Tudo começa na Primavera de 1833. Profundamente abalado por um desgosto de amor, o doutor Vasco Lacerda decide abandonar Lisboa para tentar curar o coração ao sol de uma nova vida, nos trópicos. Contudo, no decurso da sua viagem, vê-se arrastado, contra vontade, para o mundo da escravatura e toma contacto directo com realidades de que já ouvira falar, mas que nunca tinha sentido e percebido na sua verdadeira natureza. E trava, também, conhecimento com a gente que, para o melhor e o pior, povoa esse bárbaro mundo: Tarquínio Torcato, o cruel negreiro; Gaspar, o negro que odeia negros; Sara, a escrava que acende o desejo em todos os homens; Quisama, a pretinha que tudo quer aprender; Januário Paraíso, o velho cocheiro que canta canções de amor; e muitos outros e outras que enchem de afectos e de vida um universo de horrível desumanidade. Do Outro Lado do Mar leva-nos numa viagem emocionante por esse universo, dos sertões de Angola às fazendas do Brasil, do ventre do navio negreiro à fábrica de açúcar, e mostra-nos como mesmo nos sítios mais improváveis e nas situações mais extremas podem nascer e crescer a solidariedade, a abnegação e fortíssimas relações de amor.
JOÃO PEDRO MARQUES nasceu em Lisboa, em 1949. É desde 1987 investigador do Instituto de Investigação Científica Tropical e foi Presidente do Conselho Científico desse Instituto em 2007-2008. Doutorado em História pela Universidade Nova de Lisboa, onde lecionou a cadeira de História de África durante a década de 1990, é autor de dezenas de artigos sobre temas de história colonial, e de vários livros, dois dos quais publicados em Nova Iorque e Oxford (The Sounds of Silence, 2006, e Who Abolished Slavery? A debate with João Pedro Marques, 2010).
Do Outro Lado do Mar é o quarto romance histórico de João Pedro Marques e o segundo dele que eu li. E não será o último: seguirei com curiosidade e prazer a escrita desde romancista relativamente recente (Os Dias da Febre, publicado em 2010, foi a sua primeira obra de ficção).
O que é que me faz gostar de JPM? Primeiro, a sua erudição histórica que, no entanto, semeia na sua ficção com muita cautela e aos poucos, para não atordoar o leitor não especializado. E, por parecidos motivos, a ausência de anacronismos e imprecisões históricas tão frequentes em outros autores, alguns deles mais lidos e “bestsellerizados” do que JPM. Com este autor mergulhamos no século XIX e a sua vida quotidiana de maneira solvente e credível. Quanto ao estilo, parece-me singelo, sem grandes artifícios, mas muito cuidado.
Neste romance, a acção decorre nos primeiros anos da década de 1830 entre Lisboa, o Brasil e Angola, três lugares cuja história do século XIX o autor conhece bem. O protagonista, Vasco Lacerda, já não suporta a vida em Lisboa depois de um grande desamor. Decide pôr terra por meio e embarca para o Brasil mas, por azares imprevistos do destino, acaba em Angola, para depois, em circunstâncias tão trágicas como as da ida, acabar por regressar ao Brasil. Entre um e outro país, acaba por descobrir o mundo da escravatura. Aliás, os personagens negros do romance estão muito bem criados. Um desses personagens, a adolescente Quisama, que acabará escrava no Brasil com o nome de Clarice, chegou-me ao coração. A sua ingenuidade inicial, o sórdido choque do seu cativeiro e a sua grandeza de alma e capacidade de adaptação e superação constituem um percurso magistralmente descrito pelo autor. No entanto, Quisama não é a única protagonista da história. Um “dramatis personae” do romance daria uns noventa personagens, dos quais mais de vinte têm particular destaque.
Recomendo este livro a todos os interessados no mundo da lusofonia por volta de 1830. Lê-se com interesse crescente. Não debalde, o semanário Expresso declarou Do Outro Lado Mar uma das dez melhores obras de ficção publicadas em Portugal em 2015.
