«O que arde também cura. Quando, neste livro, nos deparamos com relâmpagos, brasas e incêndios, detectamos igualmente uma ideia de restabelecimento ou terapia, que se parece, aliás, com o seu avesso: uma doença febril, convulsiva, violenta. Os poemas de Cláudia R. Sampaio são disfóricos mas reactivos, respondem ao mundo e aos ataques do mundo, muitos deles sujos, asquerosos. Esse imaginário quase-abjeccionista não é uma pose, uma auto-indulgência, é a convicção de que, apesar de estarem "acima das condições atmosféricas", os poemas têm cabeça e têm corpo, ambos amotinados, complicados. Anotações citadinas confirmam então que os outros talvez sejam mesmo o inferno; elegias domésticas transformam os pais em criaturas mitológicas, terríficas; e poemas de perda e desejo combinam imagens agressivas e anáforas surreais-românticas. "Ver no Escuro" é uma sequência sobre o facto de estarmos vivos, ou antes, sobre a consciência e "infra-consciência" desse facto. Consciência que é um desassossego pessoano, uma exasperação tenebrosa, uma "melancolia aflita".» —P.M.
Cláudia R. Sampaio é uma poeta e artista plástica nascida em Lisboa (1981). Estudou escrita de argumento na escola Superior de Teatro e Cinema, escreveu para cinema, televisão e teatro. Publicou os livros de poesia: Os dias da Corja, A primeira urina da manhã, Ver no escuro, 1025mg, Outro nome para a solidão, a antologia Já não me deito em pose de morrer e Uma mulher aparentemente viva. Está também publicada no Brasil com a trilogia Inteira como um coice do Universo (Edições Macondo). Tem desenvolvido, em parceria, um trabalho musical a partir dos seus poemas e já integrou vários grupos como diseuse. Em 2019 juntou-se ao colectivo artístico MANICÓMIO. No âmbito do trabalho desenvolvido neste projeto, integrou em Janeiro de 2020 a primeira delegação portuguesa a ser convidada pela Outsider Art Fair, a maior feira de arte informal do mundo, em Nova Iorque, para expor a sua obra. Vive em Lisboa com as suas duas gatas: Polly Jean e Aurora.
Tragam-me um homem que me levante com os olhos que em mim deposite o fim da tragédia com a graça de um balão acabado de encher tragam-me um homem que venha em baldes, solto e líquido para se misturar em mim com a fé nupcial de rapaz prometido a despir-se leve, leve, um principiante de pássaro tragam-me um homem que me ame em círculos que me ame em medos, que me ame em risos que me ame em autocarros de roda no precipício e me devolva as olheiras em gratidão de estarmos vivos um homem homem, um homem criança um homem mulher um homem florido de noites nos cabelos um homem aquático em lume e inteiro um homem casa, um homem inverno um homem com boca de crepúsculo inclinado de coração prefácio à espera de ser escrito tragam-me um homem que me queira em mim que eu erga em hemisférios e espalhe e cante um homem mundo onde me possa perder e que dedo a dedo me tire as farpas dos olhos atirando-me à ilusão de sermos duas novíssimas nuvens em pé.
Cheguei a Cláudia R. Sampaio com muitas expectativas porque me foi efusivamente recomendada, como tal, fico feliz por poder pô-la ao lado da Filipa Leal, da Golgona Anghel, da Inês Dias e da Adília Lopes, as poetisas cujos livros compro sem hesitar. Não tenho muito a dizer, porque os poemas que aqui coloco são bastante autoexplicativos. “Ver no escuro” está recheado de poemas intensos e doloridos, que dei por mim a ler em tensão, a antecipar o verso seguinte, na esperança de que o encadeamento de imagens me continuasse a surpreender.
Quando for embora não deixarei migalha de mim. Levarei o cheiro a desorientada melancolia e desastre e não deixarei um cabelo que seja. Levarei comigo as gatas e os livros, a roupa deixo-a às minhas amigas, o umbigo, à minha mãe.
