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A Vida no Campo #1

A Vida no Campo

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Um homem e uma mulher. Um jardim e uma horta. Dois cães. Ao fim de vinte anos na grande cidade, Joel Neto instalou-se no pequeno lugar de Dois Caminhos, freguesia da Terra Chã, ilha Terceira. Rodeado de uma paisagem estonteante, das memórias da infância e de uma panóplia de vizinhos de modos simples e vocação filosófica, descobriu que, afinal, a vida pode mesmo ser mais serena, mais barata e mais livre. E, se calhar, mais inteligente.

232 pages, Paperback

First published May 1, 2016

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About the author

Joel Neto

22 books159 followers
Joel Neto é autor dos romances "Arquipélago" (2015), "Os Sítios Sem Resposta" (2013) e "O Terceiro Servo" (2000), para além do volume de contos "O Citroën Que Escrevia Novelas Mexicanas" (2002) e de vários outros livros de diferentes géneros. Publica semanalmente no jornal "Diário de Notícias" a coluna "A Vida No Campo", série de relatos sobre o seu próprio regresso à Terra Chã, freguesia rural da ilha Terceira (Açores), e é cronista permanente de vários diários portugueses e da diáspora portuguesa. Antigo jornalista, trabalhou na imprensa, na televisão e na rádio, nas qualidades de repórter, editor, comentador e anfitrião, tendo ligado o seu nome à maior parte dos principais meios de comunicação social portugueses. "Arquipélago" (ed. Marcador/Os Livros RTP) mereceu rápido aplauso da crítica e do público, esgotando a primeira edição ao fim de duas semanas.
O seu último livro, "A Vida no Campo (ed. Marcador), publicado em Maio de 2016, esgotou a primeira edição ainda antes de chegar às livrarias.

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Profile Image for Teresa.
1,492 reviews
October 7, 2016
Por vezes, sinto remorsos por comprar e ler tantos livros e tão poucos dos actuais autores portugueses. Os que tenho lido ultimamente esforçam-se tanto por ser inovadores e criativos que me consomem a paciência de tédio e de irritação com as suas prosas poéticas que me soam a falso; parece que escrevem umas frases soltas, as colocam na "Bimby", tapada com um dicionário de palavras difíceis, e servem uma sopa insossa que sabe sempre ao mesmo.
E, nesta descrença do que se escreve em português, acabo a medir, ignorantemente, todos pela mesma bitola. Tenho sorte porque entre mim e os livros existe um feitiço inexplicável. Há dias ao procurar um título, numa estante de uma livraria, verifico que "A vida no campo" está fora de ordem. Tirei-o para o arrumar no sítio certo (sim, faço sempre isso) mas antes abri-o, gostei muito do que li e, inevitavelmente, trouxe-o para a minha estante, onde ficará guardado no Cantinho dos Especiais.

Gostei muito de ler estas crónicas, ou diário, ou contos sobre as tradições e paisagens açoreanas mas, principalmente, sobre gente simples e autêntica com quem me identifiquei e me deixaram com saudades de outros tempos da minha vida.
Nasci na província, por vezes sonho, mas rapidamente acordo, um dia abandonar Lisboa e passar o resto dos meus dias numa aldeia. Agora demoro mais tempo a despertar...
Nunca pensei visitar os Açores. Agora penso diferente...
Quase todas as crónicas me estamparam na cara um grande e enternecido sorriso (às vezes gargalhada) que secavam uma ou outra lágrima (às vezes choro) que, rebelde, me escapava dos olhos.
Que mais se pode querer de uma leitura?

Quem vai, certamente, gostar deste livro:
- Os que já viveram no campo; os açoreanos; os portugueses; os que gostam de gente.
- Os que gostam de ler um bom livro; os que gostam de ler e, até, os que não gostam muito de ler.

Ah, estava a esquecer-me de dizer que Joel Neto escreve maravilhosamente bem. A sua prosa soube-me como uma saborosa alcatra cozinhada em fogo lento e servida "fumegante, num alguidar de barro de cujo interior provinham diferentes odores a infância e a flores."
Profile Image for Ana.
230 reviews93 followers
February 21, 2017
Pelo meio desta leitura lembrei-me de uma canção cujo refrão reza assim:

Felicidade é uma cidade pequenina
é uma casinha é uma colina
qualquer lugar que se ilumina
quando a gente quer amar...


chama-se "Pão e Poesia". Este A Vida no Campo também tem algo de pão e poesia.

É um livro construído sob a forma de curtas entradas de um diário (com não mais do que uma página a uma página e meia) que nos fala sobre a vida numa região rural da ilha Terceira, nos Açores - as gentes e o seu quotidiano, os saberes e os sabores, as paisagens, o clima, o fluir das estações. Fala-nos do regresso do autor às suas origens, à terra onde nasceu, à casa onde passou a sua infância e parte da sua juventude. Das memórias do passado e da vivência do presente. Não senti, contudo, que se tratasse de uma obra meramente regionalista, na medida em que há um carácter de universalidade subjacente aos episódios relatados, aos personagens retratados, às reflexões partilhadas, às pequenas coisas que permitem apreciar e viver a vida em moldes mais simples e genuínos. Bateu-me a nostalgia da infância e das férias de verão que em parte passava na aldeia dos avós maternos, desfrutando de espaço e liberdade impossíveis de usufruir na cidade.

Para além do conteúdo, em que o autor se expõe com um despojamento quase comovedor, adorei a escrita condizente - cuidada mas simples, sem artificialismos estilísticos e, sobretudo, de uma sinceridade e de uma delicadeza que vão directas ao coração. Fiquei encantada e espero em breve poder ler o seu Arquipélago.

Pão
Hoje, ando com meia dúzia de euros no bolso. Aproveito o pão de um dia para o outro. Aponto o frasco do champô à palma da mão e meço uma noz. Não é gosto na privação nem tão pouco será ainda o dom da avareza: é horror ao desperdício. Podia ter sido a cidade a ensinar-mo. Foi o campo.

e poesia
Quem me falava das estrelas era o meu avô. Punha-se no jardim a dobrar o lenço-da-mão, e fazia o seu ar pesaroso. Falava-me de Cassiopeia, das Ursas, de Andrómeda. [...] Em Lisboa era difícil ver as estrelas. Eu vinha à varanda com o gin na mão, para impressionar as raparigas, e não encontrava uma fosse. Creio que foi aí que comecei a dividir as terras entre aquelas onde se pode ver as estrelas e aquelas onde não se pode.
Profile Image for João Carlos.
670 reviews317 followers
Read
June 8, 2016
https://youtu.be/QSJcDL2abP8

Um dos melhores booktrailer realizado em Portugal...




