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Síndrome de Antuérpia

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No princípio tinha corpo e nome de homem. Depois partiu da aldeia, foi-se embora. Quando voltou era uma mulher, com um nome estranho e um passado de estrela dos palcos. Mas talvez fosse mentira. Por algum tempo foi atração de uma boîte de beira de estrada. Até à noite do incêndio, quando lhe deram o nome de Castiça, e se tornou a tola da aldeia.
No primeiro sábado da Quaresma, Castiça aparece morta no fundo de uma pedreira abandonada. Traz vestida ainda a roupa que usara durante o corso e o baile de carnaval. Castiça era a doida da aldeia, cantava nas esquinas, bebia muito, e dizia asneiras alto. Mas não foi sempre assim, nem teve sempre esse nome.

Justiniano Alfarro é preso no próprio dia em que o corpo é descoberto, porque tudo indica, com uma clareza sem margem para dúvidas, que foi ele quem a matou. Seria tudo um logro, um embuste, porque Justiniano era o mais perfeito dos homens. Mas nenhuma voz se levantou quando o levaram, e todos aceitaram a notícia num silêncio cúmplice. Todos, menos as mulheres que o amaram.
Antuérpia, sua filha, é uma dessas mulheres. Convencida de que enfrenta um conluio, prepara-se para repor a verdade procurando-a no passado do pai. Mas engana-se, porque a origem de tudo está no futuro da aldeia.

268 pages, Paperback

Published May 20, 2016

22 people want to read

About the author

João Felgar

2 books3 followers

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Displaying 1 - 8 of 8 reviews
Profile Image for Maria João (A Biblioteca da João).
1,387 reviews250 followers
June 17, 2016
8,5 de 10*

Para quem lê bastante, como eu, encontrar um livro diferente, original e com uma escrita muito pessoal é uma lufada de ar fresco!
Foi isso mesmo o que eu senti ao ler “Síndrome de Antuérpia” de João Felgar, um livro diferente que não segue a corrente, mas que também não cai no extremo oposto da erudição. Primeiro os personagens, todos eles cativantes e irresistíveis. Depois a escrita. Como se consegue dizer tanto em tão pouco? Como se consegue deixar pontas soltas aqui e ali para depois com elas fazer uma história muito bem contada?

