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O Meças

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Uma história de violência, em que a progressiva definição dos contornos da memória trará novas e dolorosas verdades. Romance inédito, nele se conta a história de António Roque, homem atormentado, possesso do demónio de funestas memórias. As imagens do passado que regularmente se apoderam dele transformam-no num monstro capaz dos piores atos. No entanto, a obscura história da irmã e do homem abastado que se servia dela – e que, apesar de morto, continua a instigar-lhe um ódio devastador – não é exatamente como ele pensa que se lembra. Depois de anos emigrado na Alemanha, o Meças regressa à sua aldeia de origem. Com ele vivem o filho (a quem detesta) e a nora (a quem deseja, mas inferniza a vida), atemorizando, de resto, todos os que com ele se cruzam.

184 pages, Paperback

First published January 1, 2016

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About the author

J. Rentes de Carvalho

34 books106 followers
De ascendência transmontana, J.Rentes de Carvalho nasceu em 1930, em Vila Nova de Gaia, onde viveu até 1945. Frequentou no Porto o Liceu Alexandre Herculano, e mais tarde os de Viana do Castelo e de Vila Real, tendo cursado Românicas e Direito em Lisboa – onde cumpriu o serviço militar. Obrigado a abandonar o país por motivos políticos, viveu no Rio de Janeiro, em São Paulo, Nova Iorque e Paris, trabalhando para jornais como O Estado de São Paulo, O Globo ou a revista O Cruzeiro. Em 1956 passou a viver em Amesterdão, na Holanda, como assessor do adido comercial da Embaixada do Brasil. Licenciou-se (com uma tese sobre Raul Brandão) na Univ. de Amesterdão, onde foi docente de Literatura Portuguesa entre 1964 e 1988. Dedica-se desde então exclusivamente à escrita e a uma vasta colaboração em jornais portugueses, brasileiros, belgas e holandeses, além de várias revistas literárias. A sua bibliografia inclui romances (entre eles, Montedor, 1968, O Rebate, 1971, A Sétima Onda, 1984, Ernestina, 1998, A Amante Holandesa, 2003), contos, diário (Tempo Contado ou Tempo sem Tempo), crónica (Mazagran, 1992) e guias de viagem. O seu Portugal, een gids voor vrienden (Portugal, Um Guia para Amigos), de 1988, esgotou dez edições. Com os Holandeses (Waar die andere God woont, publicado originalmente em neerlandês, em 1972, e um sucesso editorial na Holanda) é a primeira obra de J. Rentes de Carvalho no catálogo da Quetzal. O mais recente título de Rentes de Carvalho é Gods Toorn over Nderland – A Ira de Deus sobre a Holanda.

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Displaying 1 - 25 of 25 reviews
Profile Image for João Barradas.
275 reviews30 followers
November 5, 2019
Uma semente esconde, com uma casca dissumuladora, um interior negro, do qual brotará uma planta diabólica. Sem querer desculpabilizar essa maldade intrínseca, não é menosprezável a potência ofertada pelo bom solo adubado, em que essa semente pode cair. Numa sede mútua, os sentimentos negativos vão sendo incrementados, à medida que as raízes se embrenham entre os grãos de terra macilenta.

Numa perspectiva biológica, também o ser humano poderá esconder, atrás do seu apaixonante coração, uma falésia de crueldade, cada vez mais escavada por um mar revoltoso e maquiavélico. Neste feitiço de malevolência, é-nos apresentado um personagem desprezível, que reúne um conjunto de características detestáveis no mesmo sarcófago cutâneo. A elas vai buscar as forças necessárias para realizar os actos macabros, que tanto desconforto causam aos leitores. Claro que esta alma atormentada foi corroída desde cedo por cenas de violência, que poderão ter culminado nos fins descritos.

Rentes de Carvalho já habitou os seus leitores a uma escrita exímia, onde, num misticismo linguístico, o modo cuidado repleto de palavras de outrora se imiscui com um linguajar rural, tão reconhecido e difundido pelo autor. Poder-se-ia considerar que essa olaria das letras partisse de uma saudade imensa, vinda de alguém arredado da sua terra natal. No entanto, serve-se das letras para difundir um rol de criticas às qualidades fundadoras da nossa nação: a tacanhez, o atavismo, a mesquinhez e o chico-espertismo. Definições de um "ser português" que é personalizado em diferentes personagens e é melhor escalpelizado nas anotações finais, que ebriamente findam a obra.

