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Não Se Pode Morar Nos Olhos De Um Gato

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Em finais do século XIX, já depois da abolição da escravatura, um tumbeiro clandestino naufraga ao largo do Brasil.
Um grupo de náufragos atinge uma praia intermitente, que desaparece na maré cheia: um capataz, um escravo, um mísero criado, um padre, um estudante, uma fidalga e sua filha, um menino pretinho ainda a dar os primeiros passos... Todos são vencedores na morte, perdedores na vida.
O mar, ao contrário dos seus antecedentes quotidianos, dá-lhes agora uma segunda oportunidade, duas vezes por noite, duas vezes por dia.
Ao contrário do que pensam, não estão sós naquele cárcere, com os penhascos enquanto sentinelas, cercados de infinitos, entre o céu e o oceano. Trazem com eles todos os seus remorsos, todos os seus fantasmas. E mais difícil do que fazerem-se ao mar ou escalarem precipícios será ultrapassarem os preconceitos: os de raça, os de classe social, os de género, os de credo.
Para sobreviverem, terão de se transformar num monstro funcional com muitos braços e muitas cabeças; serão tanto mais deuses de si próprios quanto mais se tornarem humanos e conseguirem um estado de graça a que poucos terão acesso: a capacidade de se colocarem na pele do outro.

352 pages, Paperback

First published April 1, 2016

24 people are currently reading
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About the author

Ana Margarida de Carvalho

21 books57 followers
ANA MARGARIDA DE CARVALHO nasceu em Lisboa, onde fez a licenciatura em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa (1992). Viria a tornar jornalista, assinando reportagens que lhe valeram sete dos mais prestigiados prémios do jornalismo português, entre os quais o Prémio Gazeta Revelação do Clube de Jornalistas de Lisboa, do Clube de Jornalistas do Porto ou da Casa de Imprensa. Passou pela redacção da SIC e publicou artigos na revista Ler, no Jornal de Letras, na Marie Claire e na Visão, onde ocupa actualmente o cargo de Grande Repórter e faz crítica cinematográfica no roteiro e no site de cinema oficial da revista, o Final Cut. Leccionou workshops de Escrita Criativa, foi jurada em vários concursos oficiais e festivais cinematográficos e é autora de reportagens reunidas em colectâneas, de crónicas, de guiões subsidiados pelo ICA e de uma peça de teatro.

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Community Reviews

5 stars
99 (44%)
4 stars
76 (33%)
3 stars
33 (14%)
2 stars
7 (3%)
1 star
9 (4%)
Displaying 1 - 30 of 37 reviews
Profile Image for Sofia.
1,036 reviews129 followers
January 3, 2017
Primeira leitura de 2017.
Confesso que estive para desistir depois daquele primeiro capítulo, demasiado esforçado, em que a autora parece esquecer-se que não basta escrever bem, é preciso enfeitiçar os leitores.
Mas, como sou casmurra, continuei e, embora a escrita continue a parecer-me demasiado forçada em alguns pontos do livro, noutros flui mais livremente e consegue prender o leitor.
Contudo, começou mal e acabou pior: o final é vazio, inexplicável, inconclusivo.
Assim: 2 estrelas para o primeiro capítulo, 4 para o restante livro e 1 para o final.
Profile Image for Beatriz.
313 reviews98 followers
April 8, 2018
https://youtu.be/YKdhmIaFwl8

Um dos únicos livros de ficção escritos em português nos últimos anos que foi capaz de me chamar a atenção desde a primeira página. As referências ao Auto da Barca de Gil Vicente, texto que também adoro, em muito contribuíram para esse interesse precoce. Escrita emocionante, que lemos detalhadamente como se fosse de rajada. Personagens com histórias únicas e até literariamente inesperadas. Tudo é raro neste livro, na verdade. Nada segue padrões nem tradições.
Profile Image for Graciosa Reis.
539 reviews52 followers
Read
April 12, 2023
Terminada a leitura... ficam as personagens (sim, ficam na nossa mente, não desgrudamos delas), as emoções (fortíssimas), as perguntas (como pode o Homem ser tão cruel? Ter tantos preconceitos?)
O remorso do passado que alimenta as memórias deste grupo improvável, que sobreviveu a um naufrágio, deixá-los-á viver ou conduzi-los-á à morte?
A escrita de Ana Margarida de Carvalho transporta o leitor para uma viagem alucinante, arrebatadora, surpreendente e duríssima!
Recomendo!
Profile Image for Alexandra  Rodrigues.
238 reviews
December 25, 2024
Mais uma estreia; a minha primeira incursão na escrita de Ana Margarida de Carvalho. Não o designaria propriamente de "romance" - "Não se pode morar nos olhos de um gato" é uma espécie de crónica de viagem, em finais do séc. XIX, que relata um naufrágio. O dia-a-dia de difícil convivência entre o peculiar grupo de sobreviventes. As tensões, os preconceitos, os remorsos e dores que cada um carrega.
Escrita rica e personagens bem construídos.

