A Umbanda já completou mais de cem anos de existência neste mundo e, no entanto, até agora não havia nenhum título específico sobre a mediunidade de incorporação umbandista. Este é o primeiro título que aborda de forma simples e prática o desenvolvimento mediúnico de incorporação na Umbanda, refletindo sobre as dificuldades e conflitos pelos quais passam a maioria dos médiuns de incorporação. E não para por aí, Alexandre Cumino fala da experiência única de ver o mundo por meio dos olhos dos guias de Umbanda e da beleza mística de viver isso em sua vida. Este livro é recomendado tanto para médiuns iniciantes quanto para os mais experientes na incorporação umbandista, somando e construindo uma cultura teórica que em muito colabora para a prática de Umbanda. Leitura obrigatória a todos os médiuns e aos amantes da Umbanda, àqueles que querem ter um primeiro contato com suas belezas e seus encantos.
Este livro destoa bastante das minhas leituras corriqueiras. Fui buscar o conceito de incorporação na umbanda para conceituar incorporação nas minhas pesquisas sobre a construção das masculinidades. Médium: Incorporação ou Possessão, de Alexândre Cumino é um livro fácil de ler (li ele todo enquanto estava na praça de alimentação do shopping depois de tê-lo comprado nas Livrarias Catarinenses). Mas apesar de ser fácil de ler, o autor se preocupou em embasá-lo teoricamente, usando pesquisadores de rituais, de mitologias e de xamanismos para explicar os rituais da umbanda. Ele também explica a importância do movimento giratório e dos tambores no ritual de incorporação dos guias, ou entidades, ou orixás deste religião afro-brasileira que tem muitos elementos do espiritismo de Allan Kardec. Mesmo eu não sendo um iniciado na umbanda, apenas um curioso e simpatizante das religiões afro-brasileiras, entendi que este não é um livro doutrinário, como são muitos das religiões cristãs, mas um livro que apresenta um elemento importante de uma religiosidade.
Em Médiuns: Incorporação não é Possessão, Alexandre Cumino apresenta uma reflexão lúcida e necessária sobre o fenômeno da incorporação espiritual, propondo uma visão desmistificada e profundamente humana da mediunidade. A obra nasce com o propósito de romper o medo e o preconceito em torno do termo possessão e de explicar, sob a ótica da Umbanda e do Espiritismo, o verdadeiro significado do ato de incorporar.
Cumino parte de uma observação simples, mas poderosa: durante séculos, a incorporação foi associada à ideia de domínio espiritual, algo negativo ou demoníaco. Com linguagem acessível e didática, ele mostra que, na verdade, a incorporação é um ato consciente, harmônico e de cooperação entre o médium e o Espírito, baseado na sintonia e no amor. O médium não perde o controle nem deixa de ser ele mesmo; ele empresta seus recursos mentais e energéticos para que o Espírito se manifeste com um propósito de ajuda e orientação.
O autor se destaca por trazer um comparativo respeitoso e esclarecedor entre a Umbanda e o Espiritismo. Para Cumino, ambas as tradições compartilham os mesmos fundamentos, a comunicação entre os planos, a lei de causa e efeito e o exercício da caridade, mas se expressam de formas diferentes, também diz que apesar do estudo da doutrina espírita ser de muita importância, é preciso analisar do ponto de vista umbandistas. O Espiritismo, nascido na França com Allan Kardec, tem uma abordagem mais racional, moral e científica, preocupada em estudar os fenômenos e compreender suas leis. Já a Umbanda, surgida no Brasil, manifesta a espiritualidade de forma simbólica, ritualística e profundamente enraizada na cultura e na ancestralidade brasileira.
Enquanto no Espiritismo a mediunidade se expressa, em geral, pela psicografia ou pela fala controlada, na Umbanda a incorporação ganha corpo, gesto e energia. O médium se torna um instrumento de ação fluídica, permitindo que entidades como Caboclos, Pretos-Velhos, Crianças e Exus trabalhem em prol do equilíbrio espiritual dos consulentes. Cumino enfatiza que essa forma de manifestação não é inferior nem irracional, é apenas outra linguagem espiritual, tão legítima quanto a espírita.
Com esse comparativo, o autor demonstra que Umbanda e Espiritismo não são rivais, mas caminhos complementares de uma mesma verdade espiritual. Um valoriza o estudo e a razão; o outro, o símbolo e a vivência. Juntos, equilibram mente e coração, ciência e fé, no propósito comum de servir e evoluir.