Numa fusão plena de estilos, este livro vive de generalizações que, até poderiam aporrinhar, não fosse o facto de ainda hoje serem identificáveis neste quotidiano rural futurista. Às silvadas de chicote, descortina-se um enredo expectável que, ainda assim, enrola quem o lê, não tanto pela surpresa - mais pelo reconhecimento de situações semelhantes, cuja humanidade não poderá ser medida, por maior régua que se utilize.

"Assim será, mas eu há muito perdi a capacidade de me maravilhar, a vida curou-me de sonhos, fez berrela do que na minha inocência e ignorância tive de teias de aranha e ingenuidade patriótica." (pág. 76)
Profile Image for Célia Loureiro.
Author 32 books997 followers
February 9, 2019
3,5

"Criei-me a falar sozinho, a brincar sozinho, forçado a inventar um mundo que, pela fantasia, compensasse o escasso território do pátio em que me isolavam, como se o contacto com os outros fosse um perigo ou desse peçonha.”


Este é o primeiro romance que li de J. Rentes de Carvalho, apesar de o próprio, na Feira do Livro de Lisboa do ano passado (2018) me ter aconselhado a começar pelo Ernestina. Esse fica para depois. Na mesma ocasião, alguém mencionou que o livro projetou imagens muito sombrias na sua mente, e que acabava por ligar as luzes todas de casa à noite, enquanto o lia, mas nem sequer senti que a maldade desta personagem fosse de cariz tal que o livro me conseguisse roubar o sono. Não senti esse assombro, mas “O Meças” não deixa de ser um retrato pesado, por vezes agoniante e cru de uma realidade rural que continua a ser a do nosso país em 2019. Porém, como em parte são fundamentadas as canalhices da personagem principal, acabo por lhe atribuir mais humanidade do que pura vileza.

Uma das ideias que o livro desenvolve, e que vai ficar comigo durante os próximos tempos, é a de que existe um desencontro entre a imagem de um meio rural português perante os estrangeiros e os que de fora o vêem, e a realidade daquelas vivências. O Portugal de montes idílicos, de ingénua iliteracia e de brandos costumes, tantas vezes elogiado na comunicação social e romanceado na literatura, não existe em “O Meças”, como não existe para mim nem para todo aquele que tenha tido contacto com o país profundo e visceral. Um Portugal de vinganças, incesto, maus fígados, copos e peneiras. Este é, para mim, a espinha dorsal que dá alento a estas 180 páginas.

O autor opta por contar a história a quatro vozes que nos chegam na primeira pessoa, sendo que também surgem trechos narrados por uma voz ausente. António Roque é o Meças, e também o detentor do discurso mais ríspido, mais violento, com rasgos de um Português floreado. Um pouco como se nos chegasse, através dele, o trauma, a dureza, a ausência de remorso, a iliteracia, o preconceito sofrido e o outro, praticado, que é são a essência do livro. Por vezes torna-se difícil acompanhar-lhe os trejeitos de linguagem, mas, terminada a leitura, parece-me que era necessário distinguir esta alma das restantes.

A segunda voz é a do filho do Meças, Abel. Sobre esta relação pai e filho: “São sem conta e antigas as razões de não se gostar de um filho, abundam no Velho Testamento, na mitologia grega, com pouco esforço as encontramos à nossa volta”. Esta segunda voz assemelha-se um pouco àquela que pertence à nora do Meças, Isaura. O discurso é mais moderno, escorreito, e o tom mais leve. Por último surge-nos outra voz, num tom límpido e cristalino, nem por isso mais leviano na sua mensagem, e que diria ser a voz a que nos habituamos quando lemos o comum dos romances, sobre pessoas de parte anónima. É quase um discurso universal no qual repousamos depois da verborreia plena de obstáculos do Meças.