"Deixa-me dizer-te os meus silêncios, sei que um dia os vais conseguir ouvir."
Profile Image for Paulo Matos.
16 reviews1 follower
February 4, 2017
Grandioso!
Um marco na literatura portuguesa.
Um tour-de-force inesquecível.
A inventividade linguística parece inesgotável. Quase podemos saborear as palavras.
Profile Image for Manuela.
173 reviews
March 11, 2022
O processo de imersão no livro foi demorado e até controverso porque ora queria desistir da leitura, ora lia os parágrafos em duplicado para absorver melhor as ideias. Não consegui tomar de imediato a história porque a leitura torna-se uma torrente linguística e exige que olhemos as palavras como um exercício de perfeição numa frase, num trecho, num capítulo inteiro.
É, realmente, um livro poderoso do ponto de vista da língua portuguesa mas fica assim confirmado que a minha leitura vai de encontro à simplicidade. Não que procure as histórias "certinhas, não é disso que se trata, mas procuro que a leitura se torne um exercício natural, em que vivo dentro do livro sem que isso seja uma espécie de matemática perfeita de palavras.
Sobre o conteúdo,  eu morei naquela praia, e senti o sentido de sobrevivência individual e comunitária, o que cada um é enquanto pessoa, o que leva consigo e até onde é capaz de oferecer, de dar aos outros. Não pude deixar de pensar nessa ordem natural imposta por uma existência maior, em que os fracos, os mais indefesos são sempre vulneráveis, estão sempre expostos ao que os outros impõem e determinam, os ditos mais fortes.  Tão depressa senti compaixão por uma personagem como no minuto seguinte senti repulsa e creio que isso era também a condição de uns e outros como náufragos, que se foram despindo de si próprios e renascendo noutro "eu". Morrer e nascer de novo, várias vezes, tantas quantas as marés.
Profile Image for Ana Ramos.
127 reviews14 followers
May 14, 2016
As expectativas em relação ao segundo romance de Ana Margarida de Carvalho eram elevadas, mas a autora superou-as todas com distinção. Poderoso, admiravelmente estruturado, este romance retoma alguns géneros clássicos da literatura - com especial destaque para as crónicas de viagem, os diários de bordo e relatos de naufrágios - para tecer a trama de um conjunto muito diversificado de histórias. Os sobreviventes do naufrágios, diferentes em género, estrato social, cor, origens, formação, surgem subitamente irmanados numa exígua praia. Será esse micro-cosmos que fará sobressair a humanidade de cada um, diluindo, no sofrimento dos dias e da luta pela sobrevivência, as diferenças. As histórias de vida de cada personagem, a lembrarem vagamente um Decameron ou um Heptameron, cruzam episódios marcantes de existências sofridas, uma espécie de Purgatórios paralelos que desaguam nas areias da última praia.
Profile Image for Ana Cristina.
30 reviews
October 1, 2023
Um livro que no início não é fácil, nunca tinha lido nada desta escritora e fui apanhada desprevenida com o tipo de escrita. Pensei até em desistir, mas não desisti e a partir de certa altura tudo começa a fazer sentido, a fluir e já não conseguimos deixar as personagens, porque nos são apresentadas pela escritora de tal forma que torcemos por elas e sofremos por elas. É um livro muito forte. É daqueles que fica connosco, não vou esquecer a história destes 8 náufragos.
Profile Image for Mario Soares.
220 reviews6 followers
September 16, 2018
É como se Lobo Antunes e Saramago, por fim, se dessem as mãos para construir um primor de narrativa, com uma sofisticação estilística digna da beleza da língua portuguesa.
Profile Image for Vivian Matsui.
Author 3 books20 followers
March 29, 2020
Lamento, realmente dar 3 estrelas nesse livro, pois estava com altas expectativas em relação à escrita dela, desde a primeira folheada, quando percebi uma ousadia formal dos parágrafos. Achava que ia ser algo extremamente poético e, sim, esperava um pouco de dificuldade, mas aquele desafio que é positivo.
Entretanto, cito aqui uma review que li: "a autora parece esquecer-se que não basta escrever bem, é preciso enfeitiçar os leitores." É bem isso. Percebe-se um trabalho imenso na escrita, na escolha das palavras, e na quebra da forma, às vezes demasiado cirúrgica, plástica. Houve muito exercício nisso. Mas e a história? Ela fica um pouco ou muito abandonada, sendo raras as vezes em que a leitura prende o leitor, ou mesmo provoca algum afeto que não seja tingido por uma carência de provar o tempo todo as firulas de escrita e a maleabilidade da linguagem, pondo isto em prioridade, do que a contação da história realmente. Sempre esta figura do autor muito presente a trabalhar nas palavras, de modo que não consegui, como leitora, mergulhar nela sem me desfazer dessa imagem clara, o tempo todo, de que o texto estava tecnicamente querendo me impressionar. É uma escritora de mão cheia, sem dúvida, mas aqui faltou um pouco de sentimento. Foi como uma música virtuosi superdifícil tecnicamente, mas que não me fez cantar ou dançar junto.
