percebo nada de poesia, mas percebo em mim quando aquilo que leio, seja em prosa ou em verso, me toca a alma e o coração. Não consigo explicar porquê, mas bateu forte cá dentro, alguns textos, poemas, mais do que outros. Uns li e só gostei, outros li e amei, e é por estes últimos que quero ler mais da Filipa, quero ser invadida por mais sensações e sentimentos. Não sou entendida nestas coisas da poesia, mas entendo e aceito com agrado o que me fazem alguns versos... Tenho dito...
A poesia tem demasiados segredos para que qualquer um se atreva a arriscar exprimir-se através da sua música... é honesta, é bela, é profunda e é simples. Mas tudo isto é tão dificil de alcançar quanto mais de congregar numa mesma vida, relação, obra... "Vem à Quinta-feira" é um livro que junta textos tão bonitos e sinceros que é dificil não nos revermos em algum deles. E contudo, o que a autora Filipa Leal conseguiu é dificil: chegar ao leitor de uma forma intimista e ao mesmo tempo universal. Li-o numa tarde nos Aliados enquanto esperava pela boleia que me traria de volta a Lisboa. Releio um ou outro poema amiúde e descubro sempre algo. Escrever muito sobre uma obra poética é estragá-la porque a experiência da poesia, para entendidos ou leigos (como é o meu caso) é demasiado pessoal para poluir com considerações que serão, quase sempre, excessivas. Por isso, para sentir algo diferente, bom mesmo é ler o livro.
" - Havemos de ir juntos ao futuro ou se não houver boleia para todos ao mesmo tempo havemos de nos encontrar lá Havemos de ir ao futuro e, no futuro, estará finalmente tudo, como dantes - "
Demorei-me o máximo de tempo possível neste livro tendo em conta a vontade que tinha de o ler. No fim, acabei por o ler numa tarde, entre uma viagem de comboio e uma breve paragem no jardim que fica a caminho de casa. Quando o terminei, fiquei com a sensação que só um bom livro nos consegue dar (e, em especial, os de poesia), de ter feito um amigo novo - um que sempre existiu dentro de mim e eu apenas ainda não o tinha descoberto; porque, afinal, "andamos todos à procura uns dos outros dentro e fora de quem somos", e nas palavras da Filipa sinto que encontrei um pedaço daquilo que sou. No fundo, "apenas o contrário de um analfabeto".
"Não temos uma arma apontada à cabeça, dizias-me. Mas era impossível que não visses, impossível. Eu ao teu lado com aquela dor no pescoço, imóvel, cuidadosa, o cano frio na minha testa, a vida a estoirar-me a qualquer momento. Era impossível que não visses o revólver que levava sempre comigo. Por isso dormia virada para o outro lado, não era por me dar mais jeito aquele lado, era por me dar mais jeito não morrer quando nos víamos, era para dormir contigo só mais esta vez, sempre só mais esta vez, sempre com o meu amor a virar-se de costas, sempre com o teu amor apontado à cabeça."
A Recusa do Amor
***
Esta segunda experiência correu melhor: entre o "Fósforos e Metal sobre Imitação de Ser Humano" e este livro, aconselharia sempre o segundo a quem quisesse ler alguma coisa da Filipa Leal. Percebo melhor a forma como o seu humor me agrada, com ou menos sarcasmo e cinismo, por vezes com um humor auto-depreciativo (algo que adoro, e que vejo bem patente no poema "Para Aprender a Chorar")... mas, depois, é incrível como passa desse registo para um tom grave. O poema que seleccionei, por exemplo, é de uma violência incrível... não dá para sorrir, não dá para rir, é o peso da ameaça constante que só um amor condenado pode exercer sobre nós. Eu, até há poucos dias, tive esta arma carregada e apontada à cabeça; quando li este poema, compreendi exactamente de onde vieram os sentimentos que deram origem às palavras. É sublime, o livro merece ser lido e relido, nem que seja só por causa deste poema.