Gostei da história. É para isto que leio livros: para ser introduzida a cenários, a pessoas, a psiques várias – e vejo-as, neste romance, complexas e arredias –, a dramas e dilemas pessoais. O que procuro nos autores é, sempre, o seu imaginário. Entretenham-me com uma história que me cative e eu regresso. Enfadem-me com vocabulário pedante e eu viro as costas.
Apesar de alguma dificuldade em entrar no tom, “O Meças” deixou uma boa impressão das capacidades do seu criador, e estou certa de que, cedo ou tarde, farei a travessia para “Ernestina” com tanta ou maior expetativa.
Profile Image for Elsa.
67 reviews37 followers
May 20, 2016
O nome do autor não me era desconhecido, mas nunca tinha lido nada dele. Desde há alguns anos que leio muito mais autores estrangeiros e outro tipo de livros em detrimento dos romances e talvez por isso os seus livros me tenham passado despercebidos.
Este ano regressei várias vezes às livrarias online portuguesas e descobri este livro de José Rentes de Carvalho... Simplesmente maravilhoso. Talvez a mim me tenha dito muito mais ainda por perceber também as expressões em alemão que surgem bastante ao longo do livro - pela personagem ter sido emigrante na Alemanha.

Que se desengane quem pensar que este é um livro fácil de ler... De qualquer modo recomendo, muito.
José Rentes de Carvalho ficou na minha lista de autores portugueses preferidos.
Profile Image for Maria Isaac.
Author 5 books533 followers
November 17, 2021
Um daqueles livros em que...
- primeiros capítulos: oh isto vai ser bom!!! :)
- Algumas páginas à frente: ok... :/
- lá pelo meio: onde raio estou????
- Final: oh Meças... :(

Gostei da escrita do J. Rentes de Carvalho e por isso sei que mais dia menos dia vou ler Ernestina, com a esperança de que a narrativa faça um pouco mais de sentido para mim e que consiga terminar um livro dele num registo melhor.
Profile Image for César.
237 reviews60 followers
August 20, 2017
Como sempre, uma escrita elegante, precisa e, mais do que nunca, com uma grande sofisticação estilística.
J. Rentes de Carvalho atinge o o apogeu aos 86 anos com um livro sombrio e brilhante sobre um homem violento, a ruralidade, o Portugal atávico e a alma Portuguesa.
Para além de tudo isto, e não só por isto, a leitura é magnética. Li-o de seguida. Uma noite ganha.
Profile Image for Cristina Torrão.
Author 9 books26 followers
July 27, 2016
É-me difícil classificar este livro, assim como foi lê-lo. Gostei da sinceridade, do despojamento, da objetividade; incomodou-me a crueldade humana. O Meças põe a nu a desumanidade, sem precisar de cenas sanguinárias nem de holocaustos. Fala de gente que sofreu crueldades na infância e que, ao contrário do que muitos pensam, não as comete para se vingar, mas sim porque não aprendeu de outra maneira, ou porque as circunstâncias da vida não lhe mostraram alternativas.

A crueldade psicológica que cria medo nas vítimas, que as põe sob pressão, que finalmente as deixa apáticas, conformadas, deixa o leitor claustrofóbico, perguntando-se que drama esconderá a casa do próprio vizinho, ou refletindo nos seus próprios dramas. Este é um livro claustrofóbico, sentimo-nos presos como uma das personagens, sensação acentuada pela escrita de Rentes de Carvalho: seca, despojada, um tiro certeiro a cada bala.

O Meças aborda igualmente o tema da emigração, tão bem conhecido do autor, ele próprio emigrante há muitas décadas, o que também me tocou, pois me reconheci nalgumas passagens reflexivas que surgem já depois do final do romance:

«O emigrante perde sempre (…) no regresso não vai encontrar entusiasmo nem boas-vindas (…) não vai faltar quem lhe aponte erros e diferenças (…) De nada lhe servirá esforçar-se, dar prova de que pertence: o ninho rejeita-o. Mas a ninguém dará conta da sua tristeza e desespero: afivela a máscara do sorriso, finge boa vontade, cegueira, entra no coro, diz que sim, realmente: cá é que é, cá é que temos o solzinho, as praias, a boa comida» (p. 172).

Há dois narradores: um que nos conta a história do Meças na terceira pessoa e outro que fala na primeira, a fim de nos contar a sua vida e que talvez tenha algo de autobiográfico, já que nos dá conta da sua relação ambígua com Trás-os-Montes, a terra de origem da família do autor. Vem-se a descobrir que as duas personagens estão ligadas por parentesco, encerrando um segredo familiar.

«Há tragédias que obrigam a cortar de vez, há gente a quem só pertencemos pelo sangue, dão-se nas famílias casos terríveis, vergonhas, horrores que nada limpa» (p. 148).