Profile Image for Emanuel.
14 reviews8 followers
February 13, 2022
Achei “Não se pode morar nos olhos de um gato” francamente melhor do que o romance de estreia “Que Importa a Fúria do Mar”, ainda assim há um caminho que Ana Margarida de Carvalho tem de fazer enquanto escritora e que o começou de uma forma antigravítica.
Se no primeiro livro há uma preocupação cega pelo constante brilharete estilístico e que falha redondamente porque o que brilha na escrita da escritora não é dela mas dos escritores que leu, neste segundo romance parece-me existir já alguma contenção e o exercício pelo dizer parece-me ir já num esforço de ser numa voz própria. Contudo, e com alguma regularidade, vemos a AMC a ser Saramago ou Lobo Antunes, estaria tudo bem se não desse ares de pastiche como acontece de forma quase permanente no primeiro romance e até com outros escritores.
O ser-se original é difícil quando se quer construir a casa pelo telhado e nota-se que há uma fome imensa na AMC. Aqui, parece-me que houve algum banho de humildade e que há um passo que é dado atrás, eu teria dado um ainda maior, mas foi o suficiente para eu ler o livro e achar que é este sim um bom livro e que por isso quero o terceiro.
É preciso aproximar a emoção do leitor sem cair nos lugares comuns que vemos a grande maioria a cair. Não se pede sentimentalismo barato ou lamechice, e nisso, estando este livro também melhor, ainda não chegou propriamente lá. Mas é muito bom ver alguém que pelo menos no que tenta não quer migalhas.
Profile Image for Susana.
48 reviews
January 9, 2018
Quando li o livro, dei-lhe 4 estrelas. Ao ter conhecimento do plágio realizado às cantigas de escárnio e aos diálogos do parvo do Auto da Barca, de Gil Vicente, sem qualquer referência às fontes, fiquei desiludida. Pelo facto, altero agora a minha classificação para 1 estrela. Fiquei sem motivação para ler quaisquer obras futuras da autora.
Profile Image for Maria Quintinha.
235 reviews5 followers
March 25, 2018
Muito bom. O início é algo difícil, mas tão bem escrito! Sente-se, cheira-se, imagina-se... As personagens, em especial a santa, revelam-se com "as tripas de fora", com tudo o que se tem dentro.
Imagino que a autora fique esgotada depois de escrever um livro assim.
E volto à escravatura. Mas é intemporal. A história da maldade é de facto a história da raça humana, e ainda hoje temos escravatura, por isso... Estes personagens desde a santa, ao escravo, ao capataz, ao homem que afinal é mulher mas que apenas sobrevive parecendo homem, podemos transpo-los em qualquer época.
E somos todos assim, nem bons nem maus, às vezes mais marcadamente uma coisa ou outra.
51 reviews
November 2, 2019
Esta autora surpreende pela forma de escrita, o livro começa com um naufrágio e uma violência muito vivida. A leitura é difícil, mas depois de entrar conseguimos sentir os momentos com muita interiorização. O livro continua com as vidas passadas de cada personagem que sobrevive ao naufrágio e mais uma vez histórias incríveis de sofrimento que são relatadas de forma surpreendente. Grande autora.Um livro a não perder.Vale mesmo a pena. Um exemplo dos grandes escritores que temos.
Profile Image for Joaquim Margarido.
299 reviews39 followers
February 21, 2021
“Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos”. Quando tendemos para ver na frase que abre a Declaração Universal dos Direitos do Homem uma verdade irrefutável, o pensamento estilhaça-se no sangue e nas bombas do Sudão do Sul ou do Delta do Níger, de Ghouta oriental ou da Faixa de Gaza. Vogando na vertigem de correntes desencontradas, entre certezas que teimam em afirmar-se e as muitas dúvidas que constantemente nos assaltam, buscamos refúgio num livro, aconchegamo-nos “nos olhos de um gato” e logo tudo se aclara. Na fome e na sede, no calor e no frio, na raiva e na dor, na vida e na morte, são nulas as diferenças. De cor e de género, de origem, de estrato económico e social. Na sua condição mais elementar, despojado do que é seu, posto a nu perante o próximo, fica o homem reduzido ao seu nome de baptismo e ao corpo com que veio ao mundo, livre e igual aos outros homens. É esta a verdade do romance de Ana Margarida de Carvalho. Uma verdade irrefutável!