Não o quis assim, mas durou-me menos de uma hora. Li-o quase como se "tivessemos uma arma apontada à cabeça": nem as páginas de bordas azuis tiveram tempo de acumular marcas dos dedos.
Fiquei ligeiramente desiludida. Certamente responsabilidade minha (como sempre acontece a quem cria expectativas).
Não há nada de errado com esta seleção de poemas. Alguns pareceram-me muito bonitos (e românticos/ melancólicos/ nostálgicos) mas a maior parte não me disse grande coisa.
“Porque mesmo com quatro ou vinte auto-estradas continuamos a ter o caminho para o tanque onde mergulhávamos na infância. Porque andamos todos à procura uns dos outros dentro e fora de quem somos e parece que nos desencontramos, que paramos na estação de serviço errada, a 10 km, sempre a olharmos para o relógio, a 10 km, na direcção uns dos outros, a 10 km mas na estação de serviço errada. Porque o limite do corpo é o desenho do mapa e às vezes apetece rasgar, omitir, estender a fronteira, mas para isso há a guerra, porque imediatamente fora desse limite há outros e outros países invadidos por nós. Porque no fundo desejamos apenas ser conquistados.”
"Vem à quinta-feira. É quase fim de semana e podemos, talvez, beber uma cerveja ao cair da tarde, enquanto planeamos a viagem a Paris. E se Paris for muito caro — sei que isso não está fácil — podemos ir a Guimarães assistir um concerto, que ouvir é a maneira mais pura de calar.
Vem à quinta-feira.
A seguir, temos ainda a sexta e talvez me esperes à porta do emprego, e talvez fiques para sábado e domingo, e talvez o mundo pare de acabar tão depressa.
Vem à quinta-feira. Mas não venhas nesta, vem na próxima. Nesta, tenho um compromisso que não posso adiar, é um compromisso profissional — sabes que isto não está fácil — e talvez nos dê hipótese de irmos a Paris ou Guimarães. Vem na próxima, que eu preciso de tempo para arranjar o cabelo, para arranjar o coração, para elaborar a lista de que me falta fazer contigo.
Vem à quinta-feira e não te demores. Enquanto te escrevo, já fui elaborando a lista (sabes como gosto de pensar em tudo ao mesmo tempo) e afinal o eu me falta fazer contigo não é caro: — viajar de autocarava, — dançar na Estrada Nacional, — ver-te chorar. Choras tão pouco. Ainda bem que estás contente.
Vem à quinta-feira.
Se não pudermos ir a Paris ou a Guimarães, não te preocupes. Vem na mesma, que eu vou apanhando as canas-da-índia, as fiteiras, eu vou recolhendo a palha e reunindo cordas e lona. Já estive a aprender no Youtube como se faz uma cabana. Vem na mesma, que eu vou procurando um lugar seguro. Vem na mesma porque a cabana, como a casa, só funciona com amor — ou pelo menos, é o que diz o Youtube.
Temos ainda tanto que fazer. Por isso, se alguma dia voltares, meu amor, volta numa quinta."
Conheci a Filipa Leal através de Rui Spranger, na última sessão (antes da pandemia) de partilha de poesia do Pinguim, um café no centro do Porto que reúne amantes da Literatura numa cave, todas as segundas feiras. Entre copos de vinho e boa música, conheci a Filipa e fiquei deliciada. O livro não desiludiu.
[...] "O luto em Lisboa ou no Porto, o luto em Israel ou na Palestina, o luto é igual, deve ser igual, na tua rua e na minha. Ouve, Herberto: era Dia Mundial da Poesia. Eu tinha ido ao cabeleireiro. Vesti-me de preto e calcei aqueles sapatos de tacão alto. Eu ia de cabelo esticado. Eu ia maquilhada e feliz. Ia de preto mas ia-me esquecendo da morte. (Aos 33 anos, eu ia imortal.) Quando o telefone tocou, como nos filmes, disseram-me que era urgente. Estava a vinte minutos de subir ao palco com o meu poema, mas era urgente. Estava a vinte minutos do fim da minha juventude, porque era urgente. O luto, Herberto. Tão urgente que só pode ser mentira, ou ficção, ou poesia. Todos tão vivos naquele dia. E ninguém há-de morrer se levamos sapatos de tacão. Não é possível tanta inabilidade para a corrida. Não é possível tanta falta de Mãe." [...]