Vou e não esqueço.
Partirei sem as orquídeas que me assombram delicadeza e sem os cactos que me superam em estirpe. Vou aberta como um eterno retorno e na simplicidade de um bebé que procura um sítio onde se sentar.
Aqui há a desactivação das almas à nascença e a ovação aos tristes. Há a exultação do silêncio profundo e a altivez congratulada dos néscios. Há o sangue cansado dos bichos e a preparação para a fuga da terra. Aqui há a terra sem terra e a saliência do teu ombro morto.
Há orelhas frias que soluçam tarde e uma cova a dizer adeus.
Por isso vou embora no sentido inverso ao das árvores numa descida clandestina à mulher que morreu em ondas. Vou embora e deixo o meu vinco que não morre mesmo que me passem com alcatrão fresco e me estiquem.
Deixo apenas a verdade dos meus olhos quando pendurados na janela, a sorrir mundos deixo as abelhinhas doidas que ignoraram o meu salto, e o riso da desistência porque ainda preciso de mim.
É isto que eu amo nos livros: um livro leva-nos a outro livro que nos leva a outro livro...e por aí fora. Esta autora surgiu num outro livro e gostei do pouco que li. "Ver no escuro" foi uma pequena surpresa. Encantou-me.
Uma vez quiseram-me louca, a arder e eu ardi com a discrição de um fogo posto porque a cura vai na mesma direcção que a nossa febre
Ateei-me como um relâmpago inesperado à luz do dia Eu parecia uma basílica em chamas de altar por estrear, a arder sozinha
Sempre me recusei a arder como os outros
Ardam-se mais à esquerda ou mais à direita mais a vento de sul ou de norte, mas labaredem-se, sejam fogos que ardem!
Porque pior que a desdita loucura é toda a gente andar em brasa mas ninguém chegar a incêndio
E no fim são todos cinza
*
É agora, que te foste embora, o momento em que nos conhecemos melhor. É agora, entre este espaço vazio que vai da minha boca à tua, que está toda a verdade desembocada em glória. Aqui estou eu sentada a perder-te. Aqui estou eu a ser-nos aos dois enquanto ainda é de noite, a adiar que seja amanhã quando vou rebentar como as lâmpadas. Aqui estou eu a escrever enquanto não encontro o meu corpo que foi contigo atirado ao teu ombro em casaco pesado sem etiqueta por favor não engomes.
Depois não seremos mais nada para além deste lamber de chão. Seremos apenas passado recente, passado passado, passado passadíssimo uma folga chata que ficou mal esticada. Depois não haverá o teu rasto entre as portas, nem o eco do teu cheiro, nem o teu estremecimento nocturno que era também o meu.
E eu tenho tanta pena de estar aqui a perder-te porque o meu amor não morre quando quero o meu amor é Jesus ressuscitado a cada prego de tão novo como uma metáfora atinado como um rebanho quente erguido em dedos longos, desdobrado.
E agora sou uma esponja e encolho porque ainda estamos a reduzir-nos em violentíssimo eco Adeus, eus, eus
Mas amanhã não. Amanhã não haverá retorno nem cola que nos junte as vidas porque o amor é agora, neste preciso instante em que levam o lixo, em que a minha cara encolhe e se enruga em sal, em que sou feia, em que não estás.
O amor é agora, mesmo quando somos as palavras esmagadas contra os vidros e a violência lindíssima de dois corpos mirrados de costas voltadas.
Amanhã não. Amanhã celebro em brados cegos o futuro calmo da secura de um rio.
*
Passei todo aquele poema a viver. Lambi as palavras desde a folha ao início de mim, palavras presas na curva dos olhos por onde desceu depois um verbo.
Vivi repetidamente.
E dentro desta anáfora descobri que um momento nunca é igual a outro. Como um poema. Como eu, que nunca sou igual a mim própria. Às vezes sou eu sem ser. Às vezes morro erguida para que me desfiem e vistam.