Com “Não se Pode Morar nos Olhos de Um Gato”, oferece-nos a autora uma obra poderosíssima quanto à temática que aborda, assente numa linguagem extremamente cuidada e, sobretudo, num desenho narrativo engenhoso e imaginativo, que ora nos agarra pelas tripas, ora nos prende pelo coração. Arrojados a uma praia, estreita língua de areia cercada por altas e intransponíveis escarpas, um grupo de náufragos tenta, desesperadamente, sobreviver face à escassez de meios de que dispõe. Ritmando o seu quotidiano pelo vai e vem das marés – que lhes permite percorrer o areal duas vezes ao dia -, o grupo ora se ufana em garantir o parco sustento que retira do mar, ora se recolhe a um recôncavo elevado na rocha, gruta miniatural, abrigo precário das investidas das ondas. Em número de oito, os náufragos formam um microcosmos social à mercê das circunstâncias, obrigados, em nome da sobrevivência, a pôr de parte aquilo que os separa.

A leitura de “Não se Pode Morar nos Olhos de Um Gato” proporciona um prazer enorme da primeira à ultima página. Ana Margarida de Carvalho é inexcedível de generosidade na forma como detalha cada capítulo, pondo à prova os nossos fantasmas e preconceitos, as nossas convicções, os nossos medos. O “monólogo da Santa”, logo a abrir o livro, é disso o mais acabado exemplo. Chegamos a hesitar no momento de virar a página, de tal maneira é forte e impressiva a ladaínha de Nossa Senhora de Todas as Angústias, corpo de pau e cabeleira indígena, o caos sendo uma das ordens de Deus. Com tanto por dizer, tantas sensações por descrever, tantas imagens por contar, acrescentaria apenas que, tal como em “Que Importa a Fúria do Mar”, o anterior romance da escritora, Ana Margarida de Carvalho reincide no desenvolvimento de uma espécie de “private joke”, introduzindo, aqui e além, pequenas frases subtraídas às letras dos nossos cantautores. É assim que nos deixamos embalar na leitura pela trilogia da “Lusitana Diáspora”, de Fausto Bordalo Dias, do “Canto Dos Torna-Viagem”, de José Mário Branco, de “Os Conquistadores”, de Sérgio Godinho ou dum muito a propósito “O Navio Negreiro”, de Caetano Veloso, entre outros. Até mesmo com a voz de António Zambujo (ou terá sido com a letra de Maria do Rosário Pedreira?) é possível cruzarmo-nos por lá, num “pedaço de mau caminho”.


P. S. - No título, a frase recorrente do“Poema do Desamor”, de Alexandre O'Neill, é como um convite a uma pequena brincadeira: “Desmama-te desanca-te desbunda-te / mas não vais encontrar outro livro assim // Queixa-te coxa-te desnalga-te desalma-te / mas não vais encontrar outro livro assim // Arranha arrepanha apanha espanca / mas não vais encontrar outro livro assim”.
Profile Image for Alexandre Willer.
Author 4 books18 followers
May 27, 2020
A começar pelo título, este romance que arrisco chamar de épico narra o que poderia ser uma história banal: um navio negreiro clandestino naufraga em algum ponto da costa brasileira sobrevivendo apenas oito pessoas: um capataz/capitão do mato, um estudante, um padre, uma fidalga e sua filha, um criado, um escravo e uma criança negra.