RESEÑA EN ESPAÑOL
Do Outro Lado do Mar es la segunda novela histórica que leo de este autor portugués y no será la última. João Pedro Marques, historiador con un doctorado, crea una trama verosímil y no incurre en los anacronismos a los que nos acostumbran algunos escritores que yo calificaría de “intrusos” en el género.
La novela arranca en la Lisboa de los primeros años de la década de 1830, donde el protagonista se siente incapaz de superar un desengaño amoroso que, finalmente, le lleva a partir. Por azares de la trama, que no siempre van conformes a la voluntad del héroe, los escenarios principales se desarrollan en Angola y en la bahía de Salvador, en el nordeste de Brasil. Se trata de tierras implicadas en el tráfico de esclavos (Angola como exportadora y Brasil como receptor) y el protagonista se ve envuelto en ese horror. Los ingleses, ya con preocupaciones abolicionistas, intentaban frenar el tráfico, pero los hábiles y crueles negreros tenían suficientes artimañas para burlar ese obstáculo.
Es, por tanto, una novela sobre la esclavitud, que todavía tardaría décadas en ser abolida. Blancos, negros, mulatos y algún que otro cafuna (mestizo de negro e indio brasileño) desfilan por sus páginas, donde nos sumergimos en odios, alguno que otro amor, y las más variadas pasiones. João Pedro Marques, documentalista riguroso, toma un momento histórico como marco pero no nos marea con fechas y batallas, sino que se centra en la recreación del día a día. Y, de esa recreación, lo que más me ha sorprendido es la fuerza que da a la tragedia de los negros. Un personaje, la adolescente Quisama (rebautizada en Brasil como Clarice) me ha enamorado. ¡Cómo ha conseguido el autor describirla! Su ingenuidad, la aceptación de su desgracia, las ganas de superación, su lealtad… Con el tiempo, como acontece con muchas otras obras, olvidaré muchos detalles de esta historia, pero Quisama se quedará en mi memoria para siempre. Y no porque sea el único personaje: he hecho un recuento de unas noventa personas que desfilan por sus páginas. Algunas son una simple mención en un momento puntual, pero muchas otras son un aliento constante en uno u otro momento de la acción.
He sabido que el semanario portugués Expresso ha declarado Do Outro Lado do Mar una de las diez mejores obras publicadas en Portugal en 2015. Yo le doy cuatro estrellitas y media y, como aquí no podemos marcar las medias, no se me caen los anillos por redondear la puntuación a cinco.
Numa época em que o tráfico de seres humanos para exploração laboral, prostituição e tráfico de órgãos, é um dos negócios ilícitos mais lucrativos do mundo, e continuando Portugal a figurar, infelizmente, como um dos países onde existem situações de escravidão laboral, este livro de João Pedro Marques vem recordar-nos o nosso passado triste como activos participantes no comércio de escravos negros provenientes de África para serem utilizados nas explorações de cana-de-açúcar, de algodão e de tabaco do Brasil no século XIX.
E trata-se de um excelente livro, que me despertou muito interesse desde as suas páginas iniciais até ao seu final, porque retrata com muita exactidão e de uma forma apaixonante, o rapto de negros em África por outros negros, mais precisamente em Angola, do seu transporte nos "navios negreiros" para o Brasil nas condições mais desumanas e degradantes que se possa imaginar, da sua venda e exposição como se de simples mercadorias se tratassem, e das condições de trabalho e de vida nas explorações e engenhos de açúcar, onde morrem de exaustão, de fome, de doenças e dos castigos cruéis que lhe são aplicados por fazendeiros, feitores e outros escravos, mas onde morrem sobretudo da falta de esperança em voltarem a ser livres, das saudades das suas terras e das suas famílias em África, e do sofrimento por os separarem dos seus filhos.
João Pedro Marques retrata-nos um mundo e uma época onde todos são culpados no perpetrar da escravidão, desde os traficantes negros e brancos, às autoridades locais e nacionais, aos comerciantes, aos marinheiros, aos donos de fazendas, ao clero, e até a quem é abolicionista, porque todos vivem num mundo cuja riqueza, conforto e bem-estar é proveniente da mão-de-obra escrava.