A escrita de Cumino é direta e acolhedora, de fácil entendimento, refletindo seu compromisso com o esclarecimento e o respeito às diferenças religiosas. O leitor sai da obra não apenas mais informado, mas também mais consciente do papel do médium e da dignidade da incorporação.
Em síntese, Médiuns: Incorporação não é Possessão é um livro essencial para quem deseja compreender a mediunidade fora dos dogmas e dos medos. Alexandre Cumino oferece uma visão moderna, libertadora e amorosa, que convida ao autoconhecimento, ao respeito entre tradições e à vivência do sagrado como ponte entre mundos, e não como submissão.
• SPOILERS | Quotes, Notes & Highlights •
"Incorporar não é algo a se fazer, não pertence ao ocorrer, não é algo que você simplesmente realiza. Incorporar pertence ao não fazer, você deve apenas se entregar. Incorporar não é uma atividade, mas uma passividade. Você apenas aceita que algo inexplicável aconteça, você aceita um encontro profundo do seu ser com outro ser, um encontro de almas. Nesse encontro, o seu centro mais profundo entra em contato com o centro desse outro ser e, amável e passivamente, você lhe entrega a sua periferia. No interior estão os dois unidos, no entanto o médium deve estar em passividade e o guia na atividade e no controle do exterior onde apenas ele, o outro, o guia, é quem deve se manifestar."
"Esta é a chave: consciência. Na vida e na incorporação seja consciente, seja presente e esteja por inteiro em tudo o que faz. Se não existe consciência na vida, não haverá consciência na incorporação, e não estou falando do fato de ser médium consciente ou inconsciente, mas da qualidade de sua consciência. Estar consciente na incorporação ou levar uma qualidade de consciência para ela é estar entregue por inteiro, ou seja, viver esse momento completamente, afastando os pensamentos intrusos e o comportamento condicionado."
"Quando a sua religião não é aquela de um livro ou doutrina dogmatizada, então existe uma grande liberdade e ao mesmo tempo uma dificuldade de entender: “qual é mesmo a minha doutrina?” Todos querem respostas prontas, querem ter uma doutrina escrita para poder mostrar aos demais que seguem um caminho de salvação. Querem uma doutrina para justificar seu comportamento fanático ou moralista, querem mostrar que com essa doutrina são melhores que os outros. Assim, muitos querem ter um conjunto de regras que justifique uma série de restrições que querem viver para se iludirem de que, vivendo com limitações, terão o céu garantido e que possuem algo que justifique sua mediocridade perante a vida. A grande maioria não quer pensar a vida, a grande maioria não quer sentir a vida, a grande maioria das pessoas não quer liberdade porque implica muita responsabilidade; não querem de fato ser felizes porque ser feliz dá muito trabalho."
"O ser humano tem medo de ser feliz, quer apenas uma doutrina para fingir que é feliz ou, pelo menos, para lhe dar a ilusão de que não é feliz agora mas vai ser depois de desencarnar, o que justifica suas restrições e a vida tão pesada. Céu e inferno estão dentro de nós. Se estamos bem conosco, então estaremos bem no céu ou no inferno."
"O sentido da vida vem do coração e não do intelecto. O sentido da vida não pode ser explicado, porque está na própria vida em si."
"Somos corpo, mente, espírito e emoções. Vivemos estas quatro realidades e precisamos aprender a ouvir, ver e sentir nas quatro, com nossos sentidos materiais e espirituais, e com nossa capacidade mental e emocional."
"(...) não se engane com falsas afirmações; cure-se, transforme-se, conheça-se a si mesmo e encontre sua verdade. Quando caminhar com a sua verdade, então encontrará pessoas, lugares e relações saudáveis e reais. Lembre-se: pessoas de verdade nunca são iguais umas às outras; pessoas falsas são iguais porque estão tentando agradar, copiar ou imitar alguém. Não seja uma cópia nem atraia cópias para sua vida, não imite nem atraia imitações, não seja falso nem atraia falsidade, não seja o resultado de expectativas suas ou de outras pessoas. Procure sua verdade na espiritualidade, espiritualidade é verdade. Fora da verdade nada vale a pena, fora da verdade não existe vida, fora da verdade você está morto esperando uma salvação. Não espere uma salvação, viva sua verdade no céu ou no inferno e seja feliz independentemente de onde está, seja feliz por ser quem você é, seja feliz por estar em sua verdade."