No dia 28 de maio de 2016 tive o prazer de conhecer e falar com o Joel Neto na 86º Feira do Livro de Lisboa.
O ”Arquipélago”, a vida na Terra Chã, na Ilha Terceira e os amigos comuns dominaram a nossa conversa.
Já abri e fechei algumas dezenas de vezes este "A Vida no Campo".
Está difícil começar a lê-lo…
Vivi - estudei Engenharia Agrícola no Departamento de Ciências Agrárias da Universidade dos Açores, na Terra Chã - e trabalhei durante seis anos na Ilha Terceira.
Passei na Ilha Terceira - entre 1985 e 1991 - os melhores anos da minha vida.
Nem sempre é fácil recordar o passado; em particular, quando nos relembra e remete, exclusivamente, para as excelentes memórias e para as inesquecíveis recordações.
Profile Image for Tânia Tanocas.
346 reviews48 followers
March 4, 2017
Quem se lembra dos rebuçados flocos de neve? Pois bem, o Joel não fala de flocos de neve no seu livro, mas eu lembrei-me deles porque me recorda a minha bisavó e avós, havia sempre um punhado deles para me oferecerem quando os visitava no campo (alentejano), obstante disso, devem de saber que se colocarem um na boca é quase impossível trincar, por isso a única solução é ir sorvendo o doce que vai saindo da bola redondinha que só assim vai minguando até desaparecer.

Mas perguntem você, Tânia o que é que os flocos de neve têm a ver com o livro? Eu respondo, tudo e nada. Para mim, "A Vida no Campo" foi como colocar um rebuçados destes na boca, de início quis trincar, mas quase fiquei sem "dentes", por isso tive de sorver o aroma desta leitura tão lentamente para tirar o máximo prazer possível deste doce. No fim fiquei tão consolada, que logo surgiu a frustração de não ter mais nenhum floco de neve para sorver.

Não dei as 5* porque tive momentos em que não consegui ter empatia com o campo dos Açores, talvez porque não o conheça, às vezes o facto de conhecer algo que toca aos outros, também é benéfico para quem esta a acompanhar a sua jornada. Para mim só existe uma pessoa que consegue aquecer o meu coração ao falar do campo, de um campo que eu bem conheço, o campo Alentejano e lamento mas não é o Joel, mas se calhar até tem conhecimento para isso, a passagem de ano em Marvão conseguiu dar um cheirinho de como o campo alentejano também é único, assim como o campo Açoriano.

Foi um Carnaval muito bem passado... ;)

Opinião completa aqui: http://baudatanocas.blogs.sapo.pt/a-v...
Profile Image for Ana.
751 reviews114 followers
March 24, 2017
Andei a ler devagarinho, para o fazer durar, mas o inevitável aconteceu, e acabei agora mesmo de ler as últimas páginas deste livro. Fiquei um bocadinho triste, fico sempre, quando um bom livro chega ao fim.
O livro é bom, não apenas porque está muito bem escrito (condição essencial), mas porque ao lê-lo, sinto-o como verdadeiro. Não no sentido de se tratar de uma espécie de diário, e à partida, por definição, relatar principalmente acontecimentos reais. Senti este livro como verdadeiro, porque tudo o que li me soou franco, sem artifícios para parecer mais bonito, elaborado ou, de alguma forma, melhor. Até porque não era preciso. Ao falar da terra e das pessoas que ama, com as suas virtudes e defeitos (as que ainda cá estão, mas as outras também - ou principalmente as outras), Joel Neto como que nos deixa partilhar este diário, e torná-lo um bocadinho nosso. Para mim, que também troquei a cidade pelo campo, torna-se fácil ajustar estas páginas à minha realidade, sem que, com isso, elas percam valor. Imagino que para outros, que gostariam, mas não podem (por enquanto?) fazê-lo, o livro se torne ainda mais valioso.
P.S. Entretanto, já não estou tão triste, lembrei-me que ainda tenho ali o "Arquipélago" para ler ;)
Profile Image for Susana.
542 reviews181 followers
April 16, 2017
Gostei imenso!

Só tenho pena de já ter acabado, devia ter lido mais devagar, para saborear melhor, mas foi impossível porque fiquei completamente envolvida pela escrita irrepreensível, pela emoção que transpirava de cada página, e pelo humor revestido de ternura que, quase invariavelmente, o autor entreteceu nas histórias que nos conta.

Este livro é uma espécie de diário de Joel Neto ao longo de um ano, a viver no Lugar dos Dois Caminhos, na Ilha Terceira. Mas é um diário muito especial, cheio de memórias, de reflexões, de episódios do quotidiano e da História desta ilha, recheados de personagens deliciosos e até de receitas que também devem sê-lo!...

Eu também troquei a cidade pelo campo - embora more numa vila e não numa aldeia ou num lugar - e sorri compreensivamente ao ler algumas passagens, mas penso que mesmo quem não esteja nesta situação não deixará de se maravilhar com este livro.

Vou seguramente ler Arquipélago mais tarde ou mais cedo e espero que o autor continue a escrever a este nível.
Profile Image for Roberta Frontini (Blogue FLAMES).
387 reviews65 followers
June 9, 2016
Opinião no FLAMES - http://flamesmr.blogspot.pt/2016/06/l...

Leitura de trecho - https://www.youtube.com/watch?v=kEevh...

Joel Neto demonstrou-me, mais uma vez, que é um dos melhores escritores portugueses da actualidade. O que mais gostei foi a complementaridade que esta obra tem com o Arquipélago!
Tenho partilhado algumas frases e fotos no instagram :) podem ver o que já postei até agora.
https://www.instagram.com/p/BF_MndowCSl/
https://www.instagram.com/p/BF3m6wdQCSh/
https://www.instagram.com/p/BFue8k3wCe5/
https://www.instagram.com/p/BFlloGhwCdI/
https://www.instagram.com/p/BGJ4-v8QC...
Profile Image for Rosie.
463 reviews56 followers
February 9, 2018

Terra, Água, Sol, Vida! Natureza! Essência!