Se é difícil classicar romances, ainda mais difícil é classificar livros de poesia. Houve uns quantos poemas que adorei e outros que não me disseram muito.
Os que me vão ficar no ❤️ - Vem à Quinta-feira - Estátua da Liberdade - Manual de despedida para mulheres sensíveis - O quadro do futuro
Com o Porto muito presente, tenho a dizer que tentei lê-lo devagarinho, aproveitá-lo como aproveitamos cada raio de sol quando saímos para passear pela cidade. Adorei a escrita da Filipa — da simplicidade à maneira tão bonita como nos consegue incluir nas suas memórias, que também parecem nossas.
nunca pensei que fosse possível ficar sem ar na voz mental. a pontuação escolhida é realmente a dos amores de bancos barrocos, tal qual a ansiedade das trocas de olhar. tanta timidez, tanta melancolia, tanta paixão.
(chorei)
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"Fazia-me bem atirar-me à vida de cinto desapertado e saias largas. Fazia-me bem uma flor na cabeça e um ginger ale com muito gelo." -Amália e um Carrossel
Filipa funde espanto, sensibilidade, acidez e uma vulnerabilidade inesperada – que é quase o doce no final do café amargo, um puxar de lençol que nos desperta, quando estamos mais desprevenidos embalados em seus versos. Seu olhar capta o singular das pessoas, conversas, ruas, tempos - tudo aquilo que reconhecemos mas não somos capazes de ver, na correria da cidade e sem uma lente apurada, fora dessas páginas. Juntos, os poemas nos trazem à boca do estômago a sensação de se ter 30 e poucos anos num país tão cheio de passado e História, que oferece um futuro tão frágil incerto e instável a toda uma geração. Há beleza nesse olhar, há ternura, há amor pela terra – tanto quanto há descrença e frustração por viver numa corda bamba tão diferente do que dávamos por garantido na universidade, na escola. É de se admirar a habilidade com que Filipa costura seus versos de forma a tocar o leitor, embalá-lo, e surpreendê-lo subitamente numa única linha, numa única palavra, despertando- nos de um torpor em que nem sabíamos que estávamos. É de admirar e ler e reler. A edição da Assírio & Alvim (Porto agora, certo?) é de uma simplicidade, delicadeza e elegância que sempre fez parte da marca da editora, agora, se não me engano, um selo. (não sou promoter da Assírio e nem conheço a Filipa. Apenas leiam)
Un libro extraordinario, tanto por su contenido como por su calidad editorial (que hay que agradecer a la excelente casa Assírio & Alvim). Disfruté mucho este libro de poemas de Filipa Leal, que en cada página me iluminó con sus imágenes, con su poesía cálida y próxima. Aluciné con este libro y de allí que deseara traducir alguno de sus poemas, como en efecto lo hice, habiendo publicado ya en mi blog una de esas traducciones. De los mejores libros que he leído este año y que doy gracias a la vida que haya podido llegar a mis manos. Más que recomendado, una lectura esencial este año para quienes disfrutamos la poesía escrita en el idioma de Pessoa.
"É quase fim-de-semana e podemos, talvez, beber uma cerveja ao cair da tarde, enquanto planeamos a viagem a Paris. E se Paris for muito caro - sei que isto não está fácil - podemos ir a Guimarães assistir a um concerto, que ouvir é a maneira mais pura de calar. (...) Temos ainda tanto para fazer. Por isso, se algum dia voltares, meu amor, volta numa quinta."
Uma lufada de compreensão do mundo no século XXI. Porque afinal sentimos tantas coisas semelhantes, há tantas situações mais comuns do que imaginávamos. Uma escrita leve, reflexiva, certeira.