Nunca fui pessoa de poesia, e não digo que este livro me tenha tornado uma amante da mesma, mas foi um passo nessa direção. No momento em que se entra no ritmo, é um livro muito apaixonante.
"Estou viva. E penso que para além de mim não há quem o saiba.
Sou por definição inconsciente e vinda à mão, uma transparência-mulher uma dor não definível que me expõe à luz."
Ainda guardo este livro no coração. Lido na altura certa, em que precisava da poesia no meu dia-a-dia: a serenidade em forma de palavras, as que necessitava diariamente. "O que arde também cura", diz Pedro Mexia para começar a apresentar esta obra e não podia estar mais de acordo. Há livros que chegam na hora certa, capazes de curar algum mal - no meu caso, na maioria das vezes, é o aborrecimento - e este Ver no Escuro foi de encontro ao meu espírito. Amantes de poesia ou de tudo o que é belo: esta é uma leitura mais do que recomendável!
"O amor é a divina dispersão e eu exijo-me a tenacidade das chuvas torrenciais, estender-me na crueza da vida a galope toc-toc-toc sempre às chicotadas cada vez mais rápido sem olhar para trás cada vez mais rápido à estratoesfera ir contra um asteróide e explodir em astro numa doce eutanásia do amor-risível"
Morro todos os dias especialmente depois do lanche quando pego no regador fininho onde despejo o dilúvio dos olhos e vou regando as plantas à espera de descendência.
O livro não é extenso e, mesmo assim, parece abraçar o mundo inteiro. Sobretudo, aquele que nos habita dentro do peito.
Estou cada vez mais rendida à poesia da Cláudia R. Sampaio, porque nos desassossega, porque nos impulsiona a olhar para o que nos rodeia e a refletir sobre aquilo que nos faz sentir vivos e sobre o que é isto de vivermos. O primeiro poema é uma janela aberta para o que virá depois, porque nos faz pensar sobre esta ideia de arder, de renascer, de nos transformarmos, ao mesmo tempo que nos mostra que, independentemente do que fizermos, terminamos todos da mesma maneira.
Com um tom interventivo (mas também maternal), também me deixou a pensar na quantidade de vezes que estamos para o outro, mesmo que o esqueça; na quantidade de coisas que fazemos, mesmo que o outro não note, não tenha a noção. Mas os temas não se esgotam aqui.
"(...) Agora mato-me escrevendo e aqui ressuscito em rua beijando pés Eu sou esta verdade Sou a desorientada concentração das noites desertas E ascendo-me, grata, com a poesia dançando entre a vida e a morte, magnífica tapando-me a boca toda, fazendo-me ver no escuro"
Cláudia R. Sampaio é artista residente na @manicomio.pt É escultora e pintora.
O que tenho a dizer sobre esta artista é que é, para mim, das melhores que temos atualmente. Porquê? Porque sim. Porque mexe comigo, porque me faz sentido e o que não faz, agrada-me.
"Morrerei assim, às mãos largas de todas as perguntas deixadas no meu dorso. Que será feito da minha essência?"
"Há que ter cuidado para não morrermos de palavras"
"E se quiseres podemos ser como as pontes: eu num lado, tu no outro e no meio a distância que quisermos dar."
"(...) e a tua cabeça no meu colo dentro lembrará a humidade toda
porque é assim que o mundo começa e é assim que o mundo acaba."
"o que me deslumbra é ser este bicho cingido a uma esfera que orbita irremediavelmente perdida e a maravilha de nada me despertar mesmo que tudo me interesse"
um livro que transborda emoções viscerais, onde cabem mundos. fez-me apaixonar-me pela leitura da poesia. e conter umas lágrimas em transportes públicos.
"Hei-de morrer como um todo, nunca por partes. Mas antes quero o amanhecer na boca e a Humanidade limpa quero caminhar erguida como uma árvore cheia de pássaros e amar, se possível em ricochete"