"Quando a avó percebeu que já estava velha, dizia-me que tinha medo de morrer. Não pela morte em si, que devia ser como ir dormir ou fazer uma viagem, mas sabia que Deus estava ofendido com ela, porque lhe tinha dado muitas coisas bonitas neste mundo e ela não conseguira ser feliz e isso Deus não lhe podia perdoar. No fundo, esperava ser mesmo doida, se estivesse sã o Inferno estava certo."
Uma história passada na Sardenha, Cagliari, durante a Segunda Guerra Mundial e contada pela neta da protagonista. Um relato que demonstra a importância de conhecer as raízes familiares.
"As saudades são uma coisa triste, mas também um tanto feliz."
A avó foi uma mulher de extrema beleza, romântica, que ansiava pelo verdadeiro amor e que gostava muito de escrever, o que fazia escondida.
"Nunca tinha tido uma escrivaninha, nunca pudera sentar-se a uma mesa, porque escrevia sempre às escondidas, com o caderno no colo, e escondia-o mal ouvia alguém chegar. Em cima da escrivaninha havia uma pasta de pele com muitas folhas de papel timbrado, um frasquinho de tinta, uma pena com aparo e um mata-borrão. Por isso, a primeira coisa que a avó fez, mesmo antes de despir o casaco, foi ir buscar o caderno à mala."
Esta mulher sofreu com as expectativas da sociedade uma vez que aos cerca de trinta anos tinha "ultrapassado" a idade de ter pretendentes e casar sendo-lhe arranjado um casamento sem amor. Foi uma mulher negligenciada, não compreendida pela família e com problemas de saúde mental.
"No entanto, até 1945, não regressaram a Cagliari. Assim, os avós dormiram como irmãos no quarto de hóspedes: a cama alta de ferro, de corpo e meio, com embutidos de madrepérola, o quadro da Virgem com o Menino, o relógio dentro da campânula de vidro, o lavatório com a bacia e o jarro, o espelho com uma flor pintada e o bacio de porcelana, debaixo da cama."
Com problemas renais, ela acabou por ir para umas Termas onde conheceu o Veterano e se formou uma história entre eles.
"Na sala entrou um homem com uma mala, pelo que devia ter acabado de chegar e anda não devia sequer ter visto o quarto. Usava uma muleta, mas andava depressa e ligeiro. A avó gostou desse homem como nunca gostara de nenhum dos pretendentes a quem tinha escrito poemas ardentes e que esperara de quarta-feira em quarta-feira."
Mesmo com todas as contrariedades que lhe foram impostas, esta foi uma mulher capaz de sonhar e de procurar um sentido para a sua vida.
"E para fazer um sacrifício assim, de desaparecer pelo bem do outro, é necessário amá-lo de verdade."
Este é um daqueles livros em que só no final se conhece a verdadeira história, o que o torna mais surpreendente.
"Na verdade, segundo a minha mãe, numa família alguém deve ficar com a desordem, porque a vida é assim mesmo, um equilíbrio entre dois contrários, de outra forma o mundo torna-se rígido e pára."
"«Não deixe de imaginar. A senhora não está louca. Nunca mais acredite em quem lhe disser coisa tão injusta e tão maldosa. Escreva.»"
Também existe o filme baseado neste livro o qual ainda não tive oportunidade de ver.