O que poderia descambar para algum tipo de narrativa comum sobre luta de classes vide a clara distinção social entre os náufragos, acaba tornando-se muito mais que isso enquanto os ilhados vão, aos poucos, tomando consciência de que ali, as castas já não dizem muito valendo mais a aptidão de cada um para a sobrevivência.

Com firmeza e uma escrita contundente, Ana Margarida alterna entre a luta diária dos oito contra o mar que lhes ataca implacável, contra as necessidade de comer e beber, contra Deus que lhes foge entender porque ter colocado em tamanha provação, contra desejos da carne e do coração aumentados pelo micro-cosmo em que estão inseridos e, momentos isolados de cada um dos sobreviventes em que seu passado, suas máculas, crimes, falhas, despedaços, mentiras, angústias, sofreres e amores vão sendo relembrados naquele purgatório sem paredes ou fogo que não seja o da sede e da fome para lhes impor tormento eterno.

A prosa de Ana Margarida, ainda que se possa ecoar aqui e ali vestígios de grandes mestres, é tão sua e autêntica que prende dum fôlego nossa leitura e faz ansiar pelo desfecho dos ilhéus mas, ele é esperta e vai entregando seu ouro aos poucos em capítulos que não tem número mas títulos como se fossem algum tipo de diário de bordo feito pelos náufragos e deixado como evidência de sua existência.

Há um componente forte de luta social, obviamente, mas não é o mote principal do romance que deixa tais questões evidentes mas vai mais pelo caminho das torturas e falhas morais e da alma dos personagens, confrontados forçosamente com seus fantasmas ante a solidão induzida mesmo no meio de oito mais ou menos semelhantes.

Vale cada minuto de sua atenção.
Profile Image for Dália Da Silva.
122 reviews1 follower
March 26, 2023
Culpado punido é exemplo, inocente condenado é insulto.
Não são os deuses que dormem, nós é que os sonhamos.
... Era bom na brutalidade e, como devia à inteligência, sobrava na coragem, porque nem sequer tinha a sagacidade de antever os perigos.
O ridículo mina, vicia, infecta, decompõe. O ridículo pode ser o mais corrosivo destruidor de amores, devastador de lares.
Havia de encomendar todas estas questões ao criador, que é como quem diz engavetá-las e dar duas voltas à fechadura, com a chavezinha da fé. Que arrumação, que método, que descanso...
É a marca dos que sobem na vida, vindos das sargetas da sociedade, investem nas aparências mas continuam por dentro com um apego irrenunciável ao mísero.
Ensinara-lhe a nunca se enredar em nós de que mais tarde só se conseguisse desembaraçar com os dentes.
A recta é um desvio da natureza.
Quem só dá conta de pequenos males, enche-se tanto deles que acaba por não sobejar espaço para o mal grande.
Guardar uma lembrança é admitir que se pode esquecer.
Serão tanto mais deuses de si próprios quanto mais se tornarem humanos e conseguirem um estado de graça a que poucos terão acesso: a capacidade de se colocarem na pele do outro.
This entire review has been hidden because of spoilers.
Profile Image for Agostinho Matos.
189 reviews
August 31, 2020
Este romance situado entre os séculos XVIII e XIX é inicialmente narrado pelos olhos da santa que vai a bordo de uma nau que fazia o transporte ilegal de escravos, tendo o naufrágio ocorrido por poupança na calafetagem do navio para assim enriquecer o construtor naval, fazendo que numa simples tempestade o navio ficasse rápidamente inundado, resultando um caos em que muitos dos tripulantes morrem não afogados mas devido a lutas pela sobrevivência onde houve “o estrépito das armas, e lâminas a penetrar nas carnes…”.
A hostilidade agudizou-se quando um dos 3 cavalos do comandante inglês apesar de guardados por um corcunda, é esquartejado por elementos da sua tripulação esfomeada e sedenta, pois tinha mais afeição pelos 3 cavalos que lhe faziam render bom dinheiro, mas que eram cobiçados como apetitosa carne pelos restantes.
Reunidos todos no tombadilho para assistir a um banquete de causar cobiça, promovido pelo comandante tendo como convidados os seus passageiros, mesmo assim não aparecem culpados, acabando a transgressão por recair no filho do carpinteiro, não resistindo ao castigo de passar pela quilha do navio daí a pouco dá-se o alerta e tenta-se apressadamente construir uma jangada que podia levar mais de uma dúzia, mas que acaba por levar apenas o passageiro, o capelão, o capataz, o seu criado com o pretinho e as duas mulheres mãe e filha mais velha, já que o bebé ficou nos braços da escrava enquanto o navio se afundava, assim como o capitão que foi morto pelo pai do rapaz supliciado enquanto tentava desprender a jangada do navio se afundava.
Fica até ao fim a narrativa nestes sobreviventes do naufrágio, protagonistas do romance que surgem numa praia deserta cercada por falésias intransponíveis algures na costa brasileira, com as suas dicotomias de personalidade que revelam pouca afinidade entre eles (assim como para muitos leitores), pois são ao mesmo tempo inocentes e ardilosos, pacíficos e belicosos, benévolos e egoístas, delicados e rudes, esbeltos e feios, adicionando comportamentos de desesperança e angústia, vivências culpabilizantes, desamores e portadores de segredos obscuros. Este pequeno grupo de espectros naufragados, torna-se a multidão dos estereótipos de grupos sociais da sociedade brasileira do século XIX, que tinha tudo para dar errado mas terão de se aceitarem, fazendo da complementaridade o êxito para a subsistência na praia, em que alguns capítulos do livro fazem um retorno ao passado (flashback) para alguns desses personagens.

