Publicado originalmente em 1937, este livro revelou um cronista que até hoje corria o risco de ficar escondido na sombra do grande poeta que se firmara desde pelo menos a publicação de 'Libertinagem' (1931). Ainda hoje, essas 47 crônicas surpreendem - mais que um saboroso livro de prosa, os textos compõem um retrato muito agudo da modernização da sociedade brasileira da primeira metade do século XX. O livro impressiona tanto pela diversidade quanto pela unidade de tom que o autor buscou para retratar o que ele chama de 'província do Brasil'. Os diversos tipos de crônica mostram os contornos maleáveis do gênero - desde um estilo que se aproxima do ensaio erudito até a 'conversa fiada literária', meio lírica, meio anedótica, já antecipando o estilo que acabou por marcar a obra dos grandes cronistas do país. Mesmo com tamanha diversidade - arquitetura, artes, cultura popular, personalidades - o livro mantém a unidade no conjunto, justamente pela prosa coloquial e corretíssima de Bandeira.
Na segunda edição, de 2006, com 1ª reimpressão em 2008, consta: "A primeira tiragem desta edição teve três versões diferentes de capas e guardas." Esta é a capa 1.
Manuel Bandeira (April 19, 1886 – October 13, 1968) was a Brazilian poet, literary critic, and translator, who wrote over 20 books of poetry and prose. ~ Manuel Bandeira foi desenganado pelos médicos por causa de uma tuberculose, aos dezenove anos de idade. O que provou ser um engano: ele viveu até os 82. Toda a sua poesia tem esse sentimento, em suas palavras, de "Toda uma vida que poderia ter sido e não foi".
Ele foi um dos poetas nacionais mais admirados, inspirando, até hoje, desde novos escritores a compositores. Aliás, o "ritmo bandeiriano" merece estudos aprofundados de ensaístas. Por vezes inspira escritores não só em razão de sua temática, mas também devido ao estilo sóbrio de escrever.
Manuel Bandeira possui um estilo simples e direto, embora não compartilhe da dureza de poetas como João Cabral de Melo Neto, também pernambucano. Aliás, numa análise entre as obras de Bandeira e João Cabral, vê-se que este, ao contrário daquele, visa a purgar de sua obra o lirismo. Bandeira foi o mais lírico dos poetas. Aborda temáticas cotidianas e universais, às vezes com uma abordagem de "poema-piada", lidando com formas e inspiração que a tradição acadêmica considera vulgares. Mesmo assim, conhecedor da Literatura, utilizou-se, em temas cotidianos, de formas colhidas nas tradições clássicas e medievais. Em sua obra de estréia (e de curtíssima tiragem) estão composições poéticas rígidas, sonetos em rimas ricas e métrica perfeita, na mesma linha onde, em seus textos posteriores, encontramos composições como o rondó e trovas.
É comum criar poemas (como o Poética, parte de Libertinagem) que se transforma quase que em um manifesto da poesia moderna. No entanto, suas origens estão na poesia parnasiana. Foi convidado a participar da Semana de arte moderna de 1922, embora não tenha comparecido, deixou um poema seu (Os Sapos) para ser lido no evento.
Uma certa melancolia, associada a um sentimento de angústia, permeia sua obra, em que procura uma forma de sentir a alegria de viver. Doente dos pulmões, Bandeira sofria de tuberculose e sabia dos riscos que corria diariamente, e a perspectiva de deixar de existir a qualquer momento é uma constante na sua obra.
A imagem de bom homem, terno e em parte amistoso que Bandeira aceitou adotar no final de sua vida tende a produzir enganos: sua poesia, longe de ser uma pequena canção terna de melancolia, está inscrita em um drama que conjuga sua história pessoal e o conflito estilístico vivido pelos poetas de sua época. Cinza das Horas apresenta a grande tese: a mágoa, a melancolia, o ressentimento enquadrados pelo estilo mórbido do simbolismo tardio. Carnaval, que virá logo após, abre com o imprevisível: a evocação báquica e, em alguns momentos, satânica do carnaval, mas termina em plena melancolia. Essa hesitação entre o júbilo e a dor articular-se-á nas mais diversas dimensões figurativas. Se em Ritmo Dissoluto, seu terceiro livro, a felicidade aparece em poemas como "Vou embora para Pasárgada", onde é questão a evocação sonhadora de um país imaginário, o pays de cocagne, onde todo desejo, principalmente erótico, é satisfeito, não se trata senão de um alhures intangível, de um locus amenus espiritual. Em Bandeira, o objeto de anseio restará envolto em névoas e fora do alcance. Lançando mão do tropo português da “saudade”, poemas como Pasárgada e tantos outros encontram um símile na nostálgica rememoração bandeiriana da infância, da vida de rua, do mundo cotidiano das provincianas cidades brasileiras do início do século. O inapreensível é também o feminino e o erótico. Dividido entre uma idealidade simpática às uniões diáfanas e platônicas e uma carnalidade voluptuosa, Manuel Bandeira é, em muitos de seus poemas, um poeta da culpa. O prazer não se encontra ali na satisfação do desejo, mas na excitação da algolagnia do abandono e da perda. Em Ritmo Dissoluto, o erotismo, tão mórbido nos dois primeiros livros, torna-se anseio maravilhado de dissolução no elemento líquido marítimo, como
Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho, lembro me de ter gostado de Manuel ao ler seus poemas doloridos e sempre cheios de um ar mórbido. E segui gostando do poeta Manuel, dia desses queria revê-lo e recorri a @livraria_simples e tive a indicação sempre afiada do Beto e então trouxe pra cada dois livros da coleção Cosacnaify de crônicas. Que grata surpresa! Me deparei com o cronista Manuel e embarquei numa viagem incrível. Publicado originalmente em 1937, devorei esse primeiro Crônicas da província do Brasil, um livro que se compõe de um vasto retrato da modernização da sociedade brasileira lá na primeira metade do século XX. Um verdadeiro passaporte para além tempo, pra mim um encontro com um Manuel além de Os sapos. .
Alguns contos, como o que retrata a vida do Aleijadinho, são bem construídos e nos aproxima de uma época quando o Brasil, em terras mineiras, cariocas, baianas, tinha patente a formação cultural, histórica. Algumas personalidades do samba, contadas em episódios peculiares, artistas e poetas em notas pela ótica de um observador eloquente que, segundo ele próprio, elaborava textos às pressas para um jornal. Uma descrição morna, próxima, descompromissada de nossa formação histórica.