Vislumbra-se a natureza luxuriante! Senti que revisitei os Açores. Destino que para mim se assomou como uma paixão à primeira vista. Apenas conheci a Ilha de S. Miguel. E ficou um amor, uma empatia, que me desconcertou. Ficou uma vontade imeeeeeensa de lá voltar, de conhecer as outras ilhas. E estes relatos incitam-nos mais ainda.


Esta foi a minha estreia com este nosso escritor.

Fui sendo apresentada aos conterrâneos de Joel, aos vizinhos, aos amigos, aos conhecidos, mas não fiquei a conhecer ninguém verdadeiramente. Um rol interminável de nomes, muitos nomes! De pessoas, de lugares, do comércio local, de cafés, de restaurantes, de animais, de plantas… enfim, o registo do livro é como se de um diário se tratasse. Pensava que ia encontrar uma narração com um fio condutor, mas encontrei situações do quotidiano mais ou menos aleatórias. Idealizei outro formato na minha cabeça e por essa razão senti-me um tanto desapontada. Prefiro ser surpreendida daí pesquisar o menos possível sobre o livro. O erro terá sido meu…

Alguns relatos são absolutamente encantadores, outros menos impactantes.

Mas ressalvo que a escrita é deliciosa, as gentes, os sabores, as cores, os cheiros daquele paraíso que é os Açores, está todo lá. A simplicidade das vidas, a autenticidade! Os conhecimentos e a sabedoria popular, passada de geração em geração, e que é simplesmente extraordinário!

Fiquei empolgada por conhecer o outro livro de Joel, Arquipélago. Ficará para breve!
Profile Image for Sofia.
1,039 reviews128 followers
March 1, 2019
Primeiro livro que leio do autor e não vou ficar por aqui, com certeza.
"A vida no Campo" é uma espécie de diário de bordo de um ano de vida no Lugar dos Dois Caminhos, Ilha Terceira, Açores.
Nunca estive nos Açores (está na bucket list) e só me apetecia meter-me a caminho. Para além da parte gastronómica (foi uma "tortura" ler algumas passagens do livro), as descrições dos lugares e paisagens aguçam o apetite aos leitores (quero muito visitar uma floresta de criptomérias).
Por último, a parte que mais apreciei no livro: as Personagens. Merecem letra maiúscula.

"O Sr. Hermínio é uma personagem, e as personagens são sempre um milagre."
Profile Image for César.
230 reviews55 followers
October 4, 2016
Estas crónicas, em forma de diário, são uma preservação da memória, um encantamento com as coisas simples e a capacidade de valorizar o que nos é próximo.
Este é o verdadeiro segredo da felicidade. Encontrar a nossa no campo ou na cidade, tem a ver com as nossas raízes, a capacidade de dar atenção ao que importa e ignorar o resto. Joel Neto, que escreve com um grande lirismo intimista, tem uma grande capacidade de fazer isto mesmo, encontrou a felicidade no campo de uma forma que nos dá vontade de para lá ir.
Profile Image for Isabel Junceira.
1 review1 follower
September 14, 2016
“A VIDA NO CAMPO” de Joel Neto, vista do mar :) (li o livro nas férias de praia)

Há muito tempo que eu andava para me dedicar a este livro com o empenho que eu sabia que ele merecia. Já conheço a escrita do Joel e acompanho com regularidade as suas crónicas no DN, pelo que queria saborear, ao ínfimo pormenor, cada detalhe. Só o período de férias me o iria permitir, pelo que foi o primeiro que li (de uma assentada!), mal o iniciei!
Um livro carregado, a cada linha, da mais preciosa sabedoria, a sabedoria retirada da humildade do olhar atento que poisa nas coisas simples da vida, da rotina, do dia-a-dia.
Há que referir que o livro irrita um bocadinho ( :) ) pois o Joel faz-nos cair no triste assumir da nossa irreflexão e descuido à atenção de que o que sempre vimos e nos tocou tanto - sem o sabermos, assim - se sente e descreve exactamente como ele o faz! Com simplicidade e uma limpidez cristalina e honesta, lavada.
Permite-nos ainda uma sedutora e tranquila “viagem” aos Açores, à ilha Terceira, à identidade e aos costumes e hábitos ancestrais de gentes tão da terra, necessariamente, sempre do mar, destes “alentejanos que aprenderam a nadar”, como o descreveu o Fernando Alves na apresentação do livro na Fnac (com esta comparação fiquei rendida de imediato, dúvidas houvesse).
Um livro com uma cadência serena e aconchegante, sempre premiada por sentido de humor que nos arranca permanentes sorrisos e gargalhadas. Que nos faz bem.
Um livro que cheira a almas limpas, a gente boa e de bem, ao que de mais puro herdámos das gerações que nos antecedem, ao que queremos deixar de mais digno aos que nos precedem.
"Aqui vêem-se muito bem as estrelas. Até numa noite de Outono como esta, em que fumo um cigarro e penso no meu avô e no modo pesaroso como dobrava o seu lenço de mão, para disfarçar a esperança. Quase sinto pena de ter descoberto, entretanto, que o Sete-Estrelo não é uma constelação, mas um simples aglomerado. No fundo, não me importo, as mentiras em que as pessoas sustentam a sua felicidade são tão válidas como as verdades" -Joel Neto in A Vida no Campo
Claro que é um livro para se ler de imediato! O que nos faz bem merece-nos sempre!
Profile Image for Márcia Balsas.
Author 5 books105 followers
November 7, 2016
Li Arquipélago. Viajei na Ilha Terceira. Trago memórias de umas férias especiais e na bagagem veio A Vida no Campo.
Este texto será breve. É apenas uma anotação do tanto que gostei e me deixei envolver pelas histórias e reflexões do autor. A Vida no Campo é um diário de alguém que deixou a cidade depois de vinte anos a corresponder às exigências da carreira, a viver no meio do ruído, a não ter tempo sem disso se aperceber. Assim como eu e tantas outras pessoas.
Ler este livro não é só um passeio na fantástica ilha Terceira. É uma tomada de consciência. É um acordar meigo para o que a vida poderá ser. Um empurrão para quem queira ser empurrado, ou se vá deixando empurrar pela perspectiva do plano. Mudar de vida é possível apesar das dificuldades, muitas delas criadas pelos próprios receios.
Para mim, além de uma (boa) provocação dado que anseio por uma paz semelhante, foi um complemento à minha viagem. Foi-me arrancando sorrisos e suspiros quando lia sobre alguns dos locais que visitei, dos restaurantes onde comi, e que me foi abrindo (ainda mais) o apetite para a admirável gastronomia, dado que Joel Neto não se poupa a discrições suculentas do que lhe vai passando pelo prato.
Vacas, igrejas, mil tons de verde, neblinas misteriosas, personagens de Arquipélago (desconfio que encontrei algumas neste Vida no Campo), voltaram para mim a cada página. Regressar aos Açores é um dado adquirido, até lá a viagem faz-se em releituras.
http://planetamarcia.blogs.sapo.pt/a-...
Profile Image for Alexandra Machado.
62 reviews15 followers
February 7, 2017
http://gira-livros.blogs.sapo.pt/opin...