Nossa Senhora de Todas as Angústias - pode-se considerar uma personagem a imagem de madeira com cabelo de índia, que vai profetizando acontecimentos tempestuosos para a tripulação tal como um coro de uma tragédia grega.
Teresa - A fidalga que juntamente com os dois filhos e uma escrava ama-de-leite do filho mais novo, embarcou na desventurada nau, tendo perdido no naufrágio o menino de 2 anos do qual ela nunca soube a cor dos seus olhos, e que morreu juntamente com a sua inseparável ama, que era uma das muitas amantes do marido, resta-lhe a preterida e frágil filha adolescente mulher.
Emina - A filha da fidalga inicialmente com ar de velha por andar sempre recurvada devido ao segredo resultante do incesto consentido com o pai, para o qual escrevia cartas que acabavam lançadas ao mar. Embarcou para fugir da sociedade hipócrita, de modo a esconder a vergonha da gravidez. Para além da mãe, essa gravidez será descoberta pelo Julian, antes dos outros sobreviventes que ficam a par quando Emina inicia o longo trabalho de parto em plena praia que durará toda a baixa-mar, dará há luz uma menina já em maré enchente em condições dramáticas, a que deu o nome de Pancrácia.
O capataz – comparável a um gato (daí o título do livro?) e talvez por isso não se chega a saber o seu nome. Tinha como função acompanhar a família do seu patrão e os seus escravos. Foi morto pelas farpas da imagem de madeira que transportava, quando juntamente com Julian tentavam estender um cordame pela costa rochosa, de modo a terem um caminho de escapatória para uma praia contígua com acesso à civilização.
José - O criado do capataz que protege o seu segredo de género, praticamente adota o menino pretinho, revelando-se no decorrer do romance tratar-se de uma mulher com o nome de Maria Clara.
Marcolino - O Padre ou o Cura, era o filho mais novo de Brizida (a alucinada) e de, os seus irmãos Viçoso e Celestino eram deficientes profundos por motivo de doença.
Julien - O escravo que em tempos chegou a manipular juntamente com 2 amigos também escravos, uma grande proprietária abandonada pelos filhos e pelo marido.
Nunzio - O estudante, filho de um capitão-de-mato chamado Josefo, ficou órfão de mãe devido ao seu nascimento. Ele era muito mais inteligente que os irmãos que foram morrendo por diversos crimes e acidentes, abandona o pai e vende a propriedade da família a um casal de remediados que ficam com a ordem de expulsar um velho bêbado sem saberem que era o antigo dono fazenda. Em plana praia da escapatória, continua à praia dos penhascos que permite a libertação do grupo sobrevivente, Nunzio atrasa-se em relação ao restante grupo por se encontrar debilitado, e é ferido de morte por Julian a pretexto que o ia salvar. Morre na praia a implorar pelo olhar de Emina que nunca se volta e é amparada pelo seu rival, enquanto ao mesmo tempo sente o cheiro da falecida mãe através do amuleto de infância que tem rosas secas.
O menino pretinho – inicialmente com o nome de Francelino por ser filho da escrava Francelina (acusada de ter morta a sua proprietária), é revelado ser Henrique o seu verdadeiro nome, muito acarinhado por Maria Clara, mas é graças à amamentação da Teresa que não morre de inação.
Profile Image for Cat.
47 reviews
January 26, 2022
Este é daqueles livros que se me disserem: a autora levantava-se todos os dias às seis da manhã para ir para a torre do tombo investigar, eu digo: mentira. Esta é daquelas estórias que teve de ser soprada ao ouvido por entidades de outro mundo, todos os detalhes já completos. Não acredito que alguém possa ter isto tudo dentro de si. Ou se sim, quem és tu, Ana Margarida?! Não sei se este livro ganhou entretanto todos os prémios literários de Portugal e arredores, mas sei que li muito poucos assim. E não que de repente me apeteça ler todos os livros da autora, ou que seja um livro que dê prazer ler. Mas ser um marco da literatura em português ninguém lhe tira.
Profile Image for Washington Ricardo.
2 reviews
July 4, 2025
Um livro eloquente. Seu contexto é curioso, o espaço é também, seus personagens são curiosos e o texto parece que nunca acaba, é palavroso, sofisticado, por vezes lindo, por vezes cansativo, mas sempre uma aula de escrita, uma delícia ver a artista se deleitando com o seu ofício. Destaque para o primeiro capítulo, narrado em segunda pessoa por uma personagem tão curiosa quanto o livro todo, sarcástica e cansada do mundo. Uma pena que nos capítulos seguintes não conseguimos mais escutá-la.

