Começar o ano com um baita livro é sempre bom. Na real, faltavam poucas páginas (cerca de cem) no último dia de 2021, mas eu sabia que não conseguiria terminar a tempo. Aliás, fico até grato de ter conseguido interromper o jejum de concluir livros em prosa, que perdurava desde agosto, após "Uma tristeza infinita".
Dez anos após esse livro ganhar o prêmio Médicis, sete desde que saiu no Brasil e o autor compareceu à Flip, percebo que o tempo só me ajudou a me conectar mais com a leitura. O tanto de vida que aconteceu nesse meio tempo: dá pra entender a razão de não ter devorado num primeiro momento. Mesmo que tivesse devorado, havia pouco com o que me relacionar.
Eu tenho alguns problemas com narrativas de pessoas muito privilegiadas, uma desconexão que muitas vezes me tira a capacidade de fruição (penso em "Call me by your name", que não tenho intenção de ler tão cedo). Felizmente isso não foi bem uma questão.
Hoje, várias coisas me deram chance de exercer a identificação exacerbada (ou empatia patológica) com o livro. Pensei muito na relação com meu pai ao ler a dele com seu respectivo (um pastor, outro um famoso editor, ambos em posição de poder). Pensei no apartamento de Simone e sua biblioteca e seus gatos de quem cuido de vez em quando como minha própria rua de Vaugirad. Pensei nos toques de Eric Novello, escritor que respeito, sobre como eu deveria me soltar mais, sem muitos julgamentos, na cidade grande.
Mas acima de tudo pensei muito em Elvira Vigna. Em vários dos trechos sobre o luto de Mathieu por Michel Foucault eu pude substituir o nome deste pelo dela. Também foi a primeira vez que realmente experimentei o luto, a primeira pessoa próxima de verdade que foi tirada de mim do jeito mais absoluto que se pode tirar uma pessoa da vida de outra, a primeira pessoa foda que amei com cuja ausência precisei me habituar pra conseguir seguir minha vidinha. Michel era meio que um pai pra Mathieu (e meio que não, porque não havia obrigação alguma de sangue na relação, ele fala muito disso), Elvira era meio que uma mãe pra mim (e meio que não, porque não havia obrigação alguma de sangue na relação, eu penso muito nisso). Porque era ele/a, porque era eu, essas coisas.
O livro é excelente por méritos próprios, sem esse monte de identificação. A tradução é elegantérrima, quase assustadora de um jeito "nunca vou conseguir escrever desse jeito". Mas daí lembro que ele já era um senhorzinho quando escreveu esse livro e que ele deve ter escrito de modo menos eloquente em sua juventude (queria ler esses livros): preocupações de quem quer ser escritor e talvez uma dia escrever algo assim pra Elvira. Eu ainda tenho muito tempo para escrever coisas mais pedestres e ir melhorando, sei lá.
Gostei muito do livro.