A minha curiosidade a respeito de Joel Neto, nascido na ilha Terceira, iniciou-se mal comecei a ler críticas maravilhosas sobre o seu romance Arquipélago e, mais tarde, também sobre A Vida no Campo. Claro que as minhas artérias, veias e capilares açorianos começaram logo a pulsar a um ritmo alucinante face à possibilidade de me reencontrar no que Joel Neto passava para o papel. Ainda não tendo lido Arquipélago, mas terminada a leitura de A Vida no Campo, sei que comecei pela obra certa. Esta foi a abordagem ideal à escrita de Joel Neto, que tanto me fez recordar e emocionar.

Ao longo de quatro estações, Outono, Inverno, Primavera e Verão, Joel Neto mostra-nos como foi regressar à ilha onde nasceu e à casa onde passou os primeiros anos da sua vida, até vir estudar para Lisboa, embora, na altura em que começa este livro-diário, Joel já se encontre há cerca de dois anos a viver na ilha Terceira com a mulher Catarina, o cão Melville e, mais tarde, a cadela Jasmim.

Tinha acabado de chegar, ao fim de duas décadas de viagem. Nunca deixara de comer alcatra (...) mas comê-la na cozinha da infância, servida desta vez não a um filho de visita mas a um filho regressado, foi como começar de novo. Sabia-me a terramotos e a redenção.

Em A Vida no Campo fazemos uma visita à infância, adolescência e início da vida adulta do escritor, ao mesmo tempo que nos são relatados episódios do seu dia-a-dia, essencialmente no Lugar dos Dois Caminhos, na Terra Chã, e as relações que mantém com as gentes da terra. Gostei especialmente dos relatos da magnífica relação que teve com o seu avô açoriano (muito especial para mim, que não cheguei a conhecer o meu). Dei por mim, diversas vezes, a deixar cair umas lágrimas aqui, outras acolá, perante a magnífica experiência que Joel Neto me proporcionou ao regressar a uma ilha que não a minha, mas, no fundo, à terra onde pertenci e com a qual me sentia profundamente desligada.

Na cidade, receber o carteiro é um incómodo. Uma pessoa tem de levantar-se da cadeira, para abrir a porta, e já é uma maçada. Aqui há sempre uma espera, uma suspensão no tempo - uma expectativa. Fazem-se conjecturas sobre a hora em que o carteiro chegará. Cultivam-se sonhos quanto ao dia em que trará a encomenda. Eu vejo nisso uma beleza.

Uma casa na aldeia está sempre em obras porque está sempre em risco. A natureza vem por ela dentro. A hera trepa as paredes. O bicho-sapateiro invade-a por baixo das portas. A humidade e o caruncho corroem-na devagar, para mais nestas ilhas. Uma casa na aldeia está sempre em obras porque essa é a sua maneira de sobreviver. A nossa. Habitamos um território de fronteira, e há poucas coisas tão viciantes como essa.

Não é que às vezes não haja estragos. Mas, como sempre, este povo acordará no dia seguinte e olhará para o que estiver desabado e reconstruirá aquilo que tiver de ser reconstruído e cozinhará uma alcatra para o jantar, que comerá a rir.

Achando de antemão que os açorianos irão ligar-se como ninguém a A Vida no Campo (sem qualquer pretensiosismo, só um bocadinho, vá), acredito que qualquer pessoa que já tenha tido algum contacto com a vida rural e/ou insular se irá agarrar com força a este livro e guardá-lo com carinho durante muito e muito tempo. Os restantes, bem, esses ficarão com vontade de ter contacto com a vida no campo o mais brevemente possível.
Profile Image for Célia | Estante de Livros.
1,188 reviews278 followers
January 8, 2019
Há imenso tempo que andava para ler algo do Joel Neto, depois de tantas e tão boas opiniões que tenho lido (e ouvido) sobre os seus livros. Havia qualquer coisa que me dizia que ia gostar muito e não me enganei. Decidi começar pelo seu livro de não ficção, uma série de crónicas escritas no espaço de um ano, maioritariamente a partir do Lugar dos Dois Caminhos, na Ilha Terceira, onde Joel Neto reside com a mulher e os dois cães.

Cada um dos textos não ocupa mais do que uma página, uma página e meia, e dão ao leitor toda a sensação de calma e da passagem lenta do tempo que associamos normalmente a uma vida vivida no meio da Natureza. A paisagem natural desta ilha açoriana é, ela própria, uma personagem sempre presente; ainda que nem sempre reclame para si o papel principal nas crónicas, a sua presença é latente e fundamental para todo o sentimento que percorre o livro. Parece, de certo modo, ser a cola que junta todos os textos e os ajuda a formar um todo.

Claro que as gentes e os costumes da terra ocupam também um espaço importante; há várias crónicas deliciosas sobre a forma como as pessoas levam a sua vida e sobre o que é ser terceirense. Visitei a Ilha Terceira em 2011 e é uma viagem que guardo no coração por motivos pessoais; ao ler estes textos, reconheci algumas coisas e fiquei com uma vontade imensa de regressar e explorar recantos escondidos. No fundo, de sentir o pulso àquela terra e às pessoas que lá moram.

