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Ver no Escuro

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«O que arde também cura. Quando, neste livro, nos deparamos com relâmpagos, brasas e incêndios, detectamos igualmente uma ideia de restabelecimento ou terapia, que se parece, aliás, com o seu avesso: uma doença febril, convulsiva, violenta. Os poemas de Cláudia R. Sampaio são disfóricos mas reactivos, respondem ao mundo e aos ataques do mundo, muitos deles sujos, asquerosos. Esse imaginário quase-abjeccionista não é uma pose, uma auto-indulgência, é a convicção de que, apesar de estarem "acima das condições atmosféricas", os poemas têm cabeça e têm corpo, ambos amotinados, complicados. Anotações citadinas confirmam então que os outros talvez sejam mesmo o inferno; elegias domésticas transformam os pais em criaturas mitológicas, terríficas; e poemas de perda e desejo combinam imagens agressivas e anáforas surreais-românticas. "Ver no Escuro" é uma sequência sobre o facto de estarmos vivos, ou antes, sobre a consciência e "infra-consciência" desse facto. Consciência que é um desassossego pessoano, uma exasperação tenebrosa, uma "melancolia aflita".» —P.M.

84 pages, Paperback

Published January 1, 2016

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About the author

Cláudia R. Sampaio

13 books105 followers
Cláudia R. Sampaio é uma poeta e artista plástica nascida em Lisboa (1981). Estudou escrita de argumento na escola Superior de Teatro e Cinema, escreveu para cinema, televisão e teatro. Publicou os livros de poesia: Os dias da Corja, A primeira urina da manhã, Ver no escuro, 1025mg, Outro nome para a solidão, a antologia Já não me deito em pose de morrer e Uma mulher aparentemente viva. Está também publicada no Brasil com a trilogia Inteira como um coice do Universo (Edições Macondo). Tem desenvolvido, em parceria, um trabalho musical a partir dos seus poemas e já integrou vários grupos como diseuse. Em 2019 juntou-se ao colectivo artístico MANICÓMIO. No âmbito do trabalho desenvolvido neste projeto, integrou em Janeiro de 2020 a primeira delegação portuguesa a ser convidada pela Outsider Art Fair, a maior feira de arte informal do mundo, em Nova Iorque, para expor a sua obra. Vive em Lisboa com as suas duas gatas: Polly Jean e Aurora.

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Displaying 1 - 28 of 28 reviews
Profile Image for Paula Mota.
1,676 reviews568 followers
June 14, 2021
Tragam-me um homem que me levante com
os olhos
que em mim deposite o fim da tragédia
com a graça de um balão acabado de encher
tragam-me um homem que venha em baldes,
solto e líquido para se misturar em mim
com a fé nupcial de rapaz prometido a despir-se
leve, leve, um principiante de pássaro
tragam-me um homem que me ame em círculos
que me ame em medos, que me ame em risos
que me ame em autocarros de roda no precipício
e me devolva as olheiras em gratidão de
estarmos vivos
um homem homem, um homem criança
um homem mulher
um homem florido de noites nos cabelos
um homem aquático em lume e inteiro
um homem casa, um homem inverno
um homem com boca de crepúsculo inclinado
de coração prefácio à espera de ser escrito
tragam-me um homem que me queira em mim
que eu erga em hemisférios e espalhe e cante
um homem mundo onde me possa perder
e que dedo a dedo me tire as farpas dos olhos
atirando-me à ilusão de sermos duas
novíssimas nuvens em pé.


Cheguei a Cláudia R. Sampaio com muitas expectativas porque me foi efusivamente recomendada, como tal, fico feliz por poder pô-la ao lado da Filipa Leal, da Golgona Anghel, da Inês Dias e da Adília Lopes, as poetisas cujos livros compro sem hesitar.
Não tenho muito a dizer, porque os poemas que aqui coloco são bastante autoexplicativos. “Ver no escuro” está recheado de poemas intensos e doloridos, que dei por mim a ler em tensão, a antecipar o verso seguinte, na esperança de que o encadeamento de imagens me continuasse a surpreender.