Fico com 4 estrelas porque o final não me agrada, mas jamais deixaria de recomendar este livro para quem gosta de literatura.
Profile Image for Patrícia Bernardo.
285 reviews
June 25, 2023
"A vida é uma fila, o de trás empurra o da frente.(...)"

Comprei este livro, sem ler a sinopse, porque quando li "Que importa a fúria do mar" me senti envolvida e comovida pela história o que não aconteceu com este.

A autora escreve muito bem, descreve a vida, os remorsos que as personagens carregam e a dor que sentem, mas não me conseguiu cativar.

"Não são os deuses que dormem, nós é que os sonhamos."
Profile Image for Pi..
205 reviews8 followers
February 9, 2019
El libro está escrito de una forma muy particular, algo anticuada y enrevesada dificultando su lectura al inicio. Pero, luego, una vez se le coge el tiro, se lee bien y te encuentras simpatizando y curiosa con las mini-historias de cada personaje y luego con el destino de los pobre naúfragos en su conjunto.

Un buen libro.
Profile Image for Jose Garrido.
Author 2 books20 followers
December 16, 2022
Não gostei.
Já não recordava um livro que me tivesse custado tanto a ler.
Releio a badana. Encómio atrás de encómio. Prémios mil.
Porque será que se convencionou que uma linguagem arrevesada e uma pontuação inconvencional são condição sine qua non para a imortalidade literária?
Deve ser muito bom...
Profile Image for Armando Mendonça.
57 reviews7 followers
August 16, 2021
além do que já li por aí, que não é absolutamente nada despiciendo, antes pelo contrário, pode ser muito bom, estar muito bem escrito e ter uma densidade intensa, mas não gostei: será mais uma autora portuguesa que não voltarei a ler.
Profile Image for Maria Carvalho.
23 reviews3 followers
February 12, 2018
História de uns náufragos de um navio negreiro. No início foi um pouco penoso. Linguagem um pouco difícil. Mas conforme vamos lendo, melhora. Consegui chegar ao final e até desejar saber como acaba.
Profile Image for Maria Saraiva de Menezes.
Author 23 books17 followers
June 30, 2021
Desisti depois da cem páginas. Provavelmente, o problema será meu. O romance parece muitíssimo bem escrito. Eu é que não consegui perceber nada do que lá estava.
Displaying 1 - 30 of 37 reviews

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