Até onde pode ir um escritor para contar a sua história?
Será possível escrever um livro com a própria vida? Transformar os próprios passos em capítulos, a identidade em um personagem e o mundo em leitores involuntários? Mais do que se perguntar tais questões, esses são os desafios que Edmundo Dornelles, desiludido revisor de textos e aspirante a romancista, se impõe.
Já depois dos 40 anos, tendo gasto o pouco dinheiro da herança do pai e vivendo num pequeno apartamento em uma zona degradada de Porto Alegre, o amargurado Edmundo não obtém respostas das editoras sobre os originais que produz compulsivamente e vai acumulando uma raiva contida contra editores, escritores, críticos, sociedade, quase a humanidade em geral. Ao se tornar revisor freelancer da Editora Record, tem um laivo de esperança: crê que com seu contato com a assistente editorial Tatiana Fagundes e os inoportunos pitacos que dá sobre as obras que revisa, enfim conseguirá espaço.
Só faltou o título nos brinda, magistralmente, com o seu narrador incontrolável disparando contra tudo e contra todos (do mercado editorial ao sistema judiciário), com lances de literatura policial, com cenas de tribunal e com humor, em um fluxo violento de pensamento, não deixa de refletir sobre estes e outros aspectos da literatura, do mercado editorial, da arte e até mesmo sobre questões cotidianas.
Reginaldo Pujol Filho nasceu em Porto Alegre em 1980. Publicou os livros "Azar do Personagem" e "Quero Ser Reginaldo Pujol Filho". É pós-graduado em Artes da Escrita pela Universidade Nova de Lisboa e mestre em Escrita Criativa pela PUCRS, onde cursa o doutorado. Ministra cursos de escrita e colabora com resenhas e ensaios para a imprensa.
Aí você se pega incorporando ao teu vocabulário a expressão "por Nietzsche" e palavras como "estultice" e "caterva" começam a passar pela tua cabeça. Você bebe pouco e fuma menos ainda mas sente a vontade inexplicável de acender um "poderoso Hilton" e de deixar que um gole de conhaque atice a tua garganta, provoque as tuas tripas. Então você entende que Edmundo Dornelles e sua voz narrativa são tão poderosos que tomaram conta de você e vão conviver contigo ainda por um bom tempo, tirando tua paz mesmo depois de você fechar esse livro. Um personagem que é o típico chato de estimação: não deixa de ser intrigante como ele consegue despertar simpatia e antipatia em níveis tão extremos e conflitantes. E quando você pensa que o discurso dele já não tem mais pra onde te conduzir, eis que a narrativa se/te vira pelo avesso e te empurra pra esse mundo em que, como o próprio Edmundo diria, nem uma pessoa com RG parece tão real quanto um personagem.