«Esta viagem é assim. Necessita de enredos, como combustível. Perder tempo com as histórias que vou encontrando não atrasa a viagem - dá-lhe movimento.» Percorrer a costa portuguesa, de Caminha a Monte Gordo, é uma das mais belas viagens que se pode fazer na Europa. Há muitas formas de cruzar essa orla magnífica, incrivelmente variada e harmoniosa. Esta é uma jornada de repórter. Uma narrativa que inclui as estradas, as paisagens, as praias, as cidades, mas também as pessoas, as histórias. Um casino numa aldeia, uma capela que desapareceu misteriosamente, a última noite de uma discoteca de praia, um parque de campismo proibido a campistas, uma comunidade de amor livre, um homem que vive sozinho numa ilha, um pescador que comunica com os peixes. O que se pode descobrir quando, com uma moto, uma tenda e todo um Verão pela frente, mergulhamos no mundo da beiramar portuguesa? Este livro é uma colecção de achados de viagem. Formas de vida, sombras do passado, pequenas utopias redentoras. Pode ser lido como um guia das praias e dos caminhos, um diário de aventura, ou um ensaio sobre a identidade portuguesa.
Paulo Moura é um repórter quando viaja, ele próprio no-lo diz: «Para mim, as viagens sempre foram aventura, mas nem sempre lazer. É preciso trabalhar muito para que se tornem interessantes. Não basta ir aos sítios. É preciso fazer com que as coisas aconteçam. Procurar, perguntar, investigar, interpelar. São necessário fios narrativos, pretextos que façam nascer enredos» (pág. 9, 1.ª edição, Maio de 2016). E, na página seguinte: «Se há várias formas de viajar, a minha será sempre a do repórter.»
Mas é também um poeta, pela beleza que vê, daquilo que lhe interessa, e a beleza que dá a ver. É um repórter-poeta.
Adverte-nos, também nas páginas iniciais, de que a sua viagem não foi linear e de que teve de voltar aos locais («É preciso recuar, andar às voltas, voltar aos lugares», pág. 10). Esta viagem, de Caminha a Monte Gordo, ou mais além, «é uma viagem prodigiosa, inesquecível. O sereno itinerário das cegonhas e o percurso angustiado das feras ao longo das grades. É a grande viagem portuguesa. Podemos fazê-la uma vez na vida ou pela vida fora, mas não a podemos evitar» (pág. 11).
As descrições são uma parte importante da reportagem e da poesia da reportagem: uma poesia terrena, em que o que importa não é tanto as palavras belas como a beleza que reside na realidade das coisas. E por isso, temos boa parte do texto a descrever, de forma precisa, o que o autor / narrador / repórter / poeta da reportagem vê: «Jean-Jacques, biólogo marinho de formação, abre uma ostra com a sua navalha. “Isto é o coração”, mostra ele, tocando com a ponta da lâmina num nódulo palpitante no centro do corpo transparente do bivalve. “É a bomba que puxa e repele a água, que passa por estes filtros e deixa o plâncton.” Indica umas fímbrias escuras que contornam a massa esponjosa e quase líquida do aparelho digestivo da ostra. “O plâncton é absorvido nestes filamentos. Estes dois músculos permitem a circulação da água através do organismo. O branco abre, o cristal fecha. No fundo do mar, a ostra abre a concha e há uma circulação de água em permanência. O plâncton é retido, para alimentar a ostra, deixando nela o sabor da água. O sabor e o aroma de toda a matéria orgânica da região. A ostra apanha o sabor do local onde está» (pp. 243–244). Na página seguinte, descreverá a odisseia das ostras (da região de La Rochelle, França, até Sagres, e de volta a França).
Numa das várias incursões que fez pelo mar, descreve a faina de um grupo de pescadores: «Os pescadores tornam-se frenéticos no seu trabalho, fanáticos nos seus postos, nas suas funções, como máquinas. Os rostos tornados cobertos de sal e de frio, de dor, renuncia e fatalidade, e, também, de uma estranha loucura. São formigas sobre uma folha a rodopiar num oceano imenso e furioso, um cenário que os engole e aniquila pela desmesura, por uma grandiloquência que os não perturba, nem envaidece. E em que, por a não verem, participa,. E ninguém diria que isto é a sua rotina diária, mas antes uma luta, um pânico no interior de uma catástrofe, uma epopeia» (pp. 173–174).
Outros episódios e reflexões marcantes incluem os motards clássicos e românticos, a eco-aldeia de Tamera, o pescador da ilha do Pessegueiro, as migrações de portugueses para Marrocos nos anos 60, a filosofia por detrás do nudismo, a descrição da Figueira da Foz, os habitantes da Berlenga e os das ilhas da Ria Formosa (que não é, na verdade, uma ria…). E o capítulo sobre o Clube de Campismo do Concelho de Almada é simplesmente delirante, de tão surreal — e tão crível — que é a bizarria dos comportamento possíveis num parque de campismo (que também não é, propriamente, um parque de campismo…).
Quando iniciei a leitura deste livro tinha a expectativa de encontrar as aventuras de um Easy Rider português. Mota, tenda, pouca bagagem para não atrapalhar e estrada, muita estrada com peripécias e movimento. Não é essa a trama do livro. Conta muito da história recente, e menos recente, de quem somos. A história de alguns capitães da indústria, pela boca dos da estrutura de base. E de resistente de locais que já foram famosos. Apreciei sobretudo a história da emigração, quase de massas, dos algarvios, e não só, para o norte de África. Como as situações às vezes se invertem!
Não é um livro de viagens, mas sim de jornalismo literário, o que faz toda a diferença naquilo que podemos encontrar nestas páginas. Num percurso entre Caminha e Monte Gordo (ou Marrocos, já que algumas histórias se passam neste país do Norte de África), o jornalista Paulo Moura vai-nos contando histórias daquilo que se passa nos sítios onde para. Em alguns casos, dá algum contexto histórico, mas são raras as vezes em que se foca naquilo que vive enquanto faz esta viagem.