A Vida no Campo faz também, amiúde, comparações entre os modos de viver no campo e na cidade. Teria sido fácil cair na tentação de enaltecer o campo em contraponto com a vida citadina, mas Joel Neto não o faz. Limita-se a explicar, direta ou indiretamente, porque é que o campo faz sentido para ele. Eu, citadina de gema e sem qualquer vontade de mudar de cenário, percebi perfeitamente o encanto do sossego, da Natureza, de uma vida longe da necessidade do ter cada vez mais e cada vez mais depressa. E há qualquer coisa especial na escrita de Joel Neto: uma qualidade evocativa, que parece conseguir de uma forma simples e sem o mínimo esforço. Gostei muito deste livro e mal posso esperar por explorar os seus livros de ficção.

Quem mudou o mundo não foram os camponeses honestos, que pagaram os seus impostos e encheram a igreja da freguesia no dia em que foram a enterrar. Dos aventureiros, dos inventores e dos facínoras – deles sim, reza a História.
Por isso se inventou a literatura.

Esta semana, o meu vizinho Rogério, que é continental, descreveu-me assim os Açores: «Um lugar onde nunca se chega e de onde nunca se parte.» Quem me dera ter sido eu a escrevê-lo.
Profile Image for FLAMES (Roberta Frontini).
435 reviews42 followers
September 11, 2016
Quem me segue pelo blog e pelas outras redes sociais sabe que quando eu descubro um autor que adoro ofereço-me para autenticas cruzadas cujo objectivo principal é obrigar todos os que estão à minha volta a ler as suas obras. Quando acabei de ler Arquipélago sabia duas coisas: 1) eu ía querer ler tudo o que Joel Neto escrevesse (incluindo a lista das compras se mais nada houvesse) e 2) eu ía empreender uma nova cruzada e obrigar todos a ler este livro.

Opinião completa - http://flamesmr.blogspot.pt/2016/06/l...
Profile Image for Carla.
185 reviews25 followers
December 7, 2017
Depois de ter lido o livro "Arquipélago" de Joel Neto, de que gostei muito, decidi ler "A vida no campo" do mesmo autor.

Também aqui, a ilha Terceira do arquipélago dos Açores surge-nos em cada canto e recanto da obra, que se trata de um diário, no qual o autor descreve-nos a terra onde nasceu e cresceu em todas as dimensões, desde as magníficas paisagens, o clima, a história, as manifestações culturais, as festas religiosas e pagãs, a gastronomia, a fauna, a flora, as aldeias, a cidade de Angra do Heroísmo, levando-nos a percorrer com ele nos seus passeios todos os lugares por onde, sozinho, ou com a sua mulher Catarina, passa a pé ou de carro. É uma espécie de viagem em que os leitores se tornam acompanhantes do narrador nas suas incursões por toda a ilha.

A acção do livro decorre no período temporal de um ano, começando no Outono e terminando no Verão, durante o qual o autor partilha com os leitores as razões que o levaram a regressar à casa que tinha pertencido ao seu avô e deixado Lisboa onde viveu durante vinte anos, procurando levar uma vida mais tranquila, em comunhão com a Natureza, mas sobretudo com a terra, pois, como o autor a certa altura diz, é a terra que permite salvar e reerguer os homens.

O autor fala com carinho daquilo que para ele é importante na vida, a família (em particular o avô e os pais), os amigos, os seus dois cães e a sua casa de aldeia (o seu verdadeiro lar), demonstrando uma particular admiração pelos açorianos trabalhadores e honestos que se cruzam na sua vida, como os agricultores, os padeiros, os carteiros, os proprietários de pequenos restaurantes e os "faz-tudo", os quais lhe consertam a mobília e lhe fazem toda uma série de reparações na sua casa e de trabalhos no seu jardim e na sua horta.

Os habitantes da ilha Terceira estão muito bem caracterizados neste livro, com o seu modo de ser muito particular e a sua linguagem muito específica.

A infância e a adolescência de Joel Neto são abordadas com nostalgia e saudade e percebe-se que este se sente tão em paz com a sua vida na ilha Terceira, que o regresso à mesma é definitivo, porque consegue conciliar o seu trabalho de escritor com os prazeres de trabalhar no seu jardim e na sua horta, de passear livremente com a sua mulher e os seus cães, de continuar a ter uma vida social e de receber e visitar os seus amigos.

Como o autor refere a certa altura no livro, a tranquilidade recuperada na ilha, permitiu-lhe voltar a conseguir dormir e a não ter insónias.

Durante e após a leitura deste diário, fica-se com vontade de se ir viver para um pequeno lugar numa ilha açoriana.

