Sentimental, o sexto livro de poemas de Eucanaã Ferraz, é ao mesmo tempo claro e paradoxal. Claro porque, a exemplo de livros como Rua do mundo e Cinemateca, suas obras anteriores, busca a luz mais clara do pensamento numa poesia que é, acima de tudo, a procura pelo entendimento das coisas. Paradoxal porque, como seu título pode sugerir, investe num olhar mais emocional da vida. Há isso, claro, no conjunto de poemas. Porém sem uma gota de sentimentalismo. É esse equilíbrio entre sentimento e razão que faz do livro um acontecimento literário na poesia brasileira. Com poemas que tratam da memória dos afetos e das relações destinadas a compor a tessitura de nossos sonhos e recordações, Sentimental investe - com a ensolarada delicadeza característica do autor - no amor, nas viagens, na literatura. Por vezes irônico, sempre coloquial e com grande finura, Eucanaã cria um elenco de poemas que sinalizam, em sua precisa elegância, a construção de uma obra das mais originais em nosso cenário.
Eucanaã Ferraz nasceu no Rio de Janeiro, em 18 de maio de 1961. Publicou, entre outros, Desassombro (2002, Prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Fundação Biblioteca Nacional), Rua do mundo (2004), Cinemateca (2008, Prêmio Jabuti), Sentimental (2012, Prêmio Portugal Telecom de Poesia), Escuta (2015), e, para o público infanto-juvenil Bicho de sete cabeças e outros seres fantásticos (2009) e Palhaço, macaco, passarinho (Prêmio Ofélia Fontes, pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, o Melhor Livro para a Criança). Organizou vários livros, entre eles, Letra só (2003) e O mundo não é chato (2005), ambos de Caetano Veloso; reuniu poemas e letras de canção na antologia Veneno antimonotonia (2005); após preparar a Poesia completa e prosa de Vinicius de Moraes (2004), passou a coordenar a edição das obras do poeta (Companhia das Letras). Publicou, na coleção Folha Explica, o volume sobre Vinicius de Moraes (2006).
É Professor de Literatura Brasileira na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ e, desde 2010, atua como Consultor de literatura do Instituto Moreira Salles, onde elabora publicações, exposições, debates, cursos e espetáculos.
É muito difícil avaliar poesia, principalmente contemporânea. Não sabemos se o que se escreve hoje vencerá o rigoroso crivo do tempo, ainda mais de uma arte tão pouco valorizada quanto a poesia.
Em “Sentimental”, Eucanaã Ferraz amalgama uma sorte de poemas, cujo teor lírico é explorado de diversas maneiras: saudade, amores findados, a beleza das coisas simples, lugares e as dores da alma.
Nota-se um grande número de referências intertextuais, com outros poetas tais como Murilo Mendes, Ferreira Gullar, Machado de Assis e Fernando Pessoa. Algumas menções são mais óbvias, outras bem sutis. Em um de seus poemas, Eucanaã fala de Hamlet sem ao menos citar uma única passagem ou ao menos um personagem. Em outro, presta homenagem a Elvis da maneira mais singela possível. Além disso, estão presentes nos poemas diversas paisagens de fundo que emolduram o lirismo do autor: Paris, Lisboa, Rio de Janeiro, São Paulo… Há que se ter repertório. Caso contrário, muitos significados se perderão.
Ao meu ver, nem sempre o poeta preza pela clareza e pela inteligibilidade dos versos. Isto me incomoda na maioria dos casos. Poesia já não é lida em nosso país (talvez no mundo) e, portanto, criar uma atmosfera ora impenetrável, ora bastante cifrada, não me parece muito convidativo para novos leitores. Este hermetismo mais afasta do que aproxima.
Quero destacar o poema “Exorbitar amontoar” que me tirou boas risadas: uma história de (des)amor em tempos digitais que chega ao fim.
“Sentimental” é um livro curto, com belas passagens tocantes, contudo irregular, fato normal em qualquer coletânea ou antologia. Vale a pena a leitura para conhecermos a poesia contemporânea brasileira.
Por menos que goste de poesia, se um dia se aventurar, leia Eucanaã. Neste compêndio de sentimentos, o poeta volta-se para a interação do seu eu-lírico com o que está ao redor: ex-amores, amigos que partem, novos amores, o cotidiano das cidades de São Paulo, Lisboa e Paris, a perspicácia da observação daquilo que faz parte de uma rotina de vida. Nela, todos os dias o poeta se levanta e se põe a trabalhar com a sua leitura de tudo. Do silêncio ao pranto, tudo o que existe no meio é verso. Alguns poemas, como em todo livro, se sobressaem. Não porque são melhores que os outros, mas porque na minha relação com eles, melhoraram-me.
Costumo gostar muito de livros de poesia. Este me deixou com alguns incômodos, principalmente na escrita e diagramação. Mas os temas são ótimos, promissores e tem ensaios bem legais no que diz respeito a conteúdo.