Quando for embora não deixarei
migalha de mim.
Levarei o cheiro a desorientada
melancolia e desastre
e não deixarei um cabelo que seja.
Levarei comigo as gatas e os livros,
a roupa deixo-a às minhas amigas,
o umbigo, à minha mãe.

Vou e não esqueço.

Partirei sem as orquídeas que
me assombram delicadeza
e sem os cactos que me superam
em estirpe.
Vou aberta como um eterno retorno
e na simplicidade de um bebé que
procura um sítio onde se sentar.

Aqui há a desactivação das almas à
nascença e a ovação aos tristes.
Há a exultação do silêncio profundo
e a altivez congratulada dos néscios.
Há o sangue cansado dos bichos
e a preparação para a fuga da terra.
Aqui há a terra sem terra e a saliência
do teu ombro morto.

Há orelhas frias que soluçam tarde
e uma cova a dizer adeus.

Por isso vou embora no sentido inverso
ao das árvores
numa descida clandestina à mulher que
morreu em ondas.
Vou embora e deixo o meu vinco que
não morre mesmo que me passem com
alcatrão fresco e me estiquem.

Deixo apenas a verdade dos meus
olhos quando pendurados na janela,
a sorrir mundos
deixo as abelhinhas doidas que ignoraram
o meu salto,
e o riso da desistência
porque ainda preciso de mim.
Profile Image for Tiago Diogo.
77 reviews31 followers
March 25, 2016
"por isso lembra-te,
não faças nada que não te caiba
proporcionalmente em corpo e espírito
e sempre que pisares o passado
limpa os pés"
Profile Image for Mariana.
54 reviews2 followers
June 18, 2023
revejo-me muito nestes poemas, e gostava de os ter escrito. vou revisitá-los durante muito tempo.
Profile Image for Sofia.
1,038 reviews128 followers
June 20, 2019
É isto que eu amo nos livros: um livro leva-nos a outro livro que nos leva a outro livro...e por aí fora. Esta autora surgiu num outro livro e gostei do pouco que li. "Ver no escuro" foi uma pequena surpresa. Encantou-me.
Profile Image for Alexandra Machado.
62 reviews15 followers
May 15, 2017
http://gira-livros.blogs.sapo.pt/opin...

Uma vez quiseram-me louca, a arder
e eu ardi com a discrição de
um fogo posto
porque a cura vai na mesma direcção
que a nossa febre

Ateei-me como um relâmpago inesperado
à luz do dia
Eu parecia uma basílica em chamas
de altar por estrear, a arder sozinha

Sempre me recusei a arder como os outros

Ardam-se mais à esquerda ou mais à direita
mais a vento de sul ou de norte,
mas labaredem-se, sejam fogos que ardem!

Porque pior que a desdita loucura
é toda a gente andar em brasa
mas ninguém chegar a incêndio

E no fim são todos cinza

*

É agora, que te foste embora, o momento
em que nos conhecemos melhor.
É agora, entre este espaço vazio que
vai da minha boca à tua, que está toda
a verdade desembocada em glória.
Aqui estou eu sentada a perder-te.
Aqui estou eu a ser-nos aos dois enquanto
ainda é de noite, a adiar que seja amanhã
quando vou rebentar como as lâmpadas.
Aqui estou eu a escrever enquanto não
encontro o meu corpo que foi contigo
atirado ao teu ombro em casaco pesado
sem etiqueta
por favor não engomes.

Depois não seremos mais nada para além
deste lamber de chão.
Seremos apenas passado recente,
passado passado, passado passadíssimo
uma folga chata que ficou mal esticada.
Depois não haverá o teu rasto entre as
portas, nem o eco do teu cheiro, nem o teu
estremecimento nocturno que era também o meu.