Mas neste mundo onde a desumanidade impera, também conseguimos comover-nos com histórias de amizade e de amor, e com personagens tão bem construídas que nos parecem reais: uma escrava negra cujo maior desejo é aprender, um homem livre negro que odeia e trafica escravos negros e que, após voltar a ser escravo, tudo faz para libertar os outros escravos das plantações, um médico branco e privilegiado, que depois de conhecer o âmago da escravidão, tudo faz para minorar o sofrimento dos escravos, não obstante sentir-se conivente com os exploradores.
E todas estas histórias se passam em cenários descritos com uma precisão cinematográfica, como se acabássemos de aterrar em Lisboa durante e após as guerras entre absolutistas e liberais, no mato do interior de Angola povoado por tribos rivais, em Luanda, na cidade vibrante de Salvador da Baía e nas fazendas de açúcar de Cachoeira (vila do interior situada não muito longe dessa cidade e junto a um rio).
João Pedro Marques mostra-nos neste seu quarto romance histórico que conhece muito bem a história de Portugal, de Angola e do Brasil do século XIX, mas que também é mestre em construir personagens e a misturar de forma harmoniosa o real e a ficção.
Quanto a mim, este é o melhor dos seus quatro livros, e sem qualquer desprestígio para os anteriores.
Belíssimo romance, passado no século XIX,"do outro lado do mar", que conta a história de amor entre um médico português e uma escrava mulata. A realidade dura do tráfico humano e da escravatura, e a consequente crueldade e desrespeito pelo outro, são o pano de fundo deste livro que nos conta que, em situações de extrema degradação, a fidelidade, o amor e o respeito pelo próximo são "a tábua de salvação".
É o segundo livro que leio do autor. O outro foi "Uma Fazendo em África" e prefiro, indubitavelmente, este. No presente livro entramos nos horrores da escravatura de africanos, não na que é mais conhecida, que sucedia nas Américas, mas no antes de lá chegar, no lado de cá, desde as profundezas de África, antes de chegarem os portugueses, antes de chegarem aos navios negreiros com a bandeira da minha pátria. A recordar que se fomos dos primeiros países a abolir esta escravatura fomos dos primeiros ou mesmo os primeiros a iniciá-la. Mas neste romance, entre os horrores há a flor da esperança e da humanidade. Entre a brutalidade, a mesquinhez e a hipocrisia. Com um retrato de uma cidade que adoro: Salvador. Da qual Jorge Amado bem descreveu que a raça dominante é o mestiço, fruto da sua envolvência nesta prática desumana. "Isto é o Brasil, não é Portugal, não! Outros hábitos, doutor. É indispensável que Vossa Senhoria tenha pelo menos dois negros para lhe carregarem uma cadeira de boa qualidade, e um criado para seguir junto. Aqui, quem sair á rua sem essa corte de africanos pode estar certo de que vai passar por miserável. Toda a gente tem escravos, até os antigos escravos, viu?” (p. 79) Onde também se encontra o insólito e o incrível de um médico anti esclavagista que é raptado para um barco negreiro (por muito feia que seja a expressão, é o seu nome) e através dele conhecemos a vivência nestes caixões flutuantes. E, também, quando sem embrenha numa fazenda como personagem privilegiada, permite sabermos o que se passava aí. Este é um dos temas mais difíceis para mim e há momentos em que pensei não continuar. Mas o autor tem a capacidade de levar leitores como eu adiante, a saber como vai acabar tudo isto. E desenrola as várias histórias que se entrelaçam de um modo que simplesmente não pude parar de ler. São de ressalvar as passagens profundamente humanas, os retratos psicológicos das personagens. “Dois dias depois, numa tarde em que os senhores tinham ido a São Félix, que ficava do outro lado do rio, regressou á biblioteca, apanhou um livro e contou-lhe, baixinho, a história de Kayongo, o feiticeiro que tinha um olho no meio da testa, com o qual podia ver coisas tão distantes que demorava três dias a chegar lá. Mas o livro nada lhe respondeu. Intrigada, encostou o ouvido ao papel, na esperança de conseguir ouvir o que o livro lhe tinha a dizer, mas ele permaneceu teimosamente calado. Talvez o livro dos brancos não quisesse falar com ela, por ser preta, admitiu, com tristeza. Saiu da biblioteca, pé ante pé para não fazer barulho. Estava desolada mas certa de que acabaria por deslindar aquele mistério.” (p. 172) O fim? Humano.
