Herberto Helder was born into a family of Jewish ancestry in the Portuguese Atlantic island of Madeira. In 1946 he traveled to Lisbon to complete his secondary studies and subsequently in 1948 moved to Coimbra to study Law at university. In 1949 he had changed to the Humanities University to study Romance Philology but dropped out after three years without completing the course. After returning to Lisbon he took up several temporal jobs, and got in contact with a circle of artists and writers such as Mário Cesariny, Luiz Pacheco, João Vieira and Hélder Macedo, known as the "café gelo" group . This group revolved around Surrealism which would inform his early writings. In 1958 his first book, O Amor em Visita, was published. In the following years he traveled and lived in France, Holland and Belgium taking menial and marginal jobs to survive. He returned to Portugal in 1960 and published some of his best books in the following years A Colher na Boca, Poemacto e Lugar, Os Passos em Volta and A máquina de emaranhar paisagens. In 1964 he participates in the organization of Experimental Poetry magazine. After the April Revolution he published Cobra, O Corpo, O Luxo, A Obra, Photomaton and Vox. The singularity of his poetry goes along with the personality of the poet: nowadays he abandoned public life, refusing prizes or interviews.
As vacas dormem, as estrelas são truculentas, a inteligência é cruel. Eu abro para o lado dos campos. Vejo como estou minado por esse puro movimento de inteligência. Porque olho, rodo nos gonzos como para a felicidade. Mais levantadas são as arbitrárias ervas do que as estrelas. Tudo dorme nas vacas. Oh violenta inteligência onde as coisas levitam preciosamente. O campo bate contra mim, no ar onde elas dormem — vacas truculentas, estrelas apaziguadas estrelas — e a inteligência, afinal selvajaria celeste sobre a minha respiração. Eu penso mudar estes campos deitados, criar um nome para as coisas. Onde era estábulo, na doce morfologia, fazer com que as estrelas mugissem e as poeiras ressuscitassem. Dizer: rebentem os taludes, enlouqueçam as vacas, que minha inteligência se torne terrífica. Unir a ferocidade da noite ao inebriado movimento da terra. Posso mudar a arquitectura de uma palavra. Fazer explodir o descido coração das coisas. Posso meter um nome na intimidade de uma coisa e recomeçar o talento de existir. Meto na palavra o coração carregado de uma coisa. Eu posso modificar-me. Ser mais alto que a corrupção. Campos abanados pelo silêncio. Alguém como eu mergulhando no que é o obscuro das vacas dormindo. Estrelas giradas, de repente mortas sobre mim. Penso alterar tudo, recuperar agora as colinas do mundo. Falando de amor, eu falo do génio destruidor. Falo que é preciso criar a velocidade das coisas. Que é preciso caçar flores, golpear estrelas, meter o sono nas vacas, desentranhar-lhes o sono, dar o sono às estrelas. Enlouquecer. Que é preciso recriar o criar, meu Deus, ser truculento. Ser simples e não o ser. Abandonar os campos, rodopiar a inteligência, a crueldade. Abro a porta para não esquecer esta absurda tarefa. Esta tão particular necessidade. Porque agora deixei totalmente de ser puro. Levanto-me para dar de comer quentes estrelas às vacas. Sou tão puro, meu Deus, tão truculento. É preciso principiar. Digo baixo o nome. Corto os pés das estrelas. Deixá-las na sua seiva estremecente. Digo baixo que é talento envenená-las. Minha alegria furibunda é a pureza do mundo. E é tão belo agarrar com os ossos que há dentro das mãos na ponta de um nome, e desdobrá-lo. Arrancar essa alma apertada. Porque eu sei o estilo de uma alma precisamente original. Corto as estrelas das vacas. Trago candeias para os campos extraordinários. Porque eu bato na porta com meu júbilo furioso. O amor acumula-se. É para dar o ardor em doce dissipação. Deus não sabe e sorri, esmigalhado contra o muro humano. Respiro, respiro. As coisas respiram. Esta oferta masculina vocifera na treva. Criar é delicado. Criar é uma grande brutalidade. Porque eu sou feliz. Durmo na obra. Só eu sei que a loucura minou este ser inexplicável que me estende nas coisas. A loucura entrou em cada osso, e os campos são o meu espelho. Esta imagem perfeita arromba os espelhos. Os nomes são loucos, são verdadeiros.
O actor acende a boca. Depois os cabelos. Finge as suas caras nas poças interiores. O actor pôe e tira a cabeça de búfalo. De veado. De rinoceronte. Põe flores nos cornos. Ninguém ama tão desalmadamente como o actor. O actor acende os pés e as mãos. Fala devagar. Parece que se difunde aos bocados. Bocado estrela. Bocado janela para fora. Outro bocado gruta para dentro. O actor toma as coisas para deitar fogo ao pequeno talento humano. O actor estala como sal queimado.
O que rutila, o que arde destacadamente na noite, é o actor, com uma voz pura monotonamente batida pela solidão universal. O espantoso actor que tira e coloca e retira o adjectivo da coisa, a subtileza da forma, e precipita a verdade. De um lado extrai a maçã com sua divagação de maçã. Fabrica peixes mergulhados na própria labareda de peixes. Porque o actor está como a maçã. O actor é um peixe.
Sorri assim o actor contra a face de Deus. Ornamenta Deus com simplicidades silvestres. O actor que subtrai Deus de Deus, e dá velocidade aos lugares aéreos. Porque o actor é uma astronave que atravessa a distância de Deus. Embrulha. Desvela. O actor diz uma palavra inaudível. Reduz a humidade e o calor da terra à confusão dessa palavra. Recita o livro. Amplifica o livro. O actor acende o livro. Levita pelos campos como a dura água do dia. O actor é tremendo. Ninguém ama tão rebarbativamente como o actor. Como a unidade do actor.
O actor é um advérbio que ramificou de um substantivo. E o substantivo retorna e gira, e o actor é um adjectivo. É um nome que provém ultimamente do Nome. Nome que se murmura em si, e agita, e enlouquece. O actor é o grande Nome cheio de holofotes. O nome que cega. Que sangra. Que é o sangue. Assim o actor levanta o corpo, enche o corpo com melodia. Corpo que treme de melodia. Ninguém ama tão corporalmente como o actor. Como o corpo do actor.
Porque o talento é transformação. O actor transforma a própria acção da transformação. Solidifica-se. Gaseifica-se. Complica-se. O actor cresce no seu acto. Faz crescer o acto. O actor actifica-se. É enorme o actor com sua ossada de base, com suas tantas janelas, as ruas - o actor com a emotiva publicidade. Ninguém ama tão publicamente como o actor. Como o secreto actor.
Em estado de graça. Em compacto estado de pureza. O actor ama em acção de estrela. Acção de mímica. O actor é um tenebroso recolhimento de onde brota a pantomina. O actor vê aparecer a manhã sobre a cama. Vê a cobra entre as pernas. O actor vê fulminantemente como é puro. Ninguém ama o teatro essencial como o actor. Como a essência do amor do actor. O teatro geral.