Comentário completo em:
http://abibliotecadajoao.blogspot.pt/...
Profile Image for Márcia Balsas.
Author 5 books105 followers
June 14, 2016
Foi com bastante expectativa que iniciei a leitura de Síndrome de Antuérpia. Depois da surpresa de descobrir Terra de Milagres, no ano passado, tornou-se inevitável esperar, no mínimo, melhor.
Com este novo livro João Felgar continua a surpreender. A fórmula é idêntica em alguns pontos, na medida em que a leitura é rápida e de certa forma compulsiva. A escrita é, pois, fluída, agarrando o leitor.
A mim comoveu bastante a história deste livro, talvez mais do que a anterior. Apesar de não ser tão misteriosa, pois não me foi difícil deslindar a trama, é uma narrativa bastante densa e não raras vezes dura. O universo feminino continua a ser um foco de interesse, penso que Cassilda Alfarro é uma personagem extraordinária e muito bem construída, mas obviamente que a maior curiosidade e interesse cai sobre Célio, o rapaz que desapareceu da aldeia e passados vinte anos regressa com o corpo da mulher que sempre teve dentro de si.
Voltamos ao ambiente rural, o meio é pequeno e todos se conhecem. Amores, intrigas e lutas familiares. O passado sempre ao virar da esquina, como uma sombra ou um fantasma. Os Alfarro de um lado, família poderosa da terra, e o resto do povo do outro, quase como mero espectador de um dia-a-dia governado por quem pode mexer os cordelinhos. Interessante reflexão sobre a vida em comunidade e sobre quem controla o quê. Sobre o medo das coisas que não se controlam e que, inevitavelmente, o futuro leva à frente, sem piedade.
Quando Célio, agora conhecido como Castiça, a tola da aldeia, aparece morto na pedreira, há muito mais além do que aparenta haver. E o que fazer quando o que não podia ter acontecido é já um acto consumado? Poderá quem manda criar a verdade? Será sempre uma mentira para quem sabe o que realmente o que aconteceu.
Síndrome de Antuérpia não é uma lição sobre a tolerância, e penso que não pretende ser. É muitas outras coisas.
É uma viagem ao coração de uma família doente que já nem luta pelas aparências, por não ser preciso, pois cada um dos seus elementos é de uma transparência que não escapa aos anos de “convívio” entre a população. E mesmo não valendo a pena lutar contra a verdade, e o óbvio ser flagrante, continua a alimentar-se a imagem que Cassilda, agora a matriarca, decide que é a correcta.
É também, por exemplo, uma descrição sem paninhos quentes do caminho que Célio percorreu para ser por fora a mulher que sentia por dentro, numa época em que não havia qualquer acompanhamento médico, e só o moveu a vontade de ser feliz e de se aceitar quando se olhava ao espelho. As loucuras a que sujeitou o corpo, sem medo de experimentar, e as terríveis consequências foram uma tortura para si e também para quem lê as descrições do autor. Mas serão certamente uma ínfima parte das dores de tantos Célios. E é isso que na verdade custa – os pensamentos com que o leitor luta depois da leitura. Mas esta luta, quando permanece depois de fechada a última página, é o melhor prémio que um livro pode oferecer.
Síndrome de Antuérpia permanece. Dificilmente se esquece. Leiam-no!
Profile Image for Mafalda Ruas.
134 reviews
November 14, 2016
Síndrome de Antuérpia é um livro que se propõe a resolver um crime e a decifrar as gentes de uma povoação. Num dia de festa, Castiça, nascida Célio, é morta de forma violenta e deixada no fundo da pedreira da vila. Pouco depois, prendem o herdeiro de vastas terras na povoação, Justiniano Alfarro, por este crime. E, assim, com a promessa de segredos ocultos e realidades difíceis de acreditar, leva-nos o autor a começar o livro.
Não pude de deixar de comparar este livro a um do mesmo autor (“Terra dos Milagres”), que se demonstrou disruptivo e de personagens muito ricas. Infelizmente, “Síndrome de Antuérpia” ficou aquém. Ainda que a estória de base desse um bom conto, faltou-lhe substância para encher tantas páginas, sendo que o autor se perde inúmeras vezes em descrições demasiado extensas e irrelevantes para o enredo principal. Relativamente às personagens, existem poucas e muito estereotipadas, sendo as mais interessantes e invulgares, Antuérpia, filha de Justiniano, a sua avó (mãe de Justiniano) e as irmãs Veneno. Em geral, o autor descreve uma comunidade resignada aos seus papéis sociais e em que todos parecem ser mutuamente manipulados num constante jogo de aparências.
Ainda assim, gosto muito do estilo de escrita do autor, que brinca gentilmente com as palavras.
Profile Image for Dália Da Silva.
122 reviews1 follower
March 26, 2023
O delito, mesmo o mais reles, quando suportado em bons valores, tem algo de bíblico.
A justiça é um exercício lúdico que se reserva para épocas de quietude e ócio.
Por um marido não se deve ir além da estima.
O vício é o consolo dos pobres.
Ao dinheiro respeita-se, o poder teme-se.
Todo o poder que não fosse ganho pela conquista era ridículo e ligeiramente amaricado.
Toda a norma se cria a partir da manha e do ridículo.
O privado não é aquilo que os outros não sabem, é o segredo que todos guardam.
A exposição pública das fraquezas e intimidades dos ricos é o entretém dos pobres.
Não há povos serenos nem pacíficos. Há povos sem causas.
A desobediência é o gérmen da grandiosidade.
Era bruta, como são todos os que chegam ao poder pela conquista ou pelos laços de afinidade.
Não se deve mentir às pessoas espertas. Quando descobrem a verdade revoltam-se. Sabendo da verdade naturalmente não fazem nada.
This entire review has been hidden because of spoilers.
Profile Image for Isabel.
208 reviews14 followers
October 16, 2017
Escrita com muito ritmo, eloquente, que incorpora um tom coloquial e ao mesmo tempo erudito, com expressões próximas do "falar" dito popular, de tal forma que, por vezes, sentia estar a ouvir alguém contar-me a história e não a lê-la. Retrata muito bem, ou melhor, analisa profundamente, os hábitos, qualidades e defeitos, mecanismos de sobrevivência de uma pequena comunidade rural, traçando-lhe o perfil de forma clara e também mordaz. Nada escapa à "lupa" de João Felgar. É brilhante nas descrições dos locais, dos costumes, das pessoas e, sobretudo na forma como vai desvendando as verdadeiras motivações de uns, de outros e de todos.
O desenrolar da intriga, quanto a mim, não acompanha o brilhantismo da escrita em si, mas ainda asim é um livro deveras interessante, que vale muito a pena ler.
Profile Image for Sofia Cortez.
26 reviews6 followers
June 4, 2024
Cada livro é uma descoberta, neste caso a história e o autor. Desconhecia por completo este autor e ler este livro, sem qualquer expectativa facilitou bastante a leitura.
O livro reúne todos os ingredientes necessários para a história nos manter atentos e ligados a ela. Uma heroína fora do comum, uma família disfuncional, gerações anteriores que continuam a influenciar a dinâmica familiar, uma vila pequena, o preconceito, os excluídos, as crenças, a fé, homens e mulheres que procuram o amor, vidas desfeitas, separações e uma morte.
Muito bem escrito, com inteligência rigor, sem ser exaustivo nem superficial, tudo na medida certa. Seguramente um autor para voltar a ler.
Displaying 1 - 8 of 8 reviews

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