Um dos autores de quadrinhos mais premiados no Brasil, Lourenço Mutarelli tem conquistado cada vez mais a admiração do público e destaque na mídia após suas incursões no cinema, no teatro e na literatura. E agora ele mostra um pouco mais do seu talento em A Caixa de Areia ou Eu Era Dois em Meu Quintal, uma auto-biografia em quadrinhos na qual ele mescla experiências pessoas a eventos fictícios e sonhos. Todo o visual do livro foi criado pelo autor para passar a idéia de que A Caixa de Areia é uma história escrita e desenhada nas páginas envelhecidas de um caderno escolar. Até mesmo a capa foi concebida com esta intenção. Através de páginas extremamente detalhadas, Lourenço Mutarelli cria um elo de intimidade com o leitor, dividindo com eles suas memórias e devaneios de infância e dos dias de hoje numa história que explora os sonhos do autor quando criança. Ilusão e realidade se fundem numa história sem igual.
Quando li pela primeira vez A caixa de areia: Ou Eu era dois no meu quintal, de Lourenço Mutarelli, achei genial. A brincadeira com a realidade, com o tempo, a consequências disso na sua vida e na do seu filho e sua esposa, o fato de achar brinquedos perdidos na praia na caixa de areia do seu gato, Nanquim. Tudo isso poderia ser apenas uma história contada por dois homens caricatos, Kleiton e Carlton, que dirigem infinitamente num deserto sem fim, então o que seria de nós e da realidade? Naquela época eu era mais impressionável, mais inocente e, obviamente com muito menos bagagem de leitura do que tenho quase quinze anos depois. Por isso, se na época eu avaliei este como o melhor trabalho em quadrinhos de Loureço Mutarelli que eu tinha lido, hoje já não acho isso, prefiro Diomedes, por exemplo, ao menos na minha memória afetiva/cultural. Se naquela época eu teria dado cinco estrelas no GoodReads, hoje eu dou quatro estrelas. Isso porque as partes de Kleiton e Carlton me parecem bastante over para a proposta do quadrinho. Quem sabe relendo daqui mais quinze anos eu não pense esse quadrinhos de forma diferente?
Há formas de arte que não se deixam compreender de imediato; não por falta de repertório, mas porque desorganizam aquilo que julgávamos já consolidado. Foi assim que encontrei A Caixa de Areia ou Eu Era Dois no Meu Quintal, de Lourenço Mutarelli: não como uma leitura que se oferece, mas como uma experiência que insiste em escapar. Ao final, não havia síntese, apenas uma espécie de confusão persistente, não como sinal de fracasso, mas de deslocamento.
Clássico dos quadrinhos brasileiros e última HQ publicada por Lourenço Mutarelli, A Caixa de Areia ou Eu Era Dois no Meu Quintal combina ficção e traços autobiográficos para atravessar memória, tempo e identidade. A obra acompanha, de um lado, Kleiton e Carlton, duas figuras que vagam de carro por um deserto enquanto divagam sobre a existência; de outro, um personagem chamado Lourenço, quadrinista que, ao revisitar a infância, tenta compreender o reaparecimento de objetos perdidos na caixa de areia de seu gato. Entre o íntimo e o insólito, constrói-se um percurso em que realidade e imaginação se tensionam continuamente.
No entanto, em um terreno instável, alguns elementos surgem como pontos de apoio, e talvez eu tenha me agarrado a eles mais do que gostaria de admitir. O gato, e tudo o que se organiza ao seu redor, aparece como uma espécie de eixo silencioso, algo que sugere ancoragem em meio à dispersão. Não se trata de um elemento que esclarece ou resolve, mas de uma presença que impede o completo esfacelamento da narrativa, como se a própria obra necessitasse de um vestígio de ordem para sustentar sua desordem.
Contudo, essa ancoragem nunca se sustenta por completo. Há algo na lógica da obra que insiste em escapar, e talvez isso tenha menos a ver com o que é narrado do que com a forma como se percebe. Aos poucos, a memória deixa de ser apenas um conteúdo e passa a operar como estrutura: ela não apenas guarda o passado, mas molda o presente, cristalizando percepções que já não correspondem ao que se é. É nesse descompasso que, ao passar das páginas, a inquietação se instala. A própria imagem da caixa de areia parece condensar esse movimento: um espaço onde vestígios se acumulam, onde algo é constantemente depositado e encoberto, mas nunca totalmente perdido, como se a areia guardasse aquilo que já não existe mais, mantendo-o, ainda assim, em circulação. Tive a impressão de acompanhar não exatamente uma realidade distorcida, mas um olhar que insiste em interpretar o mundo a partir de registros antigos, como se o sujeito permanecesse preso a versões de si que já não existem, mas que continuam determinando aquilo que vê.
