No princípio tinha corpo e nome de homem. Depois partiu da aldeia, foi-se embora. Quando voltou era uma mulher, com um nome estranho e um passado de estrela dos palcos. Mas talvez fosse mentira. Por algum tempo foi atração de uma boîte de beira de estrada. Até à noite do incêndio, quando lhe deram o nome de Castiça, e se tornou a tola da aldeia. No primeiro sábado da Quaresma, Castiça aparece morta no fundo de uma pedreira abandonada. Traz vestida ainda a roupa que usara durante o corso e o baile de carnaval. Castiça era a doida da aldeia, cantava nas esquinas, bebia muito, e dizia asneiras alto. Mas não foi sempre assim, nem teve sempre esse nome.
Justiniano Alfarro é preso no próprio dia em que o corpo é descoberto, porque tudo indica, com uma clareza sem margem para dúvidas, que foi ele quem a matou. Seria tudo um logro, um embuste, porque Justiniano era o mais perfeito dos homens. Mas nenhuma voz se levantou quando o levaram, e todos aceitaram a notícia num silêncio cúmplice. Todos, menos as mulheres que o amaram. Antuérpia, sua filha, é uma dessas mulheres. Convencida de que enfrenta um conluio, prepara-se para repor a verdade procurando-a no passado do pai. Mas engana-se, porque a origem de tudo está no futuro da aldeia.
Para quem lê bastante, como eu, encontrar um livro diferente, original e com uma escrita muito pessoal é uma lufada de ar fresco! Foi isso mesmo o que eu senti ao ler “Síndrome de Antuérpia” de João Felgar, um livro diferente que não segue a corrente, mas que também não cai no extremo oposto da erudição. Primeiro os personagens, todos eles cativantes e irresistíveis. Depois a escrita. Como se consegue dizer tanto em tão pouco? Como se consegue deixar pontas soltas aqui e ali para depois com elas fazer uma história muito bem contada?
Foi com bastante expectativa que iniciei a leitura de Síndrome de Antuérpia. Depois da surpresa de descobrir Terra de Milagres, no ano passado, tornou-se inevitável esperar, no mínimo, melhor. Com este novo livro João Felgar continua a surpreender. A fórmula é idêntica em alguns pontos, na medida em que a leitura é rápida e de certa forma compulsiva. A escrita é, pois, fluída, agarrando o leitor. A mim comoveu bastante a história deste livro, talvez mais do que a anterior. Apesar de não ser tão misteriosa, pois não me foi difícil deslindar a trama, é uma narrativa bastante densa e não raras vezes dura. O universo feminino continua a ser um foco de interesse, penso que Cassilda Alfarro é uma personagem extraordinária e muito bem construída, mas obviamente que a maior curiosidade e interesse cai sobre Célio, o rapaz que desapareceu da aldeia e passados vinte anos regressa com o corpo da mulher que sempre teve dentro de si. Voltamos ao ambiente rural, o meio é pequeno e todos se conhecem. Amores, intrigas e lutas familiares. O passado sempre ao virar da esquina, como uma sombra ou um fantasma. Os Alfarro de um lado, família poderosa da terra, e o resto do povo do outro, quase como mero espectador de um dia-a-dia governado por quem pode mexer os cordelinhos. Interessante reflexão sobre a vida em comunidade e sobre quem controla o quê. Sobre o medo das coisas que não se controlam e que, inevitavelmente, o futuro leva à frente, sem piedade. Quando Célio, agora conhecido como Castiça, a tola da aldeia, aparece morto na pedreira, há muito mais além do que aparenta haver. E o que fazer quando o que não podia ter acontecido é já um acto consumado? Poderá quem manda criar a verdade? Será sempre uma mentira para quem sabe o que realmente o que aconteceu. Síndrome de Antuérpia não é uma lição sobre a tolerância, e penso que não pretende ser. É muitas outras coisas. É uma viagem ao coração de uma família doente que já nem luta pelas aparências, por não ser preciso, pois cada um dos seus elementos é de uma transparência que não escapa aos anos de “convívio” entre a população. E mesmo não valendo a pena lutar contra a verdade, e o óbvio ser flagrante, continua a alimentar-se a imagem que Cassilda, agora a matriarca, decide que é a correcta. É também, por exemplo, uma descrição sem paninhos quentes do caminho que Célio percorreu para ser por fora a mulher que sentia por dentro, numa época em que não havia qualquer acompanhamento médico, e só o moveu a vontade de ser feliz e de se aceitar quando se olhava ao espelho. As loucuras a que sujeitou o corpo, sem medo de experimentar, e as terríveis consequências foram uma tortura para si e também para quem lê as descrições do autor. Mas serão certamente uma ínfima parte das dores de tantos Célios. E é isso que na verdade custa – os pensamentos com que o leitor luta depois da leitura. Mas esta luta, quando permanece depois de fechada a última página, é o melhor prémio que um livro pode oferecer. Síndrome de Antuérpia permanece. Dificilmente se esquece. Leiam-no!