E eu tenho tanta pena de estar aqui a perder-te
porque o meu amor não morre quando quero
o meu amor é Jesus ressuscitado a cada prego
de tão novo como uma metáfora
atinado como um rebanho quente
erguido em dedos longos,
desdobrado.

E agora sou uma esponja e encolho
porque ainda estamos a reduzir-nos
em violentíssimo eco
Adeus, eus, eus

Mas amanhã não.
Amanhã não haverá retorno nem cola que
nos junte as vidas
porque o amor é agora, neste preciso instante
em que levam o lixo, em que a minha cara
encolhe e se enruga em sal, em que sou feia,
em que não estás.

O amor é agora, mesmo quando somos as
palavras esmagadas contra os vidros e a
violência lindíssima de dois corpos mirrados
de costas voltadas.

Amanhã não.
Amanhã celebro em brados cegos o
futuro calmo da secura de um rio.

*

Passei todo aquele poema a viver.
Lambi as palavras desde a folha ao início de
mim, palavras presas na curva dos olhos
por onde desceu depois um verbo.

Vivi repetidamente.

E dentro desta anáfora descobri que um
momento nunca é igual a outro.
Como um poema.
Como eu, que nunca sou igual
a mim própria.
Às vezes sou eu sem ser.
Às vezes morro erguida para que me
desfiem e vistam.
Profile Image for Joana Job.
47 reviews
January 4, 2025
Nunca fui pessoa de poesia, e não digo que este livro me tenha tornado uma amante da mesma, mas foi um passo nessa direção.
No momento em que se entra no ritmo, é um livro muito apaixonante.

(obrigada pela prenda Duda hihihi)
Profile Image for Valdemar Gomes.
334 reviews37 followers
January 15, 2017
Um livro que vê veias adentro e respira na estante, pulsando para ser lido.
Um novo favorito!
Profile Image for Sonia.
7 reviews
December 1, 2020
"e sempre que pisares o passado
limpa os pés"
Profile Image for David Pimenta.
376 reviews19 followers
October 5, 2016
"Estou viva.
E penso que para além de mim
não há quem o saiba.

Sou por definição inconsciente e
vinda à mão, uma transparência-mulher
uma dor não definível que me
expõe à luz."


Ainda guardo este livro no coração. Lido na altura certa, em que precisava da poesia no meu dia-a-dia: a serenidade em forma de palavras, as que necessitava diariamente. "O que arde também cura", diz Pedro Mexia para começar a apresentar esta obra e não podia estar mais de acordo. Há livros que chegam na hora certa, capazes de curar algum mal - no meu caso, na maioria das vezes, é o aborrecimento - e este Ver no Escuro foi de encontro ao meu espírito. Amantes de poesia ou de tudo o que é belo: esta é uma leitura mais do que recomendável!
Profile Image for José Mesquita.
25 reviews4 followers
July 19, 2022
"O amor é a divina dispersão e eu
exijo-me a tenacidade das chuvas torrenciais,
estender-me na crueza da vida a galope
toc-toc-toc sempre às chicotadas
cada vez mais rápido sem olhar para trás
cada vez mais rápido à estratoesfera
ir contra um asteróide e explodir em astro
numa doce eutanásia do amor-risível"
Profile Image for Inês Ferreira.
146 reviews
January 6, 2023
9/10

Morro todos os dias
especialmente depois do lanche
quando pego no regador fininho
onde despejo o dilúvio dos olhos
e vou regando as plantas
à espera de descendência.
Profile Image for Sara Beatriz Monteiro.
10 reviews18 followers
May 19, 2017
"Porque pior que a desdita loucura
é toda a gente andar em brasa
mas ninguém chegar a incêndio

E no fim são todos cinza"
Profile Image for Andreia Morais.
454 reviews33 followers
Read
April 28, 2024
TW: Linguagem Explícita

O livro não é extenso e, mesmo assim, parece abraçar o mundo inteiro. Sobretudo, aquele que nos habita dentro do peito.