Essa sensação de descompasso não se limita ao que é narrado, mas se inscreve na própria forma da HQ. A leitura avança por fragmentos, cortes abruptos e lacunas que exigem do leitor uma espécie de montagem contínua, como se cada quadro fosse apenas uma parte de algo que nunca se apresenta por inteiro. Nesse processo, o sentido não se oferece de imediato; ele precisa ser construído por nós e, ainda assim, permanece instável. Há sempre algo que escapa entre um quadro e outro, como se a narrativa se recusasse a se fechar completamente. Talvez por isso a leitura se aproxime tanto da experiência da memória: não como fluxo contínuo, mas como uma sucessão de imagens que tentamos, sem pleno sucesso, organizar em uma linha coerente.
Essa fragmentação se intensifica na alternância entre dois planos que parecem operar em registros distintos. De um lado, Kleiton e Carlton, figuras quase suspensas no tempo, atravessando um deserto enquanto divagam sobre a existência, como se estivessem presos a um pensamento que não avança. De outro, Lourenço, o quadrinista, inserido em um cotidiano aparentemente mais reconhecível, lidando com pequenas ações, objetos e lembranças. No entanto, essa divisão não organiza a narrativa; ao contrário, acentua sua instabilidade. O plano mais filosófico não esclarece o mundano, e o mundano não ancora o filosófico; ambos se contaminam, criando uma sensação de deslocamento constante, como se nenhuma dessas camadas fosse plenamente confiável.
É nesse contexto que a ideia do duplo, anunciada já no título, ganha força. “Eu era dois” não se apresenta apenas como um dado curioso, mas como uma condição de percepção. Há uma divisão que atravessa o sujeito: aquele que vive e aquele que observa, aquele que lembra e aquele que tenta compreender o que foi lembrado. Essa duplicidade não organiza a experiência, mas a fragmenta ainda mais, como se não houvesse um centro estável a partir do qual a realidade pudesse ser apreendida. Em vez disso, o que se vê é uma percepção rachada, incapaz de coincidir consigo mesma.
Se o sujeito se divide, também a realidade que o cerca deixa de se apresentar como unidade. Talvez por isso nada na narrativa se estabilize por completo: não há um olhar íntegro capaz de organizar o que se vê. Cada tentativa de apreensão parece partir de um ponto distinto, como se o mundo fosse constantemente reconfigurado por perspectivas que não se conciliam. Talvez por isso a narrativa se aproxime de uma espécie de registro imperfeito, como fotografias do cotidiano que, embora capturem algo do real, nunca deixam de ser apenas representações, incapazes de coincidir plenamente com aquilo que pretendem fixar. Nesse sentido, o duplo não é apenas uma característica do sujeito, mas uma condição que contamina toda a experiência: o que se vê já nasce atravessado por essa cisão. Não há, portanto, uma realidade a ser desvendada por trás da confusão, mas múltiplas camadas que se sobrepõem sem jamais coincidir.
Essa instabilidade não se limita ao plano das ideias; ela se impõe também como experiência de leitura. Em vários momentos, tive a sensação de não conseguir me fixar em nada por muito tempo, como se o próprio texto recusasse qualquer tentativa de conforto. Não se trata apenas de dificuldade de compreensão, mas de um desconforto mais difuso, quase físico, como quando algo parece ligeiramente fora do lugar e, ainda assim, não conseguimos apontar exatamente o que é.
Diante disso, qualquer tentativa de organizar plenamente a obra, inclusive este ensaio, parece esbarrar no mesmo limite que ela expõe. Há sempre o risco de impor uma coerência que não lhe pertence, de interpretar a partir de estruturas que a própria narrativa coloca em xeque. Talvez o gesto mais honesto não seja resolver suas ambiguidades, mas reconhecê-las como parte de seu funcionamento. Afinal, se há algo que A Caixa de Areia sugere com insistência, é que aquilo que chamamos de realidade pode ser menos um dado estável do que uma construção frágil, sustentada por memórias que já não correspondem ao que somos, como se entre aquilo que vemos e aquilo que somos houvesse sempre um descompasso irreconciliável.
A Caixa de Areia ou Eu Era Dois no Meu Quintal de Lourenço Mutarelli. São Paulo: Quadrinhos na Cia. 2003. 144p. Leitura de Março 2026.
Meu segundo Mutarelli e dessa vez deu para entender porque ele é um dos grandes quadrinistas brasileiros. Narrativa maluca e genial, leitura direta, artes seguindo o estilo dele.
Sem dúvidas uma obra que suscita pensamentos, reflexões, de teor existencialista e pessimista, leves toques de humor. Justamente por não ser tão extensa, é convidativa para releituras.