Esta obra apresenta um panorama das representações do sexo no cinema – dos stag films no cinema mudo às vanguardas artísticas, das pornografias alternativas ao mainstream à estilização do sexo no cinema de autor, que politizou o desejo por meio de narrativas ora libertárias, ora confinadas em discursos normativos. Para tanto, o autor faz uma revisão crítica das noções de obscenidade, erotismo, pornografia, e sua relação com a moral, a estética e as ideologias. Nota-se, assim, como as interpretações cinematográficas potencializaram os dilemas de cada época, provando que as imagens, das mais desfocadas às mais explícitas, são capazes de fascinar, incomodar e desestabilizar discursos sobre o sexo.
Tese de doutorado do Gerace, o livro em questão é imprescindível não só para os cinéfilos, mas estudiosos da sexualidade em geral, com viés foucaultiano é mais ou menos dividido da seguinte forma: Além do obsceno trata o que se instaurou em chamar de erótico, obsceno e pornográfico, seja da ordem escrita ou visual. Arquivo do sexo silencioso trata dos primeiros lampejos de erotização no cinema, de um simples selinho aos nus efetivos, até a chegada dos stag films por volta de 1907/08. Erotização e censura trata do cinema mainstream, com ênfase no período do Código Hays americano. O autor perdeu uma estrelinha das cinco que eu daria por não ter citado a genialidade do Lubitsch em explorar o sexo em seus filmes, isso é imperdoável. Êxtase no cinema experimental trata do erotismo de vangarda, de Buñuel a Warhol, de Cocteau a Genet, o kitsch e o camp, além do homoerotismo internacional e nacional. Imagine o quanto fiquei puta quando o autor disse que o Jarman fez o primeiro nu frontal masculino do cinema britânico, quando isso cabe ao seu tutor Ken Russell. O império do erotismo trata sobretudo do cinema dos anos 70, com especial ênfase em O Império dos Sentidos, Saló, Calígula, O Último Tango em Paris e Garganta profunda e tudo que representaram respectivamente. Cinema explícito contemporâneo foca nos cinemas de Breillat, Von Trier e Cameron Mitchell. Pornografias contemporâneas foca no postporno muito oriunda da teoria queer e contrassexualidade, além da pornografia metafórica de Bruce LaBruce. A domesticação da obscenidade trata das tendências atuais e como ainda a violência é vista como passável, enquanto a sexualidade ainda é um tabu cinematográfico.
Eu venho flertando com o tema de estudos do erótico faz um bom tempo e acabei me deparando com este livro ao pesquisar a escassa bibliografia que temos sobre este tema. Primeiramente, como um bom livro sobre o erótico explícito deve ser, ele vem recheado de ilustrações, fotos, stills de cinema, cartazes. O livro abrange uma miríade incrível de temas sobre o tal Cinema Explícito do título. Desde a teoria sobre o que é erótico, o que é pornográfico, o que é obsceno e o que é explícito, passando por um panorama histórico da evolução do cinema explícito. O leitor também não se restringe apenas às produções baunilha ou heterossexuais, ele vai fundo, e retoma também as produções queer e até os snuff movies. Alias, optar pelo recorte do explicitado foi uma sábia decisão feita por Rodrigo Gerace, o autor, que desenvolveu esse hercúleo trabalho sobre as produções sexuais e sensuais. Para aqueles que estão se iniciando no tema, como para aqueles que precisam de referências e mais aprofundamento nos liames do cinema explícito eu super recomendo esta leitura.