Às vezes tenho a sensação de que o escritor se sentou no meu jardim de infância e escreve a partir de lá. Este livro leva-me a revisitar a ilha onde nasci; e ainda mais, a minha vida. Volto à Terceira e a minha pare terceirense vibra. Não conheço o escritor pessoalmente mas oiço a sua voz enquanto o leio. Antecipo a ida física a lugares que conheço desde sempre (existiam antes de mim, como o Basílio Simões). Outros, nunca ouvi falar, afinal saí da terceira há 23 anos. Também, o revivo momentos e acontecimentos como é o terramoto de 1980. Situa-se numa das partes da ilha que menos conheço, a Terra Chã e freguesias limítrofes daquela parte de Angra do Heroísmo.
É o diário de um ano. Começa no Outono e sentimos a mudança de ritmo e de clima na sensibilidade da escrita. E inicia muito bem: “Quem mudou o mundo não foram os camponeses honestos, que pagaram os seus impostos e encheram a igreja da freguesia no dia em que foram a enterrar. Dos aventureiros, dos inventores e dos facínoras – deles, sim, reza a História.” (Anúncio)
Quem esperar o que teve em “Arquipélago”, de história intrincada, sofisticada e enredo, desengane-se. Penso que teremos que esperar uns tantos tempos. Em “A Vida no Campo” desfrutamos do pitoresco e do espirito da açorianidade, da observação, da análise da paisagem, da etnografia e até da História. São exemplos a influência da lua no corte do cabelo e na agricultura, as lendas como a Vaca dos Mistérios (não conheço esta mas outras semelhantes). As velhas! Esta expressão cultural cantada de que gosto imenso. E também como os sismos e as tempestades fazem parte do nosso quotidiano simples e normal.
Está cá tudo a que me habituou. Por exemplo, esta característica, tão nossa:
“Mas não deixei de registar que nem quando vão de carro para o trabalho, atrasados, acelerando pelos atalhos do mato, os homens da minha terra deixam de procurar o belo. Provavelmente, isso diz tanto sobre ela como todos eles.” (p.23)
E ainda mais esta, de extrema sensibilidade:
“As pessoas da Terceira, como eu, fazem um ar suplicante. As de São Jorge, como o meu avô, um ar pesaroso.” (p. 24)
A sensibilidade humana de Joel Neto é tocante. “No campo, quando uma sirene soa, os ocupantes têm sempre nome. Os próprios bombeiros têm nome.” (p. 31)
E a descrição sensorial do modo como sentimos as estações dos anos leva a tomar consciência de algo que sentimos mas não sabemos descrever assim:
“Os meus vizinhos não se lembram de que é Natal porque as ruas estão iluminadas ou que chegaram os Santos porque lhes cheira a sardinha. É o próprio tempo que fala com eles. Havendo nevoeiros, estamos provavelmente em Junho. Agitando o mar em levadia, então é Agosto de certeza.” (pp. 87-88)
Ou do seguinte modo:
“Os Açores são mais Açores num dia de temporal. E, depois, o sol extemporâneo tem sobre nós um efeito – o mesmo efeito que sentem esses que trabalham de noite e dormem de dia, e que a certa altura perdem mão na passagem do tempo.” (p. 126)
É também nesta capacidade genial de dizer o que todos sentimos e não sabemos como, que nos diz como os tempos mudaram em basicamente uma geração.
“Já ninguém anda de urbana. Os miúdos da classe média vão para a escola de carro. Os pobres nem sequer vão.
Há passageiros inválidos, doentes ou idosos, mas ninguém precisa de se levantar, porque não faltam cadeiras vazias. Não há senhoras grávidas nem com crianças ao colo, e se as houvr inspiram pena, porque ninguém que se preze anda de urbana.
(…)
Andar de urbana era outra coisa. Andar de urbana era uma inevitabilidade. Uma fronteira no tempo. Um caminho.
A vida era tudo o que acontecia quando não se estava a andar de urbana. Mais o que acontecia quando se estava.” (pp. 111-112)
Escreve o falar típico da ilha Terceira e eu oiço as pessoas. Por vezes penso que a riqueza dos vocábulos açorianos pode desaparecer. Graças a Joel Neto talvez não suceda. Pelo menos na Terceira e eu gostava que se passasse o mesmo nas outras ilhas. Devia haver mais pois cada ilha é tão rica! Por exemplo, este trecho, belíssimo:
“- Credo, aquele rapaz é um cegão…
- O que é um ‘cegão’?