Apenas atribuí três estrelas a este livro, pois os diários não são, com muita pena minha, um dos meus géneros literários preferidos. Sabem a pouco, parece que falta qualquer coisa, provavelmente uma espécie de aventura que me leva a ler compulsivamente e a não conseguir parar a leitura. Talvez ainda não esteja preparada ou não seja ainda o momento certo na minha existência para uma vida no campo.
Profile Image for Clara Amorim.
58 reviews7 followers
May 21, 2016
Tal como aconteceu no seu último livro, "Arquipélago", com "A Vida no Campo" Joel Neto continua a maravilhar-nos com a paisagem e as gentes da Ilha Terceira, mostrando uma imensa sensibilidade na forma como as descreve. De tal forma que faz com que sintamos vontade de viajar para essa Ilha para também vivenciarmos toda essa beleza da vida do campo, com toda a sua simplicidade e encanto, mas ao mesmo tempo riquíssima de valores e emoções! Trata-se, na verdade, de um diário, organizado segundo as 4 estações do ano, mas que tem a sua própria narrativa, que nos leva a lê-lo de um só fôlego do princípio ao fim. Absolutamente imperdível!!!
Profile Image for Ana Santos.
Author 2 books23 followers
June 12, 2016
Às vezes tenho a sensação de que o escritor se sentou no meu jardim de infância e escreve a partir de lá. Este livro leva-me a revisitar a ilha onde nasci; e ainda mais, a minha vida. Volto à Terceira e a minha pare terceirense vibra. Não conheço o escritor pessoalmente mas oiço a sua voz enquanto o leio. Antecipo a ida física a lugares que conheço desde sempre (existiam antes de mim, como o Basílio Simões). Outros, nunca ouvi falar, afinal saí da terceira há 23 anos. Também, o revivo momentos e acontecimentos como é o terramoto de 1980. Situa-se numa das partes da ilha que menos conheço, a Terra Chã e freguesias limítrofes daquela parte de Angra do Heroísmo.
É o diário de um ano. Começa no Outono e sentimos a mudança de ritmo e de clima na sensibilidade da escrita. E inicia muito bem: “Quem mudou o mundo não foram os camponeses honestos, que pagaram os seus impostos e encheram a igreja da freguesia no dia em que foram a enterrar. Dos aventureiros, dos inventores e dos facínoras – deles, sim, reza a História.” (Anúncio)
Quem esperar o que teve em “Arquipélago”, de história intrincada, sofisticada e enredo, desengane-se. Penso que teremos que esperar uns tantos tempos. Em “A Vida no Campo” desfrutamos do pitoresco e do espirito da açorianidade, da observação, da análise da paisagem, da etnografia e até da História. São exemplos a influência da lua no corte do cabelo e na agricultura, as lendas como a Vaca dos Mistérios (não conheço esta mas outras semelhantes). As velhas! Esta expressão cultural cantada de que gosto imenso. E também como os sismos e as tempestades fazem parte do nosso quotidiano simples e normal.
Está cá tudo a que me habituou. Por exemplo, esta característica, tão nossa:
“Mas não deixei de registar que nem quando vão de carro para o trabalho, atrasados, acelerando pelos atalhos do mato, os homens da minha terra deixam de procurar o belo. Provavelmente, isso diz tanto sobre ela como todos eles.” (p.23)
E ainda mais esta, de extrema sensibilidade:
“As pessoas da Terceira, como eu, fazem um ar suplicante. As de São Jorge, como o meu avô, um ar pesaroso.” (p. 24)
A sensibilidade humana de Joel Neto é tocante. “No campo, quando uma sirene soa, os ocupantes têm sempre nome. Os próprios bombeiros têm nome.” (p. 31)
E a descrição sensorial do modo como sentimos as estações dos anos leva a tomar consciência de algo que sentimos mas não sabemos descrever assim:
“Os meus vizinhos não se lembram de que é Natal porque as ruas estão iluminadas ou que chegaram os Santos porque lhes cheira a sardinha. É o próprio tempo que fala com eles. Havendo nevoeiros, estamos provavelmente em Junho. Agitando o mar em levadia, então é Agosto de certeza.” (pp. 87-88)
Ou do seguinte modo:
“Os Açores são mais Açores num dia de temporal. E, depois, o sol extemporâneo tem sobre nós um efeito – o mesmo efeito que sentem esses que trabalham de noite e dormem de dia, e que a certa altura perdem mão na passagem do tempo.” (p. 126)
É também nesta capacidade genial de dizer o que todos sentimos e não sabemos como, que nos diz como os tempos mudaram em basicamente uma geração.
“Já ninguém anda de urbana. Os miúdos da classe média vão para a escola de carro. Os pobres nem sequer vão.
Há passageiros inválidos, doentes ou idosos, mas ninguém precisa de se levantar, porque não faltam cadeiras vazias. Não há senhoras grávidas nem com crianças ao colo, e se as houvr inspiram pena, porque ninguém que se preze anda de urbana.
(…)
Andar de urbana era outra coisa. Andar de urbana era uma inevitabilidade. Uma fronteira no tempo. Um caminho.
A vida era tudo o que acontecia quando não se estava a andar de urbana. Mais o que acontecia quando se estava.” (pp. 111-112)
Escreve o falar típico da ilha Terceira e eu oiço as pessoas. Por vezes penso que a riqueza dos vocábulos açorianos pode desaparecer. Graças a Joel Neto talvez não suceda. Pelo menos na Terceira e eu gostava que se passasse o mesmo nas outras ilhas. Devia haver mais pois cada ilha é tão rica! Por exemplo, este trecho, belíssimo:
“- Credo, aquele rapaz é um cegão…
- O que é um ‘cegão’?
- Está sempre a tecer!
- O que é ‘tecer’?
- É inticante
- Ah.
‘Urbana’ é a carreira urbana: o autocarro que vai das freguesias á cidade. Fora as horsa de ponta, leva sobretudo velhinhas: algumas aberrocidinhas, outras mais tenteadinhas e outras já encarreiradinhas.” (p. 22)
Sobre o tema, este trecho é delicioso:
“(…) o sotaque carregado dos terceirenses do campo: não pronuncia os ‘r’ nos finais dos verbos no infinito e arrasta as sílabas fechadas, acrescentando um ‘i’ ou um ‘u’ prolongado nas transições.
Gostava de saber como se chama a isto em fonética. Se me pedissem para baptizá-lo, só me ocorria preguiça (…)” (p. 128)
“Batata da terra”!!!! Há quanto tempo não ouvia o termo. Quase que já o esquecera.
Algo mais que Joel Neto tem é a sensibilidade é de não expor e muito menos alimentar a rivalidade entre as ilhas. Antes pelo contrário, como, por exemplo, quando escreve sobre a Marcha dos Coriscos: “Havia nos seus rostos uma admiração genuína, libertada após demasiados anos de bairrismos e de ódios. E havia alegria.” Nunca vi a atuação desta marcha ao vivo; tem sido sempre na televisão. Mas é precisamente o que sempre senti quando a vejo e subscrevo por baixo.
Também há receitas. Como a das Donas Amélias (a minha é um pouco diferente, essencialmente na adição de corintos), que inclui também a História da origem deste doce magnífico, um dos grandes embaixadores da extraordinária doçaria terceirense. E a das sopas do Espírito Santo. Há lá coisa mais deliciosa!!!
O sentido de humor e o ritmo que imprime à sua escrita é belíssimo. Creio que ilustra muito bem na mangueira que pode mudar a vida de um homem. E a sua opinião sobre as touradas à corda.
E as suas definições de emoções, acontecimentos e até instrumentos do quotidiano? Magníficas. Como a caixa de ferramentas: “(…) as caixas de ferramentas estão para o homem sem o que fazer com elas como as revistas de viagens estão para os viajantes sem tempo, dinheiro ou até vontade de viajar: são um substituto.” (p. 114)
Joel Neto observa, questiona e reflete como faríamos se tivéssemos o seu talento. No homem rude quando vê o mar, penso existir um ótimo exemplo da sua finíssima sensibilidade.
E aprendo coisas novas, o que me é indispensável como nos casos do melro-preto e de São Bento (o santo, não a freguesia) e a ganadaria de Humberto Filipe, que me deixa com curiosidade.
A sua descrição e até trocadilho com os nomes açorianos e, especialmente, os graciosenses é outra parte genial deste livro. O remate que lhe faz (tão bem dito!) retrata perfeitamente aquilo em que eu também acredito sobre os novos nomes que arranjamos para os nossos filhos nos dias de hoje (talvez desde que a minha geração começou a procriar).
Há várias partes cheias de humor. Como os coelhos na sua horta. Ou a comparação entre o seu cão e a avó. Ou, ainda, um casamento em São Sebastião. E a reação do valente que não tinha medo de andar de avião (esta fez-me dar uma gargalhada). E as seguintes passagens, que me fazem sorrir 5 minutos depois de acordar:
“Por mim houve um tempo em que não acreditava que o Planeta estivesse em desequilíbrio. Tinha a mania de que era liberal – o próprio efeito de estufa fora inventado em Porto Alegre, para chatear os capitalistas.
Ontem voltei a levar uma vergastada.” (p. 186)
…./….
“Eu alinho coo posso. Mastigo se respirar pelo nariz, dizendo a mim próprio que afinal é bom. Arqueio as sobrancelhas:
- Realmente, já não se podia com tanta carne.
Mas aquilo em que estou a pensar é num bolo de pé de torresmo.” (pp. 187-188)
Também escreve de modo intimista e ético sobre assuntos sérios. Como a tolerância terceirense extremamente digna pelas opções sexuais de cada um. Um exemplo para o país. E faz retratos humanos muito ricos, como os vendedores do mercado do gado.
Este livro tem de tudo: pensamentos, coisas sérias, ironia, bom humor e até hilaridade, receitas, História e estórias.
Tem a cor das ilhas e a alma do grupo central dos Açores. Quem escreve assim tem que escrever muito mais porque ficamos presos.
Profile Image for João Duarte.
140 reviews4 followers
April 24, 2017
Em tempos já distantes, reza a lenda que uma bela donzela açoriana se tomou de amores por um escravo. Porém, como era hábito,teve de se sujeitar ao marido que lhe fora escolhido, mas por quem não estava minimamente apaixonada. Falando com o escravo seu amado, rapidamente concluíram que tinham de fugir, por forma a poderem viver o seu amor sem proibições. Contudo, esta conversa fora ouvida, pelo que o marido lançou gente a perseguir o seu rival. Cansado de fugir, o escravo parou no meio da ilha Terceira, onde chorou tanto que formou uma lagoa, na qual se veio a afogar.