Não é uma leitura que nos ponha bem-dispostos, mas ficam bem servidos aqueles que se interessam pelas facetas obscuras do comportamento humano.
Profile Image for Carlos.
73 reviews8 followers
June 21, 2019
4,50*
Rentes de Carvalho no seu melhor. Incisivo, mordaz e, como poucos, descritivo em poucas palavras, escalpeliza a bruteza e provincianismo da alma portuguesa.
Para mim, Rentes de Carvalho é o melhor escritor português da actualidade.
Profile Image for Sonia Almeida Dias (Peixinho de Prata).
712 reviews33 followers
July 25, 2016
Foi a primeira vez que li alguma coisa deste autor e posso agradecer aos passatempos da Time Out a oportunidade que tive de o fazer.
Apesar de não ser um livro fácil, foi um livro extremamente interessante e companhia perfeita para as férias.
A história é dificil, nenhum dos personagens desperta a nossa simpatia, a escrita é densa e quase poética, no entanto é muito dificil posar o livro e não querer saber o que vem a seguir. Apesar de alguns personagens (o próprio Meças por exemplo) serem intragáveis ao mesmo tempo ocupam um lugar no nosso coração.
Acho que é essa semelhança com a vida real que tornou o livro tão fascinante. Vou com certeza ler mais coisas deste autor.

https://peixinhodepratablog.wordpress...
Profile Image for Nádia Rodrigues.
72 reviews10 followers
February 28, 2017
história extremamente violenta, brutal
no entanto, reside na forma como é escrita toda a arte do autor
Profile Image for Manuela Barradas.
39 reviews13 followers
August 8, 2017
"Ademais, cedo aprendeu que para pouco há remédio, às grandes dores talvez nem a morte tenha termo, alguma razão deve haver para se falar tanto das penas do inferno." - pág. 41
Profile Image for Célia Gil.
1,010 reviews45 followers
June 27, 2022
Este é verdadeiramente um livro cru e duro, numa escrita viva, cinematográfica. José Rentes de Carvalho não está com rodeios e aborda questões que marcaram uma época em que a violência, a sordidez e a ignorância andavam de mãos dadas. É um livro que deixa algum amargo de boca, um desassossego, porque mexe com os nervos, com o que consideramos ser o certo ou até o razoável.
A história gira em torno de Meças, que regressa à terra (Vila Nova de Foz Côa), depois de ter sido emigrante na Alemanha (onde troçavam dele por não conseguir aprender a língua e ser um falhado), temido pelo seu caráter cruel, bruto, bebedolas, psicopata, predador que tudo faz vergar ao jugo da sua violência…capaz até de matar, o que torna difícil sentir-se qualquer empatia por ele. Mas os seus atos de crueldade, apesar de não terem qualquer justificação, nascem de uma raiva antiga relativamente a alguém que viu abusar da irmã.
Não será a violência uma forma de não mostrar a cobardia? De camuflar os próprios medos, os monstros interiores? Mas, será que esses monstros, medos e cobardia dão direito a ser um monstro ainda pior? Um monstro que ficará, por longos tempos, a ensombrar os nossos dias, tal o poder das palavras cuspidas de forma visceral no papel e que tão bem representam a personagem que dá nome ao romance.
Este é o retrato de um interiorismo caracterizado pela iliteracia, pelos dramas familiares, pelo culto de uma violência através da qual as personagens se tentam impor, pela falta de valores e de verdadeiros laços entre pai e filho e por muito, muito mais, que é difícil expor por palavras. Só se sente, lendo! Por isso, aconselho a leitura.
Profile Image for Patricia Posse.
269 reviews
August 19, 2021
A história de uma vida ensombrada pelos abusos percebidos na infância, que desemboca num inesperado desfecho. Por outro lado, a honradez com que, pese embora os fantasmas do passado, se mantém firme no presente.
Profile Image for Inês.
245 reviews
May 3, 2024
Billete de ida e volta
Profile Image for Ana Cristina.
42 reviews
December 9, 2025
Adoro este escritor, dá gosto ler. Ernestina continua a ser o meu preferido por razões muito pessoais, O Meças é uma história mais dura e mais violenta que é compensada pela beleza e riqueza da escrita de J. Rentes de Carvalho.
Profile Image for Natacha Martins.
321 reviews35 followers
January 1, 2021
O Meças não esquece o passado, vive com ele diariamente. Regressado da Alemanha depois de anos emigrado, à aldeia onde nasceu e cresceu e onde o passado lhe parece estar ainda mais presente.
O Meças é um homem violento, de fraco carácter, que sentimos ser muito revoltado, com tudo e com todos. Odeia o filho que, entretanto veio viver com ele. Aparentemente odeia a nora, mas tem com ela uma relação doentia, com comportamentos completamente inadmissíveis.