- Está sempre a tecer!
- O que é ‘tecer’?
- É inticante
- Ah.
‘Urbana’ é a carreira urbana: o autocarro que vai das freguesias á cidade. Fora as horsa de ponta, leva sobretudo velhinhas: algumas aberrocidinhas, outras mais tenteadinhas e outras já encarreiradinhas.” (p. 22)
Sobre o tema, este trecho é delicioso:
“(…) o sotaque carregado dos terceirenses do campo: não pronuncia os ‘r’ nos finais dos verbos no infinito e arrasta as sílabas fechadas, acrescentando um ‘i’ ou um ‘u’ prolongado nas transições.
Gostava de saber como se chama a isto em fonética. Se me pedissem para baptizá-lo, só me ocorria preguiça (…)” (p. 128)
“Batata da terra”!!!! Há quanto tempo não ouvia o termo. Quase que já o esquecera.
Algo mais que Joel Neto tem é a sensibilidade é de não expor e muito menos alimentar a rivalidade entre as ilhas. Antes pelo contrário, como, por exemplo, quando escreve sobre a Marcha dos Coriscos: “Havia nos seus rostos uma admiração genuína, libertada após demasiados anos de bairrismos e de ódios. E havia alegria.” Nunca vi a atuação desta marcha ao vivo; tem sido sempre na televisão. Mas é precisamente o que sempre senti quando a vejo e subscrevo por baixo.
Também há receitas. Como a das Donas Amélias (a minha é um pouco diferente, essencialmente na adição de corintos), que inclui também a História da origem deste doce magnífico, um dos grandes embaixadores da extraordinária doçaria terceirense. E a das sopas do Espírito Santo. Há lá coisa mais deliciosa!!!
O sentido de humor e o ritmo que imprime à sua escrita é belíssimo. Creio que ilustra muito bem na mangueira que pode mudar a vida de um homem. E a sua opinião sobre as touradas à corda.
E as suas definições de emoções, acontecimentos e até instrumentos do quotidiano? Magníficas. Como a caixa de ferramentas: “(…) as caixas de ferramentas estão para o homem sem o que fazer com elas como as revistas de viagens estão para os viajantes sem tempo, dinheiro ou até vontade de viajar: são um substituto.” (p. 114)
Joel Neto observa, questiona e reflete como faríamos se tivéssemos o seu talento. No homem rude quando vê o mar, penso existir um ótimo exemplo da sua finíssima sensibilidade.
E aprendo coisas novas, o que me é indispensável como nos casos do melro-preto e de São Bento (o santo, não a freguesia) e a ganadaria de Humberto Filipe, que me deixa com curiosidade.
A sua descrição e até trocadilho com os nomes açorianos e, especialmente, os graciosenses é outra parte genial deste livro. O remate que lhe faz (tão bem dito!) retrata perfeitamente aquilo em que eu também acredito sobre os novos nomes que arranjamos para os nossos filhos nos dias de hoje (talvez desde que a minha geração começou a procriar).
Há várias partes cheias de humor. Como os coelhos na sua horta. Ou a comparação entre o seu cão e a avó. Ou, ainda, um casamento em São Sebastião. E a reação do valente que não tinha medo de andar de avião (esta fez-me dar uma gargalhada). E as seguintes passagens, que me fazem sorrir 5 minutos depois de acordar:
“Por mim houve um tempo em que não acreditava que o Planeta estivesse em desequilíbrio. Tinha a mania de que era liberal – o próprio efeito de estufa fora inventado em Porto Alegre, para chatear os capitalistas.
Ontem voltei a levar uma vergastada.” (p. 186)
…./….
“Eu alinho coo posso. Mastigo se respirar pelo nariz, dizendo a mim próprio que afinal é bom. Arqueio as sobrancelhas:
- Realmente, já não se podia com tanta carne.
Mas aquilo em que estou a pensar é num bolo de pé de torresmo.” (pp. 187-188)
Também escreve de modo intimista e ético sobre assuntos sérios. Como a tolerância terceirense extremamente digna pelas opções sexuais de cada um. Um exemplo para o país. E faz retratos humanos muito ricos, como os vendedores do mercado do gado.
Este livro tem de tudo: pensamentos, coisas sérias, ironia, bom humor e até hilaridade, receitas, História e estórias.
Tem a cor das ilhas e a alma do grupo central dos Açores. Quem escreve assim tem que escrever muito mais porque ficamos presos.