"Do Outro Lado do Mar" – Uma leitura comovente e imprescindível
João Pedro Marques apresenta-nos em Do Outro Lado do Mar um retrato arrebatador e profundamente humano do tráfico de escravos e da escravatura no contexto das colónias portuguesas. Através de uma narrativa envolvente e bem fundamentada, o autor transporta-nos para um passado sombrio, revelando com crueza e sensibilidade as experiências de sofrimento, resistência e esperança vividas por aqueles que foram vítimas deste sistema desumano.
O livro destaca-se pela forma como entrelaça ficção e história, oferecendo uma perspetiva íntima e realista sobre as complexas relações entre colonizadores e escravizados. A escrita de João Pedro Marques é direta e pungente, capaz de nos fazer refletir sobre as implicações morais e sociais deste período histórico, muitas vezes omitido ou romantizado.
Ao longo da narrativa, somos confrontados com dilemas éticos que transcendem o tempo, sendo impossível não questionar o impacto duradouro desta realidade na nossa identidade coletiva. Mais do que um romance histórico, Do Outro Lado do Mar é uma leitura essencial para compreender o peso do passado e os desafios da memória histórica.
Recomendo vivamente este livro a todos os que se interessam pela história, pela justiça social ou simplesmente por uma boa história que toca o coração e a mente.
O que dizer sobre este livro?... Não é mau, mas também não me arrebatou. Começou por me parecer uma grande lavagem da responsabilidade dos Portugueses na promoção e continuação da escravatura no século XIX, para o final melhorou um bocadinho. É um livro que fala da grande brutalidade dos senhores das grandes fazendas do Brasil, com um herói branco como não podia deixar de ser, mas com muito pouco suminho. Penso que esperava mais.
Já conhecia este autor por ter lido "Os Dias da Febre". Não surpreende que também nesta obra o contexto histórico seja muito bem elaborado, ou não fosse o autor historiador, mas a par disso a construção das personagens está bem feita e o enredo bem conseguido. Gostei de acompanhar o percurso das personagens, até se encontrarem todas no destino comum, uma fazenda no Brasil. Primeiramente visitamos Portugal do século XIX, em plenas lutas fratricidas entre absolutistas e liberais, e conhecemos Vasco Lacerda, o protagonista. De um jovem ingénuo, fútil e dado aos prazeres mundanos passará ao longo do tempo e da história por várias transformações até chegar ao final da obra como um homem maduro, consciente da sociedade que o rodeia e de qual o seu papel nela. O tema da escravatura é central na obra e começamos a conhecê-lo quando visitamos Angola e os raptos que eram feitos nas aldeias recônditas ordenados pelos reis (sobas) africanos para poderem vender aqueles homens, mulheres e crianças como escravos aos portugueses, que os enviavam em navios negreiros sem quaisquer condições humanas e de salubridade numa longa e penosa viagem até ao Brasil. O seu destino não melhorava nas fazendas e roças do Brasil, já que os castigos corporais, nomeadamente com o chicote no tronco, eram regra e todas as sevícias perpetradas pelos patrões e capatazes eram aceites socialmente como "um mal necessário para o bem dos pretos". Gostei particularmente da força das mulheres escravas, como Clarice e Sara (que acompanhamos desde Angola) e do negro Gaspar que começou como homem de confiança de um negreiro e, por revezes da vida, acabou como escravo e liderou uma revolta na fazenda.
Preciosa obra cujo ex-libris é todo o arsenal de conhecimento histórico que o autor tem não fosse um excepcional historiador. A contextualização da época é uma aula de história maravilhosa que complementa a riqueza das personagens e das suas relações.