Esta é a lenda da lagoa do negro, uma das atrações turísticas da ilha Terceira, e que serve de mote para espelhar aquele não-sei-quê de magia com que suavemente somos envolvidos nos Açores. Não sabemos se é da transição drástica do pardacento nevoeiro para o céu radioso que deixa ver um oceano impossivelmente azul; tão pouco se será de uma paz já tão rara que nos deixa sós connosco, mas ao ir à Terceira regressamos maiores, mais plenos, e com a certeza de lá voltar para buscar aquele pedacinho de alma que lá ficou.

E depois, além da paz tão em desuso, há os plácidos velhotes que contemplam as ruas, a simplicidade estóica de vidas que dependem do que a terra e o gado dão. Há o cheiro a alcatras que consolam o espírito, e a felicidade num bolo Dona Amélia. Há a enorme ironia de um local que parece pertencer a outro tempo, passado, estar afinal muito avançado no que realmente importa na vida.

Não, desta vez não falei do livro. Esta obra fala-nos de uma ilha, e das memórias e vivências que lhe estão associadas. Mas eu tive o privilégio de ler "A Vida no Campo" na ilha Terceira e, depois de ter lido "Arquipélago", será sempre uma redundância dizer que Joel Neto escreve muito bem... sobrou, por isso, o grato prazer de recordar a inspiradora ilha em breves palavra.
Profile Image for Vanessa.
95 reviews15 followers
October 4, 2016
Muito fácil de atribuir as estrelas, são 5 porque não há mais :)

Difícil é falar sobre o que se vai sentindo ao ler este livro...
É delicioso, é cheio de detalhe, é cheio de aprendizagens, é cheio de lições de vida...

Quando estava a ler este livro tive o prazer de conhecer o escritor Joel Neto no Folio (Óbidos), ouvi-lo falar e ler um pouco desta sua "vida no campo".

O Joel Neto é uma simpatia e uma pessoa muito afável, fala com paixão da vida e das pequenas coisas da vida, isso transparece na sua escrita.

Leiam...leiam mesmo...
Profile Image for Leonor.
210 reviews
October 5, 2016
Crónicas açorianas, cristalinas e tão cheias do viver nas ilhas. Os sons, os cheiros, as rotinas, as cores, o contraste com a vida largada na cidade. Um ferrão de saudade.
Voltar lá, voltar para lá, isto é uma nuvem que paira sempre em cima da minha cabeça, este livro é um embalo dessa ideia subterrânea aos meus dias. Que bom.
Profile Image for Marta Skoober.
184 reviews18 followers
September 4, 2016
Terno, cálido, humano é assim que vejo o livro A vida no campo.
Pareceu-me estar sentada à mesa de uma cozinha de fazenda ouvindo alguém a ler cartas para mim.
Voltarei a ele muito em breve, assim espero.
Profile Image for Evalunasylva.
455 reviews1 follower
March 19, 2017
Gostei muito! Uma escrita simples, sem pretensiosismo, que relata a vida na ilha Terceira, Açores.
Fiquei curiosa para ler O Arquipélago.
Profile Image for Carlos Azevedo.
Author 9 books19 followers
February 17, 2017
O que surpreende neste livro não é a capacidade literária do autor, por demais justamente vincada a propósito de Arquipélago.

É a intimidade que nos traz com o seu passado e acima de tudo com a convivência com a vida fora da urbe moderna. Ainda melhor: a sua capacidade de relativizar a impossibilidade de um "urbano" ser alguma vez outra coisa.

Pode viver-se no "campo", mas essa noção desapareceu. Há os que vivem nos prédios e os que vivem nas casas, alguns rodeados de parques de estacionamento ou carros em cima dos passeios.
A diferença está nos que olham para a natureza e os que olham para o carro de compras do supermercado.

