Este é o terceiro livro que leio da jornalista e escritora espanhola Julia Navarro, o qual já estava na minha estante há uns quatro anos, mas que ainda não me tinha feito o apelo para que o lesse. Sou da opinião que os livros é que nos convidam à sua leitura e escolhem os seus leitores e não o contrário. É uma ideia algo romântica pela qual me apaixonei desde logo, e que li num dos livros de Carlos Ruiz Záfon, o também escritor espanhol que, apesar de já falecido, continua bem presente no coração e memória dos seus fãs incondicionais, entre os quais, eu própria.
Enquanto a maioria dos livros de Julia Navarro se tratam de romances históricos, que abordam temas como a Guerra Civil Espanhola, a Segunda Guerra Mundial, os regimes comunistas na ex-União Soviética e na ex-República Democrática Alemã e as origens do conflito israelo-palestiniano, com personagens fascinantes, em que as mulheres são sempre as protagonistas e verdadeiras heroínas, não obstante todas as suas contradições e erros cometidos, como nos romances "Diz-me Quem Sou" e "Dispara, Eu Já Estou Morto", "A História de Um Canalha" passa-se num cenário mais recente (Nova Iorque, Londres e Madrid) dos anos 80 do século XX até à atualidade, em que o protagonista, que é também o narrador, é um verdadeiro anti-herói.
Thomas Spencer, julgando-se no fim da vida, com cerca de pouco mais de cinquenta anos, narra o seu percurso desde a infância e, apesar de ter nascido numa família de classe média alta de uma zona privilegiada de Nova Iorque, cujos pais e irmão muito o amavam, sentiu-se sempre desenraizado na sua família e na escola, tendo feito tudo o que podia para fazer sofrer aqueles com quem convivia, prejudicar as suas vidas e nunca sentia qualquer remorso ou arrependimento pelo mal que causava.
Quando se tornou adulto e foi trabalhar para a City em Londres, o seu percurso profissional de sucesso no mundo da publicidade ficou a dever-se não ao seu talento, mas à sua habilidade em aproveitar-se das ideias dos outros, em ser manipulador e a não ceder perante nada para obter poder e dinheiro, ainda que com isso destruísse as pessoas com quem se cruzasse.
Tratava as mulheres como meros objetos que lhe dessem satisfação, considerando-se dono das suas vidas.
Nunca sentiu amor, amizade ou carinho por ninguém, porque nem de si próprio gostava. A sua insatisfação era permanente.
Pelo que, foi a primeira vez que senti total desprezo por um protagonista de um livro e durante as oitocentas páginas da sua leitura dei comigo a imaginar formas de lhe aplicar os maiores castigos, pensando que, com isso, se o mesmo não alterasse o seu comportamento e se arrependesse do mal que praticava, pelo menos que falhasse os seus objetivos e ficasse na ruína total e completamente sozinho. Tal deve-se muito provavelmente à educação judaico-cristã que recebi, de que o mal não pode prevalecer sobre o bem, e de que em algum momento, até os seres humanos mais execráveis, nem que seja no fim da vida, corrigem algumas das injustiças que praticaram.
Mas, infelizmente, a história e os acontecimentos recentes que vivemos, mostram-nos que há cada vez mais Thomas Spencer.
Não consegui gostar do livro, apesar de muito bem escrito, pois aos 49 anos continuo a ser em parte crente na bondade humana e, em parte ingénua, persistindo em partilhar muitos dos ideais que tinha enquanto jovem, nomeadamente na ressocialização dos seres humanos, pese embora os dissabores que isso me tem causado.