Tudo em Meças é desrespeito, possessão, chantagem, violência, agressividade e raiva.
Quando conhecemos o passado do Meças, conseguimos contextualizar, de alguma forma, estas atitudes, no entanto, nada justifica aquilo em que Meças se transformou.

"O Meças" é um livro violento em muitos aspetos e tem muito do que é comum a outros livros de J. Rentes de Carvalho, a crítica social, a forma de viver em Portugal, num Portugal rural, pouco instruído e com alguma tendência para a violência.
Mais uma vez J. Rentes de Carvalho leva-nos para uma pequena localidade onde toda a gente se conhece e onde, toda a gente sabe da vida de toda a gente mas ninguém se mete na vida de ninguém.

Estranhei um pouco a forma como está escrito, que me deixou confusa no início, mas gostei bastante embora não seja um livro muito fácil de ler.

Recomendo!

Boas leituras!
1 review
February 26, 2019
Já li vários livros deste autor e o que me encanta são as histórias de um estilo de vida rural, duro, seco e com personagens estereotipadas pelo extremo: homens bêbados e violentos, mulheres submissas e abusadas. Infelizmente, este parece-me levado demais ao limite, com muita violência. Mas boa escrita como sempre!
Profile Image for Joel Reis.
142 reviews2 followers
January 9, 2019
"É muito meu entregar-me de alma e coração a algo que realmente importa, e com o mesmo ímpeto perder o interesse, confundir-me a mim próprio com saltos de ideias, mudanças repentinas, alternando doentiamente o entusiasmo com a apatia."
Profile Image for Joaquim Margarido.
299 reviews42 followers
February 20, 2021
Após uma primeira incursão no universo literário de José Rentes de Carvalho – com “Montedor”, o seu romance de estreia (1968) -, de novo essa sensação de mal estar, quase repugnância, perante a figura central dum livro seu, desta vez António Roque, o “Meças” do título. Com o Freitas, de “Montedor”, partilha esta personagem doentia os mesmos referentes geográficos e sociais. Num caso, como no outro, estamos perante alguém à margem da sociedade, voltado sobre si mesmo, com uma história de vida miserável, sem infância, sem essa capacidade de aprender com as experiências pessoais, faltando-lhe a introspecção de si mesmo e do efeito do seu comportamento nos outros, sem remorsos nem vergonha, sem objectivos de vida realistas. Ambos se arrastam num presente que é uma verdadeira morte lenta. Mas enquanto o Freitas é um pobre coitado, “sem cara para levar um estalo”, o Meças é um sádico e um depravado, um homem violento, um psicopata da pior espécie, nutrindo um particular desprezo pela vida e pelos valores que lhe são intrínsecos.

A acção decorre em Trás-os-Montes, mas estamos aqui muito distantes do “reino maravilhoso” de Miguel Torga. Este é um Trás-os-Montes “de gente heróica, lúbrica, ladina, pateta, pacóvia, malandra, espertinha, orgulhosa, humilde, amável, cheia de defeitos perigosos e de virtudes escondidas, isolados do mundo, regressados do mundo, ricos remediados e pobres sem lugar a não ser no cemitério”, conforme resumiu Francisco José Viegas a propósito da obra do autor. Assim, ler “O Meças” é ir ao encontro dum microcosmos social que permanece imutável desde tempos imemoriais, moldado pela dureza dos elementos, subsistindo na estreita faixa das necessidades básicas do nascer, comer, procriar e morrer, feito de gente primária, relacionando-se maquinalmente e que, nas suas reacções instintivas, faz vir ao de cima o melhor e o pior que há no ser humano.