É aqui que está a marca de Joel Neto e que nos abre os olhos para nós próprios.
Profile Image for Maria João (A Biblioteca da João).
1,387 reviews251 followers
September 26, 2016
9,5 de 10*

“A Vida no Campo” foi o primeiro livro que li de Joel Neto e posso afirmar que fiquei arrebatada logo às primeiras páginas. A escrita de Joel é envolvente e viva. A paixão que o autor sente pela sua terra, pelo campo, pela sua “nova vida” está refletida em cada palavra deste livro.

Comentário completo em:
http://abibliotecadajoao.blogspot.pt/...
Profile Image for Francisca Prieto.
62 reviews8 followers
September 3, 2016
Deliciosas crónicas de um açoriano que volta a morar nos Açores depois de vários anos em Lisboa. A visão de quem já esteve fora e consegue apreciar todas as pequenas idiossincrasias dos seus conterrâneos.
Profile Image for Maria.
318 reviews33 followers
October 25, 2016
Que leitura deliciosa!
Gostei mesmo muito de o ler :-)

E gostei muito de iniciar no Outono e acabar em "Setembro" :-)
Foi como que um círculo e começou e acabou com chaves de ouro :-)
Profile Image for Bárbara Costa.
232 reviews56 followers
April 21, 2021
Apesar de não ser uma escolha consciente, a literatura (especialmente contemporânea) Portuguesa tem sido uma lacuna constante nas minhas leituras. Talvez seja porque existem já tantos livros que quero ler (e tão pouco tempo, como dizia Zappa), ou talvez seja por associar livros Portugueses à antiga obrigação escolar (que, infelizmente, acabava por diminuir a apreciação de algumas das obras analisadas).
No entanto, há algo de reconfortante e melancólico em nas crónicas de Joel Neto, que procuram e encontram o belo na simplicidade da Ilha da Terceira (e que me fizeram lembrar nesse aspeto as histórias de Calvino). Bem sei que um livro por si só pode não mudar esta tendência, mas o facto é que A Vida no Campo foi uma delícia de explorar. A obra aumentou sem dúvida a vontade de (re)descobrir mais autores nacionais, isto para nem falar do desejo de finalmente visitar os Açores, que em tempos de pandemia soam cada vez mais um destino paradisíaco.

(Edit: Ou soavam, antes do lockdown recente) :c
Profile Image for Ana.
759 reviews178 followers
April 20, 2017
Nesta época pascal, na qual a primavera que rebentou em força nos faz olhar com encanto e confiança para os dias que aí se avizinham, tive o privilégio de viajar (fisicamente) até a outra ponta desta península “à beira-mar plantada” e de, através das belíssimas e serenas palavras de Joel Neto, atravessar o Atlântico e penetrar nas portas da sua casa em Dois Caminhos, freguesia da Terra Chã, ilha Terceira, Açores.
Nunca estive no arquipélago açoriano. Até hoje, apenas pude sentir-lhe o sabor a partir da partilha de relatos de amigos e familiares, de imagens e fotos, do anticiclone homónimo e ultimamente dos escritos de Joel Neto, um autor que me arrebatou com a obra Arquipélago. Contudo, apesar de o contacto com essas nove ilhas mágicas nunca ter passado disso, sinto uma vontade imensa em aterrar numa das ilhas, calcorrear a sua paisagem, fixar o olhar naquela imensidão de mar, absorver o seu verde até à náusea e inclusive experimentar a sensação de claustrofobia que me aprisiona sempre que estou num pedacinho de terra rodeado de água.
Como monetariamente ainda não me pude dar ao luxo de desfrutar de uns dias nos Açores, vou tentando colmatar essa falha nas minhas escapadelas geográficas com escapadelas literárias. Sendo assim, tento escolher os “guias” mais conhecedores e que, através de uma linguagem simples e serena, me oriente e dê autonomia para que o deslumbramento seja intenso e pleno, tal como o é tudo o que se relaciona com umas ilhas onde a palavra “paraíso” continua a fazer completo sentido.
Joel Neto entrou na minha vida com o seu Arquipélago. E deixou marca. Uma marca indelével e que exige o que qualquer obra sublime exige – busca companhia, busca outras narrativas do mesmo autor que deixem o leitor em estado de êxtase. De novo.
Sabia de antemão que A vida no campo não era uma narrativa ficcionada. Sabia que se assemelhava a um diário que nos possibilitava seguir as pisadas de Joel Neto durante um ano, durante as quatro estações em que a obra está dividida. Mas estava confiante de voltaria a deliciar-me não só com o estilo singelo do autor como com uma continuação de uma ode à infância, às gentes que povoaram não só esta etapa como a mais adulta e à simplicidade e magia do verde e do azul das paisagens açorianas.
Não estava enganada. Joel Neto apropria-se de tudo – sobretudo o mais corriqueiro e quotidiano – para partilhá-lo connosco. O seu dia-a-dia no lugar de Dois Caminhos e os passeios que vai fazendo por outras bandas da sua ilha, as suas fugidas para Lisboa, a gente que traz um colorido especial à sua rotina, os costumes, tradições, linguagens e nomes estapafúrdios que abundam pela ilha da Terceira e vizinhas, tudo isto escrito num estilo muito simples, prosaico, mas repleto de humor, alguma ironia e com muita matéria para reflexão.
Foi, como é fácil de adivinhar, uma leitura muito produtiva, que me abriu de novo as portas para entrar no arquipélago açoriano, mas que me deixou, por um lado, imensamente agradecida a Joel Neto e desejosa de ler mais dos seus escritos e, por outro, com um travinho de frustração, já que pude, a partir das suas palavras, viajar do continente até à Terceira, mas não estive verdadeiramente lá e sei que, se já lá estivesse estado, sentiria como mais minhas as paisagens, as gentes, as alterações climatéricas, as tradições, as comidas, enfim a alma açoriana. É só por esta razão que não lhe atribuo a nota máxima. Apenas por isso.
Termino com alguns dos muitos fragmentos que fui sublinhando:

“Àquele silêncio nunca mais o encontrei. Acho que é sobre ele que escrevo todos os dias.”
“Mas não tenho uma insónia há quase dois anos e meio.”
“No alarm and no surprises cantam os Radiohead. Tenho o disco no porta-luvas desde o primeiro dia – quase todas as semanas o ponho no leitor.” (Muito bom gosto musical, Joel)
“As mentiras em que as pessoas sustentam a sua felicidade são tão válidas como as verdades.”

NOTA – 09/10
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