"Lembre-se: quando Pilatos perguntou a Jesus qual é a verdade, ele silenciou. Hoje muitos que dizem o seguir gritam aos berros ter encontrado a verdade e saber qual é a verdade. Ninguém pode lhe dizer qual é a sua verdade. Cada um tem a sua e a verdade absoluta é o Todo. As partes que somos não têm condições de absorver o todo, assim nenhuma das partes tem a verdade. Quanto mais nos identificamos uns com os outros, quanto mais conseguimos conviver com a verdade do outro, maior se torna a nossa verdade. Se não podemos ter uma verdade absoluta, podemos ter uma verdade maior que nós mesmos. Quando em nossa verdade cabem muitas verdades e muitas pessoas diferentes, então nossa verdade fica cada vez maior. Em religião, especialmente, o contrário de uma verdade pode ser outra verdade, depende apenas de quem vê essa verdade. Por isso, a verdade de um pode ser mentira para o outro simplesmente porque esse outro não consegue ver além da sua própria verdade."
"Uma boa comunicação é feita sempre com respeito e intenção de fazer o bem (...)"
"Com o desabrochar da mediunidade e uma maturidade em lidar com ela, esse médium pode passar a sentir a presença de seus guias em outros momentos de sua vida além do terreiro. Somos médiuns o tempo todo e não apenas dentro do templo espiritual."
"Somos médiuns para oferecer o dom a quem necessita; para recebermos e buscarmos algo, nossa posição é de consulente. Aquele que mais pretende oferecer que receber é médium; aquele que pretende mais receber que oferecer é consulente. Mas há de convir que o médium é o primeiro a receber os benefícios do convívio com as entidades espirituais, pois tudo de bom passa por ele enquanto as cargas negativas, emoções e dores se descarregam sem permanecer nele mesmo."
"Comprometimento mediúnico é comprometimento com a vida, o descomprometimento mediúnico denota descomprometimento com a vida, um autoenganar-se, autossabotagem ou simplesmente um sinal de que, talvez, pode ser que o seu caminho seja em outro lugar, o que pode ser na mesma religião ou em outra. E ninguém pode saber esta resposta a não ser você mesmo, com a força do seu coração e do seu ser junto ao “eu superior” e Deus."
"Durante o desenvolvimento, é comum o médium de incorporação ser trabalhado ou desenvolvido à noite, enquanto seu corpo dorme. Em espírito, o médium pode participar de palestras no astral e até trabalhar com seus guias espirituais para ir se acostumando com suas energias e conhecer melhor sua mediunidade. É comum a pessoa que tem mediunidade de incorporação sonhar que está incorporada. Muitas vezes, o médium nunca incorporou ou nem sabe que tem o dom da incorporação, mas sonha que está incorporado. Isto por si só já é um sintoma da mediunidade de incorporação, pois o dom é do espírito e não do corpo. Muitos médiuns de incorporação incorporam espíritos no astral para realizar tarefas em realidades distintas. É comum nossos guias espirituais incorporarem no nosso corpo espiritual para realizarem trabalhos em faixas vibratórias mais densas, pelo simples fato de que o nosso corpo espiritual (perispírito, duplo etérico ou psicossoma) é de uma natureza mais densa que dos nossos guias e se torna visível em locais onde eles passam despercebidos. Outras vezes, nossos guias incorporam em nosso duplo etérico apenas para nos levar em missões de trabalho e aprendizado, no qual devemos aprender as lições de forma passiva, sem interferir no que está sendo realizado. Pergunte a outros médiuns de incorporação se já sonharam que estavam incorporados e você verá o quanto este fenômeno é comum. Quando dormimos, nosso corpo espiritual se desprende do corpo material, num fenômeno chamado desdobramento ou viagem astral. E é neste estado que vamos, em companhia de nossos guias, fazer estágios de aprendizado mediúnico no astral. Quando acordamos, temos a sensação de que sonhamos, no entanto as lembranças são de situações reais e factuais, diferentemente dos sonhos malucos, em que tudo se transforma e perde o sentido."
"Cada médium é um cosmos universal de possibilidades, de vida, de experiências e expectativas (...)"
Um ótimo livro para quem está no começo do desenvolvimento mediúnico na umbanda. Tenho muita sorte de ter começado a seguir o Cumino quando estava no comecinho do meu desenvolvimento e esse livro só retornou para me relembrar de muito princípios que eu havia esquecido.
Para você que quer uma visão mais ampliada do que é a mediunidade super recomendo. Também traz muitos questionamentos e importantes pontos de reflexão.
Para uma dissertação “filosófica” e “mística” sobre a experiência mediúnica na Umbanda, com clara e forte influência oriental, 3/5 Para um livro sobre Mediunidade, 1.5/5
Muito bom para médiuns iniciantes, e para quem tem aquel dúvida no fundo da cabeça de: ainda tô incorporado? religião ou espiritualidade? incorporar em casa?