Estou cada vez mais rendida à poesia da Cláudia R. Sampaio, porque nos desassossega, porque nos impulsiona a olhar para o que nos rodeia e a refletir sobre aquilo que nos faz sentir vivos e sobre o que é isto de vivermos. O primeiro poema é uma janela aberta para o que virá depois, porque nos faz pensar sobre esta ideia de arder, de renascer, de nos transformarmos, ao mesmo tempo que nos mostra que, independentemente do que fizermos, terminamos todos da mesma maneira.

Com um tom interventivo (mas também maternal), também me deixou a pensar na quantidade de vezes que estamos para o outro, mesmo que o esqueça; na quantidade de coisas que fazemos, mesmo que o outro não note, não tenha a noção. Mas os temas não se esgotam aqui.

No final, acabaremos por conseguir ver no escuro.
July 12, 2023
"(...)
Agora mato-me escrevendo
e aqui ressuscito em rua beijando pés
Eu sou esta verdade
Sou a desorientada concentração
das noites desertas
E ascendo-me, grata,
com a poesia dançando entre a
vida e a morte, magnífica
tapando-me a boca toda,
fazendo-me ver no escuro"

Cláudia R. Sampaio é artista residente na @manicomio.pt
É escultora e pintora.

O que tenho a dizer sobre esta artista é que é, para mim, das melhores que temos atualmente. Porquê? Porque sim. Porque mexe comigo, porque me faz sentido e o que não faz, agrada-me.
57 reviews
June 6, 2024
"Morrerei assim, às mãos largas
de todas as perguntas deixadas
no meu dorso.
Que será feito da minha essência?"

"Há que ter cuidado para não morrermos
de palavras"

"E se quiseres podemos ser
como as pontes:
eu num lado, tu no outro
e no meio a distância que
quisermos dar."

"(...) e a tua cabeça no meu colo dentro
lembrará a humidade toda

porque é assim que o mundo começa
e é assim que o mundo acaba."

"o que me deslumbra é ser este bicho
cingido a uma esfera que orbita
irremediavelmente perdida
e a maravilha de nada me despertar
mesmo que tudo me interesse"

💜
Profile Image for Henrique Almeida.
14 reviews
July 5, 2024
um livro que transborda emoções viscerais, onde cabem mundos. fez-me apaixonar-me pela leitura da poesia. e conter umas lágrimas em transportes públicos.

"Hei-de morrer como um todo, nunca por partes.
Mas antes quero o amanhecer na boca e a
Humanidade limpa
quero caminhar erguida como uma
árvore cheia de pássaros
e amar,
se possível em ricochete"
Profile Image for Carmo.
130 reviews6 followers
November 11, 2023
" (...)
E quando me deito sou centopeia de
mil almas que se vão juntando,
perdidas. "

Profile Image for Melissa Coimbra.
4 reviews1 follower
July 24, 2024
A Cláudia faz-nos sentir mais humanos, mais “sujos” do que sabíamos. Excelente livro para ler com a calma e atenção que merece.
Profile Image for Teresa Bouza Serrano.
8 reviews1 follower
February 12, 2025
“Porque pior que a desdita loucura
é toda a gente andar em brasa
mas ninguém chegar a incêndio

E no fim são todos cinza”
Profile Image for Chico.
17 reviews
December 1, 2016
A poetisa amadureceu e escreveu uma obra prima. Livro de poesia de leitura obrigatória do novo milénio. Magnifico.
Profile Image for Cristina Mariana.
87 reviews
June 24, 2025
Maravilhoso! Quero tudo o que é teu Cláudia.
Quando te leio o meu cérebro explode e explode e explode e explode, e eu só penso - finalmente ordem.
Displaying 1 - 28 of 28 reviews

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