Síndrome de Antuérpia é um livro que se propõe a resolver um crime e a decifrar as gentes de uma povoação. Num dia de festa, Castiça, nascida Célio, é morta de forma violenta e deixada no fundo da pedreira da vila. Pouco depois, prendem o herdeiro de vastas terras na povoação, Justiniano Alfarro, por este crime. E, assim, com a promessa de segredos ocultos e realidades difíceis de acreditar, leva-nos o autor a começar o livro. Não pude de deixar de comparar este livro a um do mesmo autor (“Terra dos Milagres”), que se demonstrou disruptivo e de personagens muito ricas. Infelizmente, “Síndrome de Antuérpia” ficou aquém. Ainda que a estória de base desse um bom conto, faltou-lhe substância para encher tantas páginas, sendo que o autor se perde inúmeras vezes em descrições demasiado extensas e irrelevantes para o enredo principal. Relativamente às personagens, existem poucas e muito estereotipadas, sendo as mais interessantes e invulgares, Antuérpia, filha de Justiniano, a sua avó (mãe de Justiniano) e as irmãs Veneno. Em geral, o autor descreve uma comunidade resignada aos seus papéis sociais e em que todos parecem ser mutuamente manipulados num constante jogo de aparências. Ainda assim, gosto muito do estilo de escrita do autor, que brinca gentilmente com as palavras.
O delito, mesmo o mais reles, quando suportado em bons valores, tem algo de bíblico. A justiça é um exercício lúdico que se reserva para épocas de quietude e ócio. Por um marido não se deve ir além da estima. O vício é o consolo dos pobres. Ao dinheiro respeita-se, o poder teme-se. Todo o poder que não fosse ganho pela conquista era ridículo e ligeiramente amaricado. Toda a norma se cria a partir da manha e do ridículo. O privado não é aquilo que os outros não sabem, é o segredo que todos guardam. A exposição pública das fraquezas e intimidades dos ricos é o entretém dos pobres. Não há povos serenos nem pacíficos. Há povos sem causas. A desobediência é o gérmen da grandiosidade. Era bruta, como são todos os que chegam ao poder pela conquista ou pelos laços de afinidade. Não se deve mentir às pessoas espertas. Quando descobrem a verdade revoltam-se. Sabendo da verdade naturalmente não fazem nada.
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Escrita com muito ritmo, eloquente, que incorpora um tom coloquial e ao mesmo tempo erudito, com expressões próximas do "falar" dito popular, de tal forma que, por vezes, sentia estar a ouvir alguém contar-me a história e não a lê-la. Retrata muito bem, ou melhor, analisa profundamente, os hábitos, qualidades e defeitos, mecanismos de sobrevivência de uma pequena comunidade rural, traçando-lhe o perfil de forma clara e também mordaz. Nada escapa à "lupa" de João Felgar. É brilhante nas descrições dos locais, dos costumes, das pessoas e, sobretudo na forma como vai desvendando as verdadeiras motivações de uns, de outros e de todos. O desenrolar da intriga, quanto a mim, não acompanha o brilhantismo da escrita em si, mas ainda asim é um livro deveras interessante, que vale muito a pena ler.
Cada livro é uma descoberta, neste caso a história e o autor. Desconhecia por completo este autor e ler este livro, sem qualquer expectativa facilitou bastante a leitura. O livro reúne todos os ingredientes necessários para a história nos manter atentos e ligados a ela. Uma heroína fora do comum, uma família disfuncional, gerações anteriores que continuam a influenciar a dinâmica familiar, uma vila pequena, o preconceito, os excluídos, as crenças, a fé, homens e mulheres que procuram o amor, vidas desfeitas, separações e uma morte. Muito bem escrito, com inteligência rigor, sem ser exaustivo nem superficial, tudo na medida certa. Seguramente um autor para voltar a ler.