Fernando Pessoa dizia que “o génio, o crime e a loucura, provêm, por igual, de uma anormalidade; representam, de diferentes maneiras, uma inadaptabilidade ao meio” e este é um aspecto muito interessante que se evidencia em “O Meças” e se vai cristalizando à medida que avançamos na sua leitura. Determinada pela construção da Barragem do Sabor, a subida das águas vai apagando da superfície da terra a paisagem duma infância recalcada, obrigando o Meças a refugiar-se no mais alto dos montes, transportando consigo as sementes da violência e do ódio. A cada nova página a mesma atitude desajustada face ao outro, à vida, ao mundo. Uma atitude com uma direção apenas, que se deteriora de forma irrevogável. O mal que alastra é uma certeza. Vira-se cada página em permanente sobressalto, na certeza de que o pior ainda está para vir. Cada passo, cada gesto, cada palavra proferida, traz consigo apreensão e medo. Fiel a uma escrita rasteira, sem facilidades nem concessões ao bom gosto, Rentes de Carvalho tem esse dom de dar a ver para lá do óbvio, recriando universos ficcionais que vão de braço dado com a realidade. A mão que, delicadamente, pousa sobre o ombro é a mesma capaz de derrubar, com um murro, o homem mais possante. Para o Meças não há remissão. Só a morte o apaziguará.
13 reviews
September 14, 2021
“O Meças”
J. Rentes de Carvalho

Gostei muito de “Ernestina”, primeiro livro que li de Rentes de Carvalho: da temática, da escrita, da abordagem equilibrada ao passado e ao presente do país interior.
Este é um livro duro, muito mais negro. O autor, mais uma vez, aborda a crueldade, o humano animalesco, o secretismo e violência da vida nas aldeias e pequenos aglomerados de casas, ontem e hoje. A escrita é diferente, repleta de anástrofes que dificultam a apreensão imediata do que se pretende transmitir. Não edulcora nenhuma personagem, umas mais viscerais que outras.
Meças é um enigma, que pensamos esconder um segredo escabroso por detrás do seu feitio irascível, do comportamento insuportável e clandestino, assombrado por momentos de ausências violentas que sugerem doença e/ou algo mais. É um ser humano intratável. Somos levados a pensar que algo no seu passado justificará a brutalidade e maldade daquele ser humano. No final, a montanha pariu um rato e a revelação feita não corresponde de todo a tanto suspense. Situação corriqueira para a época, genes que não escolhemos.
Rentes de Carvalho é um acérrimo crítico de Portugal. Pensei que na sua escrita se conseguiria abstrair dessa relação de repulsa com o país, mas não é o caso. A forma como uma das personagens descreve a não-ligação com Portugal não deixa dúvidas quanto a quem fala verdadeiramente e acabou por me desiludir.
Como referi, é um livro duro mas curto, bem escrito mas a exigir maior atenção na leitura do que aquele lido anteriormente. Consegue incutir asco, impotência e raiva no leitor, o que só abona a seu favor.
#alernosentendemos
10 reviews5 followers
July 28, 2021
A pobreza anda demasiadas vezes de mãos dadas com os maus tratos. Com uma violência sem fim. Sentimentos tumultuosos que só o álcool adormece, coisa pouca, porque facilmente o corpo lhe toma o hábito. Na ressaca voltam as vertigens e as visões. Amontoam-se as ilusões de algo que um dia tomou forma. A justiça por próprias mãos e o medo não lhe tolheu nem a alma nem as ações. Apurou-se-lhe a firmeza. Agudizou-se-lhe o ódio. No final morre só que nem um cão.
Profile Image for CARLOS NEVES.
121 reviews1 follower
February 24, 2020
É sempre um grande prazer ler J. Rentes de Carvalho. A sua escrita é de uma beleza tremendamente realista. O ambiente de crueza desta história retrata a pobreza e realidade que se passava não há muito tempo em Trás os Montes. Brilhante.
Profile Image for Carlos Filipe Bernardino.
510 reviews
March 20, 2026
Gosto da escrita de Rentes de Carvalho, do seu despojamento na escrita, o ser directo.
Esta é uma obra dura, que nos deixa mal, talvez por nos sentirmos retratados nela, dado nós Portugueses termos atitudes e maneiras de ser ali descritas.
Profile Image for João Miranda.
275 reviews11 followers
March 11, 2022
Punhado de páginas com português de excelência, com uma história dura e com um país que se vê ao espelho em cada parágrafo.
Displaying